A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas
a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os
desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre
desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola
do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.
Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um
só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo
ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.
Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos
visivel aos seus inimigos.
Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da
cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com
um olhar brilhante e cheio d’alegria:
--Até á vista, companheira!
--Até á vista.
--E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em
passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma
borboleta.
--«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro
por toda a vida.
Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe
despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era
a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si
proprios.
Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que
de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça
dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não
acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira,
nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.
Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o
sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias;
e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção.
Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter
havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia
fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham,
ficando afinal com caras de tolos.
Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como
operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os
carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça
iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de
encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva
de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder,
assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:
--Toma! toma!...
Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto
ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia,
sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas.
Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na
conversa, e era o ultimo a saír.
A sós com André, falava então com o seu modo sórna.
--Quem é o mais culpado de todos?
--Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu
ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia
André, gracejando.
--Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?
O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e
falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras
simples e claras.
Elle porém volvia:
--Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos
a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...
--Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.
--O Isaías?
--Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas
janellas.
--Ás suas janellas?...
Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que
tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:
--Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa
hora: passeia.
--Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?
--Culpado de quê? de ser parvo?
Mas o bexigoso não respondeu e saíu.
Pélagué não dormia.
--Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá
calor, mas queima.
--Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha.
Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.
--Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!
--O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que
sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas
inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este
rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a
paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma,
como se a tivesse invadido um musgo vermelho.
--É terrivel, meu André!
--Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada
gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de
lagrimas que o povo chorou.
E accrescentou, rindo:
--É justo, mas não é consolador!