I
...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações,
n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra
pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em
negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos
risonhos de André...
A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava
para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se
estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída,
procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria...
Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente
brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle
dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma
significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era
um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente
de perplexidade que a si propria apresentava:
--Que havia de fazer... agora?...
Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força,
gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa,
ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu
impressionar sequer a outra.
--Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo
mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica!
--É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o
olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella
se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração
confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta.
Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas
subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual
agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de
fria reflexão:
--Esperem um pouco!...
E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas.
Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor.
Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O
official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes:
--Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an?
Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para
humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa
fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir
a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a
impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse:
--Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o
respeito a Deus e ao Imperador...
Respondeu sem o fitar:
--Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de
condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal
caminho...
--O quê? gritou o official, fala mais alto!
--Digo que os nossos juizes são os nossos filhos! repetiu com um
suspiro.
O outro poz-se então a discorrer em voz rapida e irritada, mas as
frases precipitavam-se e não commoviam a velha.
Citada como testemunha, Maria Korsounova ficára de pé ao lado de
Pélagué, para quem nem olhava. Quando o official lhe fazia qualquer
pergunta, inclinava-se logo muito baixo e respondia em voz monotona:
--Não sei, Excellencia! Sou uma pobre mulher ignorante, só trato do meu
negocio... Graças á minha estupidez, nada sei...
--Cala-te d’ahi! ordenou o official retorcendo os bigodes com violencia.
--A mulher inclinou-se, e logo, fazendo-lhe um gesto de provocação que
elle não viu, murmurou:
--Toma, guarda lá este!
Mandaram-lhe que revistasse a velha. Pestanejou primeiro; depois fitou
o official, com os olhos muito abertos. E declarou com voz submissa:
--Mas eu não sei fazer isso, Excellencia!
O official bateu o pé, zangado.
--Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada,
passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho:
--Ein? que corja!
--O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar,
desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa.
--Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou
Korsounova timidamente.
Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação,
Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes
letras garrafaes:
«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario».
--Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o
official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou
com um riso de mofa: Que selvagens!
Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os
braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr.
Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo,
apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que
dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do
candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás
escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella;
agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que
toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar
do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as
pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz
avinhada:
--Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos
estão soffrendo os mesmos enxovalhos,--ouves?--todos!
Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como
quem rola para um precipicio.
Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava
para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da
encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia,
Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André:
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido...
Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo
tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do
rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se
d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança.
Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar
com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O
pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e
entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo
caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que
lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja
edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de
levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro,
cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente
fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e
entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...»
O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha
os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da
cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças
repetiam a meia-voz:
«Christo ressuscitou d’entre os mortos»...
--Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja.
A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode
grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que
atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como
o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés
dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o
pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava:
--Não abandonem a criança! Salvem-na...
E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor
proseguia cantando:
--«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...»
Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do
qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo:
--Sempre me deram um trabalhão!...
Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que
assobiava, gritava, gesticulava.
--O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de
sombra, em parte alguma.
--Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto!
--E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e
jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se.
--Porque está elle a mangar comigo?
N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem
fim, que escachoava com estrondo...
Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o
ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito.
Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e,
tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente,
como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo
som, calculou que fôsse já a segunda chamada.
Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no
sobrado emporcalhado; tudo em confusão.
Levantou-se, cuidou dos arranjos, sem se lavar, sem mesmo rezar. Na
cosinha, encontrou um pao que ainda conservava amarrado um farrapo
encarnado; pegou n’elle e, irritada, esteve para atiral-o para debaixo
do fogão; mas, suspirando, tirou e dobrou cuidadosamente o pedaço de
panno vermelho e meteu-o na algibeira. Em seguida, procedeu a uma
grande lavagem ao sobrado e á janella. Acabou de vestir-se, arranjou o
samovar e depois foi sentar-se ao pé da janella da cosinha, a repetir a
si mesma a pergunta da vespera:
--Que se ha de fazer?
Mas lembrou-se que ainda não tinha orado; postou-se por alguns momentos
diante das imagens santas, e depois tornou a sentar-se. No logar do
coração tinha um vacuo. O proprio pendulo do relogio, ordinariamente
tão agil, dir-se-ia ter afroixado o seu tic-tac precipitado. As moscas
zumbiam hesitantes e debatiam-se estonteadas de encontro ás vidraças...
