Recostada e com a cabeça reclinada na parede, escutava Pélagué as
reflexões dos dois homens.
Tatiana levantou-se, olhou em roda, tornou a sentar-se. Com um brilho
metálico nas pupillas verdes, lançou olhares de desprezo aos dois.
--Vê-se que tem sido muito infeliz! disse de súbito, voltando-se para
Pélagué.
--É verdade!
--A senhora fala bem... As suas palavras vão direitas ao coração.
Quando a gente a escuta, pensa: «Meu Deus! quem pudesse vêr, ainda
que não fôsse senão uma vez, gente tão bôa, viver vida tão bella!»
Como vivemos nós, aqui? Como uns carneiros! Eu sei ler e escrever... e
leio livros... reflicto muito; ás vezes, tenho idéas que nem me deixam
dormir de noite. E qual é o resultado de tudo isto? Se não reflicto,
soffro, e soffro em vão; se reflicto, é a mesma coisa! De mais, tudo
é baldado! Assim, esta gente do campo: trabalham, esfalfavam-se por
amor d’um pedaço de pão... e nunca possuem nada!... E é isso o que os
irrita; entram a beber, a bater uns nos outros... e lá vão outra vez
para o trabalho. E o que se apura d’ahi? Nada.
Falava assim, deixando transparecer a ironia no olhar e na voz grave e
ampla, detendo-se por vezes, como para cortar as frases, tal a linha
com que estivesse costurando. Os homens nada objectaram.
O vento rufava nas vidraças, susurrava no colmo do tecto, e por
momentos, soprava em brandas lufadas pela chaminé. Uivava um cão. Raras
gottas de chuva vinham, como a custo, fustigar a janella. Oscillava a
luz do candieiro, empallidecia e recomeçava de subito a brilhar, viva e
igual.
--E aqui está para que vivem os homens! E é curioso: persuado-me de que
já sabia tudo isto! Todavia, nunca tinha ouvido nada parecido; nunca
tinha tido idéas d’este genero... nunca!
--Tratemos de cear, Tatiana, e de apagar o lume! interrompeu Stépane
com voz abatida e vagarosa. Essa gente ha de pensar: «Os Tchoumakof
tiveram o lume acceso até muito tarde!» Para nós, isso não teria
importancia, mas é por causa da nossa visita. Talvez seja imprudente...
A mulher logo se levantou, dando-se pressa em obedecer.
--É certo! confirmou Pedro, com um sorriso. É preciso ter cuidado,
agora! Quando se tiver feito nova distribuição do jornal...
--Não é por mim que falo, declarou Stépane, mesmo se me prenderem, a
desgraça não será grande! A vida d’um campónio nenhum valor tem.
Experimentou Pélagué súbita compaixão por aquelle homem. E era mais
viva do que pouco antes a sua simpatia por elle. Agora, que já tinha
falado, sentia-se desajoujada do peso ignobil dos acontecimentos d’esse
dia; sentia-se contente comsigo mesma e cheia d’um sentimento de
benevolencia.
--Não deve falar assim! disse ella. O homem nunca deve medir-se pelo
valor que lhe attribuem aquelles que só o julgam por apparencias
e d’elle só pretendem o sangue. Aprecie-se a si mesmo, na sua
consciencia, não para os seus inimigos, mas para os seus amigos!
--E onde estão esses amigos?! exclamou o camponez. Nunca os vi!
--Mas se eu te digo que ha amigos do povo!
--Haverá, mas não aqui; e essa é que é a desgraça! contestou Stépane,
pensativo.
--Pois bem! n’esse caso, é preciso que os criem.
Reflectiu o outro e respondeu em voz baixa:
--Sim... era o que se precisava.
--Vamos para a mesa! propôz Tatiana.
Durante a ceia, Pedro, a quem as exortações de Pélagué pareciam ter
preoccupado, voltou a falar com animação:
--Sabe, tiasinha? Olhe que é bom que se vá d’aqui cedo, para não ser
notada. Vá á aldeia proxima; não vá á cidade; e tome uma carruagem.
--Para quê? objectou o outro homem. Se eu próprio a levo comigo!
--Nada d’isso! Se acontecesse alguma coisa, não faltaria quem indagasse
se tinha passado a noite em tua casa...--«E para onde foi ella?»
--«Levei-a á aldeia próxima».--Ah, foste tu? Pois vaes para a
cadeia!...» Percebeste? E para que ha de a gente ter pressa de ir para
a cadeia? Cada coisa a seu tempo!... Mas se tu declarares que ella
dormiu cá em casa, que alugou carro e que tornou a ir-se embora, não te
pódem fazer nada. Ninguem é responsavel pelo que fazem os viajantes. Se
passam tantos cá pelo sitio!...
--Já aprendeste a ter medo, Pedro? perguntou Tatiana, irónica.
--É bom aprender de tudo! respondeu, dando uma punhada no joelho. É
bom saber ter coragem e é bom tambem saber ter medo! Lembras-te como
o escrivão lá do tribunal andou a incommodar e a perseguir o Baguanof
por causa d’aquelle periodico? Pois agora, o Baguanof nem por todo
o dinheiro do mundo tocaria sequer n’um d’esses papeis! Creia, bôa
mulher: para mim, é coisa facil imaginar bôas artimanhas; todos o
sabem cá no sitio. Sou capaz de distribuir livros e folhetos como
ninguem... tantos quantos quizer! A nossa gente é pouco instruida
e muito medrosa, é certo; todavia, a vida vae tão dura, que o homem
sempre se vê obrigado a abrir os olhos e a informar-se do que se passa.
E o livro responde-lhe francamente: «Muitas vezes, mais percebe o
ignorante do que o homem instruido... principalmente se o instruido fôr
um d’esses que abarrotam de fartura. Conheço bem o sitio e sei vêr com
olhos de vêr! Póde uma pessoa ir arranjando a vida, mas com esperteza
e muita habilidade, para não ir á forca logo d’uma assentada! As
autoridades tambem percebem que as coisas vão mudadas, que o camponez
anda sorumbático, pouco ri e é de poucas amabilidades... É que, em
geral, passava-se bem sem as taes autoridades!... Ainda ultimamente,
em Smoliakovo--um logarejosito perto d’aqui--vieram os homens para
cobrar uns impostos. Os camponezes então foram a correr buscar cacetes.
«Ah, bestas! Vocês revoltam-se contra o tzar!» gritou o commissário.
E estava lá um rústico, um chamado Spivakine, que respondeu: «Vá você
para o diabo com o seu tzar! Que vem a ser esse tzar que nos leva até á
ultima camisa do corpo?» Ora aqui tem em que as coisas param, tiasinha.
Escusado é dizer que o Spivakine foi preso e atirado para uma enxovia.
Mas ficaram as palavras d’elle, e até as crianças já as repetem.
Ficaram vivas, a bradar, essas palavras!
Nem comia: falava, falava sempre, em murmurio rapido; os olhos, pretos
e astuciosos, brilhavam-lhe, muito vivos. E importunava largamente
Pélagué com mil observaçõesinhas sobre a vida do sitio, como se
estivesse a despejar um sacco de moedas de cobre.
Por duas vezes lhe disse Stépane:
--Anda, come!
Elle agarrava n’um pedaço de pão, n’uma colher, e espraiava-se de novo
em considerações, falando, falando, como um pintasilgo a cantar.
Terminada a ceia, finalmente, levantou-se de brusco, declarando:
--É tempo de voltar para casa!
Approximou-se de Pélagué e saccudiu-lhe a mão:
--Adeus, tiasinha! Talvez nunca mais nos tornemos a ver... Sempre lhe
quero dizer que tive muito prazer em travar relações comsigo e em
ouvil-a falar... sim, senhora, muito prazer! Tem mais alguma coisa na
mala alem dos livros? Um chale de lã? Está muito bem... um chale de lã,
ouves, Stépane? Elle já lhe traz outra vez a sua mala. Vamos, Stépane!
