Alguem deu um empurrão em Pélagué. Atravez do nevoeiro que lhe toldava
os olhos, viu diante d’ella o officialsito, que lhe gritou:
--Vae-te d’aqui, velha!
Mediu-o com o olhar d’alto a baixo, viu-lhe aos pés o pao da bandeira
partido em dois; a um dos pedaços estava preso um resto da bandeira.
Abaixou-se para apanhal-o. O official arrancou-lho das mãos, lançou-o
para distante, e ordenou de novo:
--Vae-te, velha!
Do meio dos soldados partiu o estribilho:
--_Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!_
O official retrocedeu, rapido, e esganiçou-se, ordenando:
--Façam-os calar! Krainof...
Vacilante, Pélagué apanhou outra vez o destroço da bandeira. A
dez passos d’ella formára-se novo ajuntamento. Urravam, grunhiam,
assobiavam, recuando lentamente, e dispersando para os pateos visinhos.
--Vae para o diabo! berrou um soldado, empurrando Pélagué para cima do
passeio.
Para não caír, porque os joelhos vergavam, ella caminhava apoiada ao
destroço da bandeira, ouvindo sempre atraz de si os soldados. Até que
estes passaram-lhe á frente.
Parou. Á entrada da rua, um cordão de tropa impedia a passagem para a
praça, que ficára deserta. Quiz voltar para traz, mas sem saber o que
fazia, continuou para a frente; metteu-se por uma ruasinha estreita.
Parou de novo. Ao longe, o povo susurrava.
A ruasita quebrava perto d’ella para a esquerda. N’um grupo compacto
discutia-se.
--Não é por insolencia que elles affrontam as baionetas, irmãos!
--Viram, ãn! Os soldados a marcharem sobre elles, e elles impassiveis!
sem medo!
--Que valente é o Pavel Vlassof!
--E o russo-menor!
--Meus amigos! boa gente! exclamou ella, avançando.
--Olhem: traz na mão o resto da bandeira!
--Cala-te! ordenou uma voz severa.
Ella estendeu o braço, com um gesto largo.
--Escutem, em nome de Jesus! Sois todos dos nossos, gente sincera.
Abride os olhos... olhae sem receio... O que se passou? Os nossos
filhos levantam-se, pacificamente... Os nossos filhos, o nosso sangue,
levantam-se em nome da verdade, abrem lealmente um caminho novo,
largo, direito, destinado a todos... Por todos vós, pelos vossos
filhos, empreendem uma cruzada... dirigindo-se para um mundo cheio de
encanto. Em nome de todos e pelo nome de Christo, caminham contra todas
as coisas por meio das quaes os maos, os mentirosos, os rapinantes,
nos prendem, nos estrangulam prisioneiros. Meus amigos! é pelo povo,
pelo mundo inteiro, por todos os opprimidos que os nossos filhos se
sublevaram. Não os abandoneis, não os renegueis, não deixeis os vossos
filhos seguirem sósinhos a sua estrella. Tende piedade de vós mesmos...
amae-os... compreendei aquelles corações juvenis... tende confiança
n’elles.
Fatigada, avergou. Alguem amparou-a.
--É Deus que a inspira! disse um d’elles. É Deus que a inspira, amigos!
Escutem-na!
Outro lamentou-a:
--Ah! está-se matando!
--Não se está matando, não, idiota! A nós é que fére, fica sabendo!
A mesma voz aguda e anciosa tornou a fazer-se ouvir:
--Christãos! O meu Mitia... A sua alma é pura... O que fez elle? Seguiu
os seus companheiros muito queridos. Fez bem. Por que abandonaes os
nossos filhos? Que mal fizeram elles?
Sizof disse a Pélagué:
--Volta para casa... Vae... Estás arrazada!
Passando depois pelo auditorio o olhar severo:
--O meu filho Matwei foi esmagado, na fabrica, bem sabeis. Mas se
vivesse, eu proprio o teria mandado entrar nas fileiras d’aquelles...
Ter-lhe-ia dito. «Vae com elles, vae, porque defendem uma causa justa,
uma causa santa!» É um velho quem lhes está falando. Conhecem-me todos.
Ha trinta e nove annos que trabalho aqui... ha cincoenta e sete que
vivo n’este mundo. O meu sobrinho, um bello rapaz, intelligente e
honrado, foi preso hoje outra vez. Ia tambem á frente de todos com o
Vlassof, ao lado da bandeira.
E pegando na mão de Pélagué:
--Esta mulher disse a verdade. Os nossos querem viver com honra,
segundo o que manda a razão; e nós... nós abandonamol-os! Vae para
casa, minha velha, vae!
--Meus amigos, a vida é para os nossos filhos! é para elles a terra!
disse ella passando pela multidão o olhar toldado de lagrimas.
--Vae, Pélagué, vae... Toma o teu arrimo!
E deu-lhe o destroço da bandeira.
Olhavam para a velha com respeitosa tristeza; seguiu-a um murmurio de
compaixão. Sem falar, Sizof abria-lhe caminho; e o povo afastava-se sem
protesto, obedecendo a uma força inexplicavel, trocando em voz baixa
breves palavras de lamento.
Ao chegar á porta de casa, Pélagué voltou-se para elles, e disse com
muito reconhecimento:
--Obrigada a todos!
E accrescentou:
--Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não
morressem pela sua gloria!
A multidão olhou para ella em silencio.
Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua
algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram,
vagarosos.