Reinava em todo o bairro um silencio singular; parecia que toda aquella
gente, que na vespera tanto gritára pelas ruas, se tivesse escondido em
suas casas para reflectir em silencio n’aquelle extraordinario dia.
De subito, Pélagué recordou-se de uma scena que presenciára uma vez,
quando era rapariga: no velho parque dos senhores Zoussailof havia
um vasto tanque todo esmaltado de nenufares. Por ali passára em um
dia d’outono nevoento e triste; a meio da laguna, um barco jazia,
como que estatico na agua tranquilla e sombria, salpicada de folhas
amarellecidas. E d’esta embarcação sem remos nem remadores, solitaria e
immovel na agua opaca, entre folhas mortas, provinha funda melancolia,
um pezar mysterioso. Pélagué permanecera ali muito tempo, procurando
adivinhar quem impellira a canoa para longe da margem e porquê...
Afigurava-se-lhe agora ser ella mesma igual á barquinha que outr’ora
a levára a pensar n’algum esquife á espera do cadaver. N’esse mesmo
dia, á noite, viera a saber-se que a esposa do intendente se havia
afogado,--uma mulhersinha de modos saccudidos, os cabellos pretos
sempre em desalinho...
Passou a mão pelos olhos, como para expulsar taes recordações, mas logo
o pensamento indeciso e horrorisado lhe deslisou brandamente para as
impressões da vespera, dominadoras. Com os olhos apegados á chavena
de chá, que lhe arrefecia na frente, conservou-se longamente immovel,
sentindo nascer-lhe na alma o desejo de falar com quem quer que fôsse,
sincero e intelligente, para lhe perguntar innumeras coisas.
E, como de proposito para realisar o seu desejo Nicolao Ivanovitch
appareceu pela volta da tarde. Ao vêl-o, apoderou-se d’ella brusca
inquietação. Com voz sumida, disse sem responder aos cumprimentos de
Nicolao:
--Ah! tiosinho; fez mal em vir até aqui! É uma imprudencia; se o vêem,
prendem-no!
Depois de lhe ter apertado a mão com energia, Nicolao Ivanovitch
segurou melhor os oculos no nariz, e ao ouvido d’ella, explicou-lhe
rapidamente, em voz baixa:
--É que nós tinhamos combinado, o André, o Pavel e eu, que se os
prendessem, eu havia de vir buscal-a logo no dia seguinte, para a levar
para a cidade. Vieram cá fazer alguma busca?
--Vieram; revolveram tudo; até me apalparam. Essa gente não tem
consciencia nem pudor!
--E porque o haviam de ter? retorquiu Nicolao com um encolher
d’hombros; e logo lhe expoz as razões por que era conveniente que ella
passasse a residir na cidade.
A outra escutava aquella voz amiga, cheia de sollicitude, fitava
aquelle rosto de resignado sorriso e sentia-se admirada da confiança
que tal homem lhe inspirava.
--Uma vez que o Pavel assim decidiu, e se não o incommodo... disse.
--Não pense n’isso, interrompeu elle logo. Vivo sósinho, minha irmã só
raramente apparece...
--Mas é que eu quero trabalhar, quero ganhar o meu sustento!
--Pois se quer trabalhar, ha de se lhe encontrar trabalho, descanse!
Para ella, a idéa do trabalho relacionava-se indissoluvelmente com a
especie de actividade a que se entregavam seu filho, André e os mais
companheiros. Approximou-se de Nicolao e perguntou-lhe fitando-o muito:
--Parece-lhe?...
--Pois está claro! A casa não é grande, e quando a gente vive só...
--Não lhe falo d’isso, falo-lhe da nossa grande empreza... explicou em
voz baixa.
--E soltou um suspiro triste, melindrada por não ter sido compreendida.
Nicolao ergueu-se e, franzindo os olhos myopes n’um sorriso, declarou
em tom de gravidade:
--Pois para a grande causa, tambem ha-de ter que fazer, se quizer...
Uma idéa simples e clara formára-se subitamente no espirito d’ella.
Já uma vez conseguira auxiliar Pavel; talvez o conseguisse de novo.