Adeus! Passe bem!
Assim que os dois saíram, Tatiana tratou de preparar cama para a velha;
foi acima do fogão e ao sotão buscar umas roupas e dispôl-as sobre o
banco.
--É um rapaz desembaraçado! observou Pélagué.
A outra respondeu, interrompendo a tarefa para lhe lançar um olhar
furtivo:
--É muito leviano! Faz muita bulha, muita bulha, mas não passa d’ali!
--E seu marido? perguntou Pélagué.
--É um bom homem. Não bebe, e damo-nos muito bem. O unico defeito
d’elle é ser de caracter fraco.
Soergueu-se e proseguiu após um silencio:
--De que se precisa agora? De sublevar o povo, é claro! Todos pensam
n’isso... mas cada um para seu lado! E o que é necessário é que se fale
n’isso bem alto; é forçoso que appareça alguem decidido a fazel-o.
Sentou-se e perguntou sem transição:
--A senhora disse que até já ha meninas finas e ricas a tratarem d’este
negocio, e que vão fazer leituras politicas aos operários... E ellas
não teem medo? não sentem repugnancia?
E depois de ouvir attentamente a resposta de Pélagué, soltou profundo
suspiro e continuou, com as palpebras cerradas e movendo devagarinho a
cabeça:
--Já li uma vez n’um livro que a vida não faz sentido. O que isto
queria dizer percebi eu logo á primeira! Como se eu não soubesse o
que é essa vida: a gente tem umas idéas, mas umas idéas desapegadas
umas das outras, e que andam a vaguear como carneiros estúpidos sem
pastor... Vagueiam, vagueiam... E não ha nada, não ha ninguem que as
reuna... porque a gente não sabe o que ha de fazer para isso! Ora aqui
está o que é uma vida que não faz sentido! A minha vontade era fugir
para longe d’ella, sem mesmo olhar para traz!... Muito infeliz é a
gente quando começa a perceber um poucochinho!...
Esta magua, via-a Pélagué bem no brilho verde dos olhos da mulher,
n’aquelle rosto magro; ouvia-a vibrar n’aquella voz. Pretendeu
consolal-a, acalmal-a:
--Mas a minha querida amiga compreende o que é necessário fazer-se...
Tatiana interrompeu-a brandamente:
--Mas se o que se precisa é saber-se como fazel-o!... Tem a sua cama
pronta... deite-se!
E dirigiu-se para o fogão, grave e concentrada. Pélagué deitou-se sem
se despir. Tinha dôres nos ossos, quebrados de fadiga. Soltou um gemido
debil. Tatiana apagou o candieiro. E assim que as trevas reinaram
dentro da choupana, resoou novamente a sua voz grave e igual:
--A senhora não reza... Eu tambem não acredito em Deus nem em milagres.
Tudo isso foi inventado para nos metter medo, porque sabem que sômos
estupidos!
Pélagué, no seu leito improvisado, agitou-se, inquieta. Fitavam-na
pela janella as trevas infinitas e, por entre o silencio, attritos,
ruidos furtivos mal perceptiveis, perpassavam em torno. Com voz timida,
murmurou:
--Pelo que respeita a Deus, não sei que dizer... Mas creio em Jesus
Christo e creio nas suas palavras:
«Amar o proximo como a nós mesmos...» sim, eu creio n’isto!
E de súbito, exclamou, perplexa:
--Mas se Deus existe, porque nos abandonou? Porque não nos protege com
o seu poder misericordioso? Porque consente que a humanidade se divida
em duas castas? Porque consente o soffrimento humano, as torturas, as
humilhações, a maldade e as ferocidades de toda a especie?
Tatiana não respondeu. No escuro, Pélagué podia divisar-lhe o contorno
vago do perfil erecto, que se desenhava em cinzento, no fundo negro do
fogão. E assim se conservava, immovel. Muito angustiada, Pélagué cerrou
as palpebras.
