Pélagué deteve-se no limiar a examinar o interior, abrigando os olhos
sob a mão em pala. Era pequena e acanhada a choupana, mas de um aceio
que logo saltava á vista. Uma mulher nova appareceu por detraz do
fogão, cumprimentou em silencio e desappareceu de novo. A um canto,
sentado a uma banca, sobre a qual havia um candieiro acceso, o dono
da casa tamborilava com os dedos na madeira. Fitava demoradamente a
recemchegada.
--Entre! disse-lhe ao cabo de alguns momentos. Tatiana, vae chamar o
Pedro, depressa!
A mulher saíu rapidamente sem mesmo dispensar um simples olhar á
viajante. Esta sentou-se n’um banco, em frente do aldeão e divagou
a vista pelo aposento. Não via a sua mala. Reinava grave silencio
na cabana; só o candieiro fazia ouvir um leve crepitar da chamma.
A fisionomia d’aquelle homem, preoccupada e um tanto carrancuda,
vacillava á luz mortiça, com feições mal definidas.
--Então: Fala... Avia-te!...
--E onde está a minha mala? perguntou logo Pélagué em voz alta e com
severidade, sem ter bem consciencia do motivo por que assim falava.
O campónio encolheu os hombros. Pensativo, respondeu:
--Deixa estar que não está perdida!
E acrescentou friamente e em voz baixa:
--Eu disse diante da pequena que a mala estava vazia. Cá tinha as
minhas razões. Ao contrário, você traz ali coisas bem pesadas...
--E então?
Levantou-se, approximou-se d’ella, curvou-se e inquiriu, baixando ainda
mais a voz:
--Conhece aquelle homem de ha pouco?
Pélagué estremeceu, mas declarou com firmeza:
--Conheço!
Estas simples respostas parecia-lhe que a acalentavam interiormente,
illuminando tudo em volta com a luz d’um heroísmo.
Sorriu-se o campónio.
--Eu bem a vi fazer-lhe um signal... E elle respondeu-lhe...
Perguntei-lhe ao ouvido se conhecia a mulher que estava á porta da
hospedaria...
--E elle? interrogou com anciedade.
--Elle disse só isto: «Somos em grande número...» Sim, foi isto que
elle disse: «Somos em grande número...»
Perscrutava com olhar interrogador a sua hóspede.
Sorriu outra vez e proseguiu:
--É uma grande força, aquelle homem!... Tem muita coragem; diz o que
pensa! Batem-lhe, injuriam-no, mas não cede!
Com o escutar aquelle falar ingenuo, com o ver aquellas feições
grosseiras e aquelles olhos francos e claros, ia-se tranquillisando
pouco a pouco Pélagué. O seu acabrunhamento e os seus receios
dissipavam-se para dar logar a uma compaixão intensa e profunda para
com Rybine. Foi assim que, com súbita e amarga ira, que não poude
reprimir, ella exclamou em tom de lamento:
--Aquelles monstros! Aquelles bandidos!
E entrou a soluçar.
O campónio deu alguns passos, abanando a cabeça com pezar.
--É verdade!... O governo tem andado a arranjar temiveis inimigos!
E de repente, voltando para junto d’ella, segredou:
--Escute. Supponho que traz jornaes na mala... É certo?
--É! respondeu Pélagué simplesmente. E limpava as lagrimas.
--Era para elle que os trazia.
O dono da casa carregou os sobrolhos, juntou na mão toda a barba em
punhado e ficou-se calado, a olhar para um canto.
--Nós tambem recebemos um... e folhetos, livros... Eu cá não sou muito
instruido, mas tenho um amigo que o é. E minha mulher tambem me lê
essas coisas.
Calou-se de novo, pôz-se a pensar; depois perguntou:
--E agora que vae fazer a tudo isso, á sua mala?
A velha fitou-o, e, em tom de instigação:
--Deixo-lha cá!
O outro não pareceu surpreso, não protestou; apenas repetiu:
--Deixa-a cá?
Mas n’isto estendeu o pescoço para a porta, apurou o ouvido.
--Vem ahi gente, segredou.
--Quem?
--Gente nossa, provavelmente...
Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para
um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe:
--E então?
O outro meneou a cabeça affirmativamente.
--Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade
de comer.
--Não, muito obrigada, minha querida senhora.
Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto
quebrada pela commoção:
--Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por
alcunha o _Sovela_. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e
escrever e não sou um imbecil, para falar assim...
Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia
dizendo a Stépane:
--Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa
senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas
são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se
divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser
preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é
criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está
do nosso lado... Não se offenda! Como se chama?
Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo
tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto
e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho,
dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o
seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória.
Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente
por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo.
Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro
saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e
meigo, muito accentuado.
--É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá
honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas
mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia
prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso,
sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle
leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não
sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão
«Prende! Mata!»
--Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou:
--Está em cuidado por causa da mala.
--Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para
minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e
me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem,
disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que
é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou
tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada
conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas,
ah, não!... A sua mala foi para minha casa!
Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar:
--E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se
livros por cá.
--Quer dar-nos tudo! declarou Stépane.
--Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem.