Quanto mais gente houvesse a trabalhar por tal causa, tanto mais clara
se tornaria aos olhos de toda a gente a razão que a Pavel assistia em
defendel-a. E ao mesmo tempo que analisava a fisionomia bondosa de
Nicolao Ivanovitch, esperava ella que este lhe falasse compassivamente
de Pavel, de André e d’ella propria. Mas o outro limitou-se a
acrescentar, acariciando a barba, como que absorto:
--Veja se póde saber pelo Pavel, quando lhe falar, as moradas d’esses
camponezes que pediram jornaes...
--Já as sei! exclamou ella alegremente. Sei perfeitamente quem elles
são e onde moram. Dê-me o jornal que eu mesma lh’o levo. Eu mesma irei
procural-os e farei o que me mandar... Ninguem será capaz de suppôr
que levo commigo livros proíbidos. Deus seja louvado, bastantes kilos
d’elles metti na fabrica!
Era como um súbito desejo de partir, de ir ao acaso, fôsse para onde
fôsse, pelas estradas sem fim, por bosques e aldeias, com o cajado na
mão e a alcofa ao hombro.
--Não encarregue mais ninguem d’esse serviço, peço-lh’o, meu amigo,
disse ella. Irei a toda a parte onde julgar preciso. Não tenha medo,
que não me perderei, seja em que provincia fôr. De verão e de inverno,
caminharei sem descanso... até morrer! Tornar-me-ei um apóstolo por
amor da verdade. Não será digno de inveja o meu destino? Que bella
vida, a do viandante! Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem se
ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não
humilhar ninguem; percorrer a terra, tranquillamente e sem que ninguem
nos conheça!... Tambem eu quero viver assim!... E hei de encontrar
Pavel, hei de encontrar André, hei de chegar até onde elles estiverem...
Mas aqui entristeceu ao ver-se já, em pensamentos, sem lar, errante, a
mendigar em nome de Deus pelas portas das cabanas...
Nicolao agarrou-lhe meigamente na mão e affagou-lh’a ao calor das suas.
--Havemos de falar n’isso mais tarde! declarou, olhando para o relogio.
É perigosa a tarefa de que quer encarregar-se... pense bem!
--Meu bom amigo! exclamou ella. Para que serve pensar? Pois se os
nossos filhos, a parte mais pura do nosso proprio sangue, parcellas dos
nossos proprios corações, os que mais do que tudo nos são queridos,
sacrificam vida e liberdade e morrem sem contemplação por si mesmos, o
que não hei de eu de fazer, eu, que sou mãe?
Nicolao fez-se pallido.
--Sabe que é a primeira vez que oiço falar d’essa maneira?...
--Que sei eu dizer! murmurou ella, sacudindo desconsoladamente a
cabeça. E os braços penderam-lhe n’um gesto de desalento. Se eu
encontrasse palavras que exprimissem o que sente o meu coração de
mãe!...
E ergueu-se, impellida pelo ardor que n’ella se concentrava e lhe
excitava no cerebro frases candentes de revolta.
--... Muitos haviam de chorar... até os malvados, os entes sem
consciencia...
Nicolao ergueu-se e tornou a ver as horas.
--Pois então, fica combinado, vem para minha casa, para a cidade!
Ella abanou a cabeça, sem uma palavra.
--Quando ha de ser? continuou Nicolao. O mais depressa possivel. E
accrescentou com meiguice:
--Vou ficar em cuidado por sua causa, palavra!
Pélagué ergueu para elle um olhar admirado: que interesse podia ella
inspirar áquelle homem? O outro permanecia de cabeça baixa, com um
sorriso de constrangimento, myope e um tanto corcovado, no seu modesto
fato preto.
--Tem dinheiro em casa? perguntou sem a fitar.
--Não.
Com vivacidade, tirou logo da algibeira uma bolsa, abriu-a e
apresentou-lh’a.
--Ahi tem, tire, se faz favor...
A pobre mãe esboçou involuntario sorriso e, com um meneio de cabeça,
observou:
--Como tudo está mudado! O proprio dinheiro já não tem valor para
vocês. Ha por ahi gente capaz de tudo para o possuir, que chega até
a perder a propria alma... e para vocês não passa d’uns bocados de
papel... d’umas rodelas de cobre... Chega-se a imaginar que se vocês o
têm é só por caridade para com os outros!
--O dinheiro é na verdade desagradavel e incommodo, retorquiu Nicolao
Ivanovitch, rindo. É por igual coisa enfadonha pedil-o ou dal-o!...
Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente.
--Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu.
E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se
d’elle, Pélagué pensava:
--É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão...
E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe
causava simples admiração.