De súbito, vibrou uma voz fria e dolorida:
--Nunca perdoarei a morte dos meus filhos! Nem a Deus nem aos homens!
Nunca!
A anciã sentou-se no leito, condoída da intensidade d’aquella paixão.
Lembrou com meiguice:
--A senhora é nova; ainda ha de ter filhos...
Apóz um silencio, a outra segredou:
--Não! O medico disse que nunca mais poderia têl-os.
Passou um rato a correr pelo chão. Um estalido secco e forte rasgou a
immobilidade do silencio, e de novo se ficaram ouvindo distinctamente
os mesmos attritos e o murmurio da chuva sobre o colmo, que, dir-se-ia,
dedos finos e trémulos acariciavam. As bategas caíam tristemente sobre
a terra e ritmavam o curso da longa noite d’outono.
Mergulhada em pesada somnolencia, Pélagué ouviu uns passos ecoarem
surdamente da parte de fóra e em seguida, no corredor. Abriu-se
devagarinho a porta, e ouviu-se uma exclamação abafada:
--Estás já deitada, Tatiana?
--Não.
--«Ella» está a dormir?
--Sim, parece-me que sim...
Brilhou uma claridade, que tremeluziu e logo se afogou nas trevas. O
campónio approximou-se do leito da velha e compôz a capa de pelles que
lhe cobria as pernas. Esta attenção impressionou profundamente Pélagué.
Fechou de novo os olhos e sorriu. Stépane, sem fazer bulha, despiu-se e
trepou para o sotão.
Pélagué, immovel, prestava attento ouvido ás variantes preguiçosas do
silencio somnolento.
Na sua frente, nas trevas, via desenhar-se o rosto ensanguentado de
Rybine.
Chegou-lhe então aos ouvidos um leve murmurio que vinha do sotão:
--Tu bem vês. Attenta n’essa gente que anda a trabalhar pelo bem de
todos! Gente idosa, até, e que passou por mil desgostos e depois de
moirejar toda uma vida! Chegou-lhes a sua occasião de descansar, mas
bem vês como se aproveitam d’ella!... E tu, Stépane, estás ainda novo,
és intelligente... e nada fazes!
Respondeu a voz grossa do homem:
--A gente não póde metter-se n’uma coisa d’essas sem pensar! Espera um
pouco, que aquella canção já eu conheço ha muito!
Sumiram se as vozes, mas depois recomeçaram. Dizia Stépane:
--Aqui está o que deve fazer-se: primeiro, é preciso falar com cada
homem em particular. Assim, por exemplo: com o Alécha Makof. É
instruido, valente e anda ha muito, zangado contra as autoridades.
Com o Sergio Chorine, tambem... É homem de juizo. Com o Kniazef, que
é honrado e homem decidido! E para começar é bastante!... Depois,
quando já tiver-mos um partidosinho, veremos... É preciso saber a
direcção d’esta mulher, para chegarmos á fala com a gente a quem ella
se referiu... Agarro no machado e vou-me de passeio até á cidade.
Se te perguntarem, dizes que fui ganhar uns cobres como rachador de
lenha. É bom tomarmos as nossas precauções. Tem a velha razão quando
diz que cada qual é que dá a si o seu proprio valor... E quando se
trata d’uma coisa d’estas, bom é que a gente dê a si grande preço, se
se quizer metter na coisa!... Olha aquelle campónio, aquelle Rybine!
Não era capaz de dobrar nem diante de Deus, quanto mais diante d’um
commissário!... Aguenta-se firme, como se estivesse enterrado no chão
até aos joelhos! E aquelle Nikita, an? Teve vergonha o homem!... E foi
milagre que tal succedesse... Ah! se o povo entra no movimento á uma,
muita gente ha de ir atraz d’elle!
--Pois sim! Vêem espancar um homem e ficam para ali, de braços cruzados!
