XVII

Pélagué deteve-se no limiar a examinar o interior, abrigando os olhos

sob a mão em pala. Era pequena e acanhada a choupana, mas de um aceio

que logo saltava á vista. Uma mulher nova appareceu por detraz do

fogão, cumprimentou em silencio e desappareceu de novo. A um canto,

sentado a uma banca, sobre a qual havia um candieiro acceso, o dono

da casa tamborilava com os dedos na madeira. Fitava demoradamente a

recemchegada.

--Entre! disse-lhe ao cabo de alguns momentos. Tatiana, vae chamar o

Pedro, depressa!

A mulher saíu rapidamente sem mesmo dispensar um simples olhar á

viajante. Esta sentou-se n’um banco, em frente do aldeão e divagou

a vista pelo aposento. Não via a sua mala. Reinava grave silencio

na cabana; só o candieiro fazia ouvir um leve crepitar da chamma.

A fisionomia d’aquelle homem, preoccupada e um tanto carrancuda,

vacillava á luz mortiça, com feições mal definidas.

--Então: Fala... Avia-te!...

--E onde está a minha mala? perguntou logo Pélagué em voz alta e com

severidade, sem ter bem consciencia do motivo por que assim falava.

O campónio encolheu os hombros. Pensativo, respondeu:

--Deixa estar que não está perdida!

E acrescentou friamente e em voz baixa:

--Eu disse diante da pequena que a mala estava vazia. Cá tinha as

minhas razões. Ao contrário, você traz ali coisas bem pesadas...

--E então?

Levantou-se, approximou-se d’ella, curvou-se e inquiriu, baixando ainda

mais a voz:

--Conhece aquelle homem de ha pouco?

Pélagué estremeceu, mas declarou com firmeza:

--Conheço!

Estas simples respostas parecia-lhe que a acalentavam interiormente,

illuminando tudo em volta com a luz d’um heroísmo.

Sorriu-se o campónio.

--Eu bem a vi fazer-lhe um signal... E elle respondeu-lhe...

Perguntei-lhe ao ouvido se conhecia a mulher que estava á porta da

hospedaria...

--E elle? interrogou com anciedade.

--Elle disse só isto: «Somos em grande número...» Sim, foi isto que

elle disse: «Somos em grande número...»

Perscrutava com olhar interrogador a sua hóspede.

Sorriu outra vez e proseguiu:

--É uma grande força, aquelle homem!... Tem muita coragem; diz o que

pensa! Batem-lhe, injuriam-no, mas não cede!

Com o escutar aquelle falar ingenuo, com o ver aquellas feições

grosseiras e aquelles olhos francos e claros, ia-se tranquillisando

pouco a pouco Pélagué. O seu acabrunhamento e os seus receios

dissipavam-se para dar logar a uma compaixão intensa e profunda para

com Rybine. Foi assim que, com súbita e amarga ira, que não poude

reprimir, ella exclamou em tom de lamento:

--Aquelles monstros! Aquelles bandidos!

E entrou a soluçar.

O campónio deu alguns passos, abanando a cabeça com pezar.

--É verdade!... O governo tem andado a arranjar temiveis inimigos!

E de repente, voltando para junto d’ella, segredou:

--Escute. Supponho que traz jornaes na mala... É certo?

--É! respondeu Pélagué simplesmente. E limpava as lagrimas.

--Era para elle que os trazia.

O dono da casa carregou os sobrolhos, juntou na mão toda a barba em

punhado e ficou-se calado, a olhar para um canto.

--Nós tambem recebemos um... e folhetos, livros... Eu cá não sou muito

instruido, mas tenho um amigo que o é. E minha mulher tambem me lê

essas coisas.

Calou-se de novo, pôz-se a pensar; depois perguntou:

--E agora que vae fazer a tudo isso, á sua mala?

A velha fitou-o, e, em tom de instigação:

--Deixo-lha cá!

O outro não pareceu surpreso, não protestou; apenas repetiu:

--Deixa-a cá?

Mas n’isto estendeu o pescoço para a porta, apurou o ouvido.

--Vem ahi gente, segredou.

--Quem?

--Gente nossa, provavelmente...

Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para

um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe:

--E então?

O outro meneou a cabeça affirmativamente.

--Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade

de comer.

--Não, muito obrigada, minha querida senhora.

Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto

quebrada pela commoção:

--Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por

alcunha o _Sovela_. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e

escrever e não sou um imbecil, para falar assim...

Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia

dizendo a Stépane:

--Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa

senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas

são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se

divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser

preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é

criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está

do nosso lado... Não se offenda! Como se chama?

Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo

tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto

e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho,

dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o

seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória.

Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente

por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo.

Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro

saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e

meigo, muito accentuado.

--É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá

honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas

mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia

prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso,

sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle

leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não

sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão

«Prende! Mata!»

--Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou:

--Está em cuidado por causa da mala.

--Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para

minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e

me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem,

disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que

é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou

tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada

conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas,

ah, não!... A sua mala foi para minha casa!

Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar:

--E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se

livros por cá.

--Quer dar-nos tudo! declarou Stépane.

--Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem.

