A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã
dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que
sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do
cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.
Não sabia onde estava.
Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um
tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das
faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas
folhas do bambú.
Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas,
nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a
noite que enluctam os ventos.
--As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já
cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e
emmudece?
A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a
haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os
leques ciciam brandamente:
--O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro
poderá partir com o sol que vem nascendo.
--Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então
a alegria voltará ao seu seio.
--A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu.
Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o
tronco nú, sem ramas, nem sombras.
Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o
peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo
galho do anjico.
O mancebo murmurou:
--Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em
tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de
teus mimosos labios.
Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:
--Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da
jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.
--E Iracema?
--Pois que tu morrias!
Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu
sobre o peito: mas logo se ergueu.
--Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos
Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca
fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de
seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve
abandonar os campos dos Tabajaras.
--Deve: respondeu a virgem como um ecco.
Depois a sua voz suspirou:
--O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no
tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e
dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel
da assucena.
Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em
seu labio:
--O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.
--Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.
Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.
--É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de
Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.
--Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.
Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol
atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um
faro suspeito.
Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o
guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema
caminhou para elle.
O extrangeiro entrou só na cabana.