--Não te exaltes, mulher! Olha, diz antes assim: «Deus seja louvado,
que não foram vocês mesmos que o tosaram!» Pois se elles tanta vez
obrigam o povo a bater nos presos! E o povo obedece! Lá no intimo,
talvez chore de compaixão, mas vae batendo!... Não se atrevem a
recusar-se áquella barbaridade, com medo de tambem apanharem para
baixo! Ha ordem para um homem ser o que quizer: um porco, um lobo...
mas não um homem--é proíbido! E quem desobedecer, livram-se logo d’elle
com a maior facilidade! Nada!... É preciso arranjar as coisas de fórma
a reunir muita gente e revoltar-se tudo ao mesmo tempo!
Discorreu ainda por largo espaço. Umas vezes, falava tão baixinho, que
Pélagué quasi não compreendia; outras, erguia a voz, grossa e sonora. A
mulher então recommendava:
--Devagar! Vaes accordal-a!
Adormeceu profundamente a anciã. Foi como uma nuvem de oppressão que o
somno se precipitou sobre ella, a envolveu e a arrebatou.
Despertou-a Tatiana quando a aurora, pardacenta, entrava a mirar com
gélidas pupillas as janellas da choupana. Por sobre a aldeia, no
silencio frio, a voz bronzea do sino planára e ia a morrer.
--Fiz-lhe uma gôta de chá; beba-o, se não logo no carro, vae ter frio.
Emquanto alisava as barbas desgrenhadas, Stépane, todo alvoraçado,
informava-se onde havia de procurar a sua hospede, na cidade. E parecia
a Pélagué o rosto do campónio mais definido, mais simpatico do que na
vespera. Ao tomar o chá, exclamou elle alegremente:
--Como tudo isto é singular!
O quê? perguntou Tatiana.
--Este nosso encontro. É coisa tão simples, afinal!...
--Na causa do povo tudo é d’uma simplicidade extraordinaria! disse
Pélagué pensativa e em tom de grande convicção.
Despediram-se então marido e mulher, sem gastar muitas palavras, antes
manifestando com mil cuidados e attenções, sincera sollicitude.
Já no carro, Pélagué pensava n’aquelle campónio e na sua maneira de
trabalhar com prudencia, como uma toupeira, sem ruido e sem descanso. E
continuava a ouvir a voz da mulher, descontente; revia o brilho secco
e febril dos seus grandes olhos verdes. Quantos annos vivesse, tantos
aquella paixão vingativa e feroz de mãe que chora os seus filhos, havia
de viver-lhe na memoria.
Lembrou-se depois de Rybine, do seu rosto, do seu sangue, d’aquelle
ardente olhar, das frases que lhe ouvira e, de novo, o coração
confrangeu-se-lhe no amargo sentimento da sua impotencia contra as
féras. E em todo o percurso até á cidade, viu de contínuo, desenhado no
fundo tristonho d’aquelle dia pardacento, o perfil robusto de Rybine,
com a sua barba preta, a camisa em farrapos, mãos amarradas nas costas,
os cabellos desgrenhados, a fisionomia illuminada pela colera e pela
fé na sua missão. Pensava tambem nas innumeraveis aldeias e logarejos
onde o povo esperava em segredo a vinda da propaganda de verdade; nos
milhares de creaturas que trabalhavam silenciosas toda a sua vida sem
saber porquê, sem uma esperança...
Quando reflectia no resultado da sua viagem, sentia no intimo um
contentamento meigo e irrequieto e decidia não mais pensar em Stépane
nem na mulher.
Avistou de longe os campanários e telhados da cidade, e grata sensação
lhe reanimou o espirito inquieto, e lh’o tranquillisou: desfilavam-lhe
pela memoria as fisionomias cheias de preoccupação de todos os que
dia a dia iam ateando o fogo sagrado do pensamento e o espalhavam em
scentelhas pelo mundo. E a alma d’aquella mãe transbordava da serena
ambição de dar a todas aquellas creaturas toda a energia e todo o seu
amor de mãe.