E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos
largos pela cabana, satisfeito:
--É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples,
afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa
assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha;
faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos
nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a
sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa
creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante
estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral
reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e
disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos
e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a
cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a
ler esses papeis.»
Apóz um instante de reflexão, perguntou:
--Diga-me: aquelle outro... o homem... é da sua familia?
--Não, respondeu Pélagué.
Pedro pôz-se a rir só comsigo, muito satisfeito, sem que os outros
soubessem porquê. Afigurou-se a Pélagué uma injustiça falar de Rybine
como de qualquer estranho.
--Não é da minha familia, explicou; mas ha muito que o conhecia...
Respeito-o como se fôsse meu irmão...
Mas não achava a expressão que buscára. Tal deficiencia tornava-se-lhe
dolorosa; e não poude conter o pranto. Na choupana reinava melancolico
silencio. Pedro inclinou a cabeça sobre o hombro; dir-se-ia que
escutava o que quer que fôsse. Reclinado sobre um dos cotovellos,
Stépane tamborilava. A mulher d’este, encostada ao fogão, conservava-se
na sombra. Pélagué sentia-lhe o olhar fito e, por vezes, olhava tambem
para ella, entrevia-lhe o rosto redondo, de pelle escura, nariz
direito, o mento talhado em angulo e com uma expressão de attenta
vigilancia nos olhos esverdinhados.
--É portanto, um amigo! concluiu Pedro. É um homem de valor, por certo!
Tem-se em grande conta e assim devem todos fazer. Aquillo é que é um
homem! não é assim, Tatiana?... Que dizes?
--É casado? interrompeu Tatiana. E franziu com força os labios delgados
da sua bocca meuda.
--É viuvo, respondeu a velha com tristeza.
--Por isso tem tanta coragem! declarou Tatiana em tom profundo e grave.
Um homem casado não se portava assim; tinha medo!
--E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro.
--Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos
labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos!
Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o
povo é mais feliz.
--Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou,
offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou
como uma espécie de fermento...
Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a
cabeça.
--Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de
quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê?
--Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu
Stépane, já zangado.
--E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria!
Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o
trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão!
E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não
lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu:
--Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos;
o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que
felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do
campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se
conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade,
como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha?
--Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer
as contrariedades da vida.
--E a senhora, tem marido?
--Já morreu. Tenho um filho...
--Onde está elle? Vive comsigo?
--Está na cadeia!
E no seu coração, um pacifico orgulho temperava a tristeza de que taes
palavras vinham sempre acompanhadas.
--É já a segunda vez que o encarceram por ter compreendido a verdade
divina e por andar a semeal-a, abertamente, sem se poupar a fadigas!...
O meu filho é moço, é bello rapaz e é intelligente! Foi d’elle a
idéa de fundar um jornal; foi graças a elle que o Rybine se prestou
a distribuil-o, havendo a notar que o Rybine tem duas vezes a idade
d’elle! Vão julgal-o dentro em pouco, por tudo isso. Mas depois,
quando o meu filho estiver na Sibéria, fugirá e voltará a continuar na
campanha.
--Temos já muita gente e o número augmenta sempre! Todos estão
decididos a luctar até á morte, pela liberdade, pela verdade!
Então, pôz de lado toda a prudencia. Não citou nomes, mas contou tudo
o que sabia do trabalho minaz a que se andava procedendo em favor do
povo. E ao entrar n’este assumpto tão caro ao seu espirito, punha nas
palavras toda a energia, todo o excesso do amor que tão tarde brotára
n’ella sob os repetidos golpes da adversidade.
A voz affluia-lhe igual; accudiam-lhe agora as palavras com tranquilla
facilidade, e quaes pérolas multicolores e irisadas, enfiava-as com
rapidez no sólido fio do seu desejo de purificar a alma de toda a
lama e de todo o sangue d’aquelle dia. Os aldeões como que tinham
criado raizes nos sítios em que as suas primeiras palavras os haviam
encontrado. Immobilisados, fitavam-na em grave compostura. Chegava a
ouvir a respiração arquejante da mulher que se lhe sentava ao lado; e a
attenção do auditório fortificava-lhe a crença nas coisas que dizia e
promettia.
--Todos os que se sentem esmagar pela injustiça e pela miseria, o povo
inteiro, devem correr ao encontro dos que por elle morrem nas prisões
ou nos cadafalsos. Não teem esses nenhum interesse pessoal em jogo.
Explicam qual é o caminho que conduz á felicidade de todos, mas dizem
abertamente quão difficil é esse caminho! Não constrangem ninguem, mas
quando tomamos logar nas suas fileiras, nunca mais os abandonamos, pois
vemos que teem razão, que esse caminho é o verdadeiro, e que não ha
outro.
Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella
própria falava agora ao povo, acerca da verdade!
--Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão
os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que
tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo
farei as leis, iguaes para todos!»
Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as
suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes
continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os
braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe
nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se,
adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto
uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os
cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos.
--Ah! ahi está! balbuciou Pedro.
E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça.
Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua
mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa.
--Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á
empreza, é para se lhe entregar de toda a alma!
Pedro interveio aqui, timidamente:
--Está claro... e sem olhar para traz!
--O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane.
--E em todo o mundo!... disse ainda Pedro.