E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos

largos pela cabana, satisfeito:

--É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples,

afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa

assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha;

faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos

nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a

sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa

creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante

estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral

reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e

disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos

e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a

cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a

ler esses papeis.»

Apóz um instante de reflexão, perguntou:

--Diga-me: aquelle outro... o homem... é da sua familia?

--Não, respondeu Pélagué.

Pedro pôz-se a rir só comsigo, muito satisfeito, sem que os outros

soubessem porquê. Afigurou-se a Pélagué uma injustiça falar de Rybine

como de qualquer estranho.

--Não é da minha familia, explicou; mas ha muito que o conhecia...

Respeito-o como se fôsse meu irmão...

Mas não achava a expressão que buscára. Tal deficiencia tornava-se-lhe

dolorosa; e não poude conter o pranto. Na choupana reinava melancolico

silencio. Pedro inclinou a cabeça sobre o hombro; dir-se-ia que

escutava o que quer que fôsse. Reclinado sobre um dos cotovellos,

Stépane tamborilava. A mulher d’este, encostada ao fogão, conservava-se

na sombra. Pélagué sentia-lhe o olhar fito e, por vezes, olhava tambem

para ella, entrevia-lhe o rosto redondo, de pelle escura, nariz

direito, o mento talhado em angulo e com uma expressão de attenta

vigilancia nos olhos esverdinhados.

--É portanto, um amigo! concluiu Pedro. É um homem de valor, por certo!

Tem-se em grande conta e assim devem todos fazer. Aquillo é que é um

homem! não é assim, Tatiana?... Que dizes?

--É casado? interrompeu Tatiana. E franziu com força os labios delgados

da sua bocca meuda.

--É viuvo, respondeu a velha com tristeza.

--Por isso tem tanta coragem! declarou Tatiana em tom profundo e grave.

Um homem casado não se portava assim; tinha medo!

--E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro.

--Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos

labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos!

Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o

povo é mais feliz.

--Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou,

offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou

como uma espécie de fermento...

Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a

cabeça.

--Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de

quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê?

--Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu

Stépane, já zangado.

--E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria!

Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o

trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão!

E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não

lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu:

--Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos;

o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que

felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do

campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se

conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade,

como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha?

--Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer

as contrariedades da vida.

--E a senhora, tem marido?

--Já morreu. Tenho um filho...

--Onde está elle? Vive comsigo?

--Está na cadeia!

E no seu coração, um pacifico orgulho temperava a tristeza de que taes

palavras vinham sempre acompanhadas.

--É já a segunda vez que o encarceram por ter compreendido a verdade

divina e por andar a semeal-a, abertamente, sem se poupar a fadigas!...

O meu filho é moço, é bello rapaz e é intelligente! Foi d’elle a

idéa de fundar um jornal; foi graças a elle que o Rybine se prestou

a distribuil-o, havendo a notar que o Rybine tem duas vezes a idade

d’elle! Vão julgal-o dentro em pouco, por tudo isso. Mas depois,

quando o meu filho estiver na Sibéria, fugirá e voltará a continuar na

campanha.

--Temos já muita gente e o número augmenta sempre! Todos estão

decididos a luctar até á morte, pela liberdade, pela verdade!

Então, pôz de lado toda a prudencia. Não citou nomes, mas contou tudo

o que sabia do trabalho minaz a que se andava procedendo em favor do

povo. E ao entrar n’este assumpto tão caro ao seu espirito, punha nas

palavras toda a energia, todo o excesso do amor que tão tarde brotára

n’ella sob os repetidos golpes da adversidade.

A voz affluia-lhe igual; accudiam-lhe agora as palavras com tranquilla

facilidade, e quaes pérolas multicolores e irisadas, enfiava-as com

rapidez no sólido fio do seu desejo de purificar a alma de toda a

lama e de todo o sangue d’aquelle dia. Os aldeões como que tinham

criado raizes nos sítios em que as suas primeiras palavras os haviam

encontrado. Immobilisados, fitavam-na em grave compostura. Chegava a

ouvir a respiração arquejante da mulher que se lhe sentava ao lado; e a

attenção do auditório fortificava-lhe a crença nas coisas que dizia e

promettia.

--Todos os que se sentem esmagar pela injustiça e pela miseria, o povo

inteiro, devem correr ao encontro dos que por elle morrem nas prisões

ou nos cadafalsos. Não teem esses nenhum interesse pessoal em jogo.

Explicam qual é o caminho que conduz á felicidade de todos, mas dizem

abertamente quão difficil é esse caminho! Não constrangem ninguem, mas

quando tomamos logar nas suas fileiras, nunca mais os abandonamos, pois

vemos que teem razão, que esse caminho é o verdadeiro, e que não ha

outro.

Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella

própria falava agora ao povo, acerca da verdade!

--Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão

os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que

tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo

farei as leis, iguaes para todos!»

Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as

suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes

continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os

braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe

nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se,

adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto

uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os

cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos.

--Ah! ahi está! balbuciou Pedro.

E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça.

Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua

mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa.

--Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á

empreza, é para se lhe entregar de toda a alma!

Pedro interveio aqui, timidamente:

--Está claro... e sem olhar para traz!

--O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane.

--E em todo o mundo!... disse ainda Pedro.

A Mãe · 第 51 / 66 题