Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda
a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o
olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se
de uma nuvem opaca.
Ouviam-se frases soltas:
--Ali vem os commandantes do exercito!
--Sabemos lá quem são os commandantes?!...
--Isto não foi por mal.
--Se a policia os agarra, estão perdidos!
--Isso agarra ella!
Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella.
--Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros!
Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado
que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou:
--Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador!
André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem
pressa, falando em voz alta de varios assuntos.
Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida
exemplar que levava:
--Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel.
--A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma
coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os
vidros da fabrica...
--Não somos uns bebados! exclamou Pavel.
André explicou:
--Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno
da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas
crenças.
--Já as conheço...
E vendo Pélagué:
--Tambem tu?
--Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova.
--É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a
fabrica.
--E quem o diz? perguntou Pavel.
--Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate.
Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella.
O filho disse-lhe:
--Mettem-te na cadeia, mamã.
--Quem me dera!
Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem
pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.
--Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão
para lhe tirarem o succo.
--É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no
confuso ruido.
--Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.
Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um
sacca-rôlhas e começou:
--Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e
allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja.
Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os
vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como
os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros
carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na
garganta.
Rebentou uma gargalhada.
O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos
bicos dos pés.
--No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E
hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam
o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande
força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a
consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando
cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de
todos, pela liberdade, pela justiça a todos!
--A policia! gritou alguem.
Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o
ajuntamento, de chicote no ar, e intimando:
--Nada de ajuntamentos!
--Girem!
--Que conversas eram essas?
--Quem falava?
As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns
treparam a uns tapumes.
Depois veio a troça.
--Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem
damos ordens!»
André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle,
ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe:
--Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!...
...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a
egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes.
--Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti!
--Deixa-me em paz!
A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva:
--Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e
mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano?
Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso,
mas todos nós aproveitámos da sua coragem!
O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A
multidão estremeceu; muitos empallideceram.
--Companheiros! gritou Pavel.
A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em
silencio:
--Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de
trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para
nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje,
abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da
razão, da verdade, da liberdade!
Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando
n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario.
Pavel estendeu o braço, gritando:
--Viva o povo operario!
Centenares de vozes lhe responderam em unisono.
--Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo!
Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel;
Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle.
Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe
novamente n’uma das mãos, balbuciando:
--Sim!... é a verdade!... meus amigos!
Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão
estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué,
rindo.
--Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua
voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus,
do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a
cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está
distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que
vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam
o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o
primeiro de maio, a festa da humanidade livre!
Pavel ergueu a bandeira.
--_Reneguemos do velho mundo!_ cantou Fédia Mazine com voz sonora.
A resposta veio logo como uma enorme vaga potente:
--_Saccudamos a poeira dos pés!_
Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o
filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o
hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André:
Ergue-te, ergue-te, ó povo operario!
Revoltae-vos, esfomeados!...
E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no
hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa.
Corramos para aquelles que soffrem...
Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de
Pélagué.
--Mitia, onde vaes?
E a velha respondeu:
--Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu
está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho!
A outra porem continuava:
--Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante!
--Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria
existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa!
Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do
hymno:
--Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo
lindo! ãn?
O tzar quer soldados na tropa:
Vossos filhos lhes daes...
--Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova...
Foi a fabrica que o matou!
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos
na bandeira vermelha, que balouçava ao vento.
--Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um
sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas.
D’uma janella partiu uma voz de canna rachada:
--Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o
tzar!
Mas o hymno continuava, firme, altivo.
Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante
do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas:
--Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica...
--O governador já chegou...
--O quê? é verdade?
--Vi-o com os meus olhos!
--Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o
governador.
As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo.
Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o
hymno moribundo.
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
Ao inimigo, ó gente esfaimada!
Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força
caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa,
sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns
assobios trocistas.
--Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não
nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a
todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas
tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em
que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas
sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles
compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente!
Ávante! companheiros! ávante!
A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava.