Duas extensas cartas, cuja integra remettemos, que recebêrão os
moradores d'este lugar do cidadão João Barbosa Bronzique, prisioneiro
dos paraguayos em sua fazenda, desde o anno passado, derão-nos
informações do estado a que se achão reduzidos os inimigos e da força
espalhada em diversos pontos: tem elles nas colonias de Dourados e
Miranda 100; no Brilhante 100; Sete Voltas 10; Vaccaria 100; Agua fria
30; Nioac 500; Taquarussú 200; Porto do Souza 200. Ao todo 1,240 homens,
a que se devem acrescentar os 50 de Miranda que vierão para o Espenidio
e Souza e outros que existem junto do Apa e morro do Canastrão, onde
possuem boa cavalhada. Desde o Porto do Souza até o de Maria Domingas,
os paraguayos têem ultimamente lançado fogo a todos os campos e
desbastado as margens, parecendo ter assim conhecimento dos proximos
movimentos de nossa força.
Morros, 16 de Abril de 1866.
Notas:
[1] Tacoára hy, (tupi).
[2] Não é o _marmeleiro_ de que trata Saint-Hilaire, sob o nome de
Maprounea brasiliensis (euphorbiacea).
[3] Temos o desenho d'ella no album de viagem. Folhas oppostas; corolla
monopetala com um labéolo; antheras didynamas; ovario sobre disco
hypoginio. Flôr com 2-{1/2} pollegadas de comprido; Stygma bipartido.
[4] Folhagem muito delicada; folhas tomentosas e ovario livre; sementes
ovoides.
[5] Em fórma de colher (cochlear).
[6] Calophyllum brasiliense, (Saint-Hilaire). Oanandim, lantim ou
olandy; excellente páo para canôas.
[7] As folhas d'esta planta são muito desenvolvidas. No corrego da
Pontinha (a 8 legoas de Camapuan) vimos algumas com um palmo de largura
e palmo e meio de comprido, lustrosas e completamente glabras.
[8] _Acacia maleolens_ de Freire Allemão.
[9] É conhecido nos sertões do norte por _cajueiro bravo_ ou melhor
_çaimbahiba_ (_çaimbé_ aspera, _yba_ arvore). Curatella çaimbahiba.
(Saint-Hilaire).
[10] Bority ou mority.--Do tupi, _mooro_, nutrir, _ty_, succo.
(_Mauritia vinifera_. Mart. _flexuosa_. Lin.)
[11] A 6 legoas do rio Piquiry; _picá_, pomba; (r) _hy_, agua (L. T.)
[12] Esta palavra derivada do tupi (_caa-poam_, ilha) é com razão
geralmente empregada em todo o Brasil.
[13] O sertanejo Perdigão.
[14] Fourcroya gigantea.
[15] _Gua_, baga; _yrob_, acre (lingua tupi). Psidium _Vell_.--Eugenia
_Mart_.
[16] Familia entre as rosaceas e magnoliaceas.
[17] Autor do poema _La Gastronomie_, publicado em 1800.
[18] _Amaca_, rede; _yva_, arvore (lingua tupi).
[19] Ara Ararauna (especie particular aos sertões de Goyaz e Mato
Grosso).
[20] Ara Aracanga.
[21] Ara Hyacinthinus (Descourtils).
[22] _Crypturus noctivagus._ Começa a piar apenas descamba a tarde.
Martius chama-a _tinamus_ nocturna. Em algumas partes do imperio é
conhecida por _sabelé_. [23] Os banhos das folhas d'esta plantinha são
efficassissimos nas orchites. (Davilla elliptica, Saint-Hilaire).
[24] Sapindus (Saint-Hilaire).
[25] Lugares empantanados, pascigos do gado.
[26] Em lingua tupi quer dizer _páu de cajú_ (mara-cajú). Segundo alguns
_cascavel ao pé_ (maracá jub) da serra. (Glossario).
[27] Toda audacia é permittida em hypotheses. Impressionárão-nos, de
passagem, sem estudo, aquellas linhas que correm parallelas por muitas
legoas. Serão na realidade indicação do que acima tocámos, ou
simplesmente effeitos de infiltrações vagarosas em estratificações,
erosões, etc.?
[28] Amambahy ou Ambaibahy--_Hy_, agua.--_Ambaiba_ ou _embauba_
(urticacea do genero Cecropia). Castelnau dá á porção de serra, que
conhecemos, o nome muito apropriado de serra da Chapada: entretanto
nunca o ouvimos nas localidades, onde os moradores usavão só da
denominação de Maracajú.
[29] Na provincia de Minas chama-se _paratudo_ a uma
amaranthacea,--gomphrena officinalis. A causa do paratudo (bignoniacea)
tem grandes propriedades febrifugas e sudorificas.
[30] Os indios Guanás o chamão _namuculí_.
[31] Esta arvore, _hymenæa_, abundantissima no rio Negro, ia-se tornando
cada vez mais rara. Os seus fructos, quando maduros, são supportaveis e
muito nutrientes: os nossos soldados, no acampamento do rio Negro,
sustentavão-se quasi exclusivamente d'elles.
[32] Contracção de ipé, uva (arvore).
[33] O que, no interior do paiz, se chamão tijucaes, palavra brasileira
tirada da lingua tupi, _tyjuca_ (lama). Usa-se tambem muito do verbo
_entijucar_ por enlamear.
[34] _Mureci penina_ ou pintado. Em Mato Grosso assim chamão o mureci do
pantano. Será com certeza--chrysophylla--a especie? Em todo caso, o
genero é _byrsonima_, bem caracterisado. Com ser malpighiacea, vêm-se os
pares de glandulas bem apparentes; ás vezes desenvolvidas em extremo, em
cada sepala. Do fructo do _mureci_, diz com justeza Pison:--Fructus
maturi gratissimi quidem acore pulatum vellicant, sed stuporem tandem
dentibus inferunt simulque astringendo intensè refrigerant. (De
facultatis simplicium Lib. IV).
[35] Em Mato-Grosso quasi todos pronuncião esta palavra grave.
[36] Ciconia Maguari (G. Temm).
[37] Vimos nas _mimosaceas_ dos barreiros myriades de _vira-bostas_,
(Icterus violaceus, Desc.); _encontros_ (Xanthornus tristis, Desc.) e
_anús_ (Crotophaga, Marcgravio).
[38] Cateitus (dicotyles torquatus) e porcos do mato (dicotyles
labiatus).
[39] Na bahia Negra, abaixo do porto de Coimbra. A proporção de sal para
a terra era, n'um alqueire de mistura, tres quartas partes.
[40] As salinas da margem direita do rio Paraguay são muito mais ricas
em sal, do que as da margem esquerda. Antes da invasão, havia prohibição
de tirar-se sal da bahia Negra, por estar o barreiro em territorio
contestado entre o Brasil e a republica do Paraguay.
[41] Na margem esquerda do rio Paraguay, defronte de Corumbá.
[42] É palavra geralmente usada nas fazendas de gado.
[43] Devida a uma intoxicação paludosa.
[44] Aspidosperma.
[45] Os nossos amigos os Srs. tenente João Faustino do Prado e João
Mamede Cordeiro de Faria.
[46] _Caapi-iára_, dono do capim (Gloss.). Com mais razão, diz Gonçalves
Dias _capi-uara_, derivando uára de goára (habitante que mora, em
determinada parte, por vontade propria). Das capivaras, diz Marcgrav com
exageração notavel:--Noctu ingentem clamorem excitant et horribile fere,
ut Asini solent.
[47] Vanellus cayennensis (Vieill.).
[48] Em Agosto, deviamos de apreciar a magestosa florescencia d'aquellas
bignoniaceas; _ipés_, Tecoma speciosa Vall., _para-tudos e carobinhas_
(jacarandá procera) ostentavão então massiços amarellos e azues da maior
belleza.
[49] Obteve em fins de 1867 esta distincção e em Janeiro do anno
seguinte falleceu na cidade de S. Paulo, onde se achava, depois de uma
viagem ao Rio de Janeiro, com alguns de sua tribu.
[50] _Pery_, junco (tupi).
[51] Desde Maio de 1865 não fazião senão raras incursões, na margem
direita do rio Aquidauana.
[52] Denominação indigena do rio Miranda ou Embotety e Embotetiú, das
palavras, _enimbo_ laço, _tui_ periquito--laço para piriquito. Tambem
tem nome de Aranhahy, Guaxihy e alguns escriptores portuguezes lhe dão o
de Mondego, ainda que pareça este só convir, depois da confluencia com o
Aquidauana.
[53] Uma carta de João Barbosa Bronzique, prisioneiro dos paraguayos, em
sua fazenda do Bonito, deu noticia d'essa prohibição devida, ao que elle
suppunha, aos ataques repetidos dos indios, que se occultavão nas matas
do lado direito do rio.
[54] Ilex congonha, familia das Illicineas (Aquifoliaceas de de
Candolle). Das congonhas fazem os habitantes uma agradabilissima
infusão.
[55] _Cama_ mama, _apuam_ redonda (tupi).
[56] Os oauassús, chamados pelos guaycurus _chatellôd_, são as
magestosas palmeiras de que já temos fallado: os grupos que ellas
fórmão, são imponentes. Os troncos lisos, ligeiramente engorgitados na
base, as cópas erectas e compridas folhas, com um prateado fugaz, as
distinguem de muito longe. Os côcos de bom tamanho dão amendoas com o
valor approximado ás da Bahia e constituem durante certas épocas a
alimentação quasi exclusiva dos indios. Pelo systema phyllotaxico,
preconisado pelo professor Agassiz, a fracção 1/3 representa a
disposição das folhas, occupando os intervallos, as espadices da
inflorescencia. Assemelhão-se os oauassús ás magnificas _oreodoxas_, tão
em moda no Rio de Janeiro: Martius deu-lhes o nome de _attalea
spectabilis_. Em lingua tupi significão folha grande: _oau_ ou _oba_
folha, _assú_ grande.
[57] O laiana pertence á numerosa familia chané: a sua linguagem é a
mesma que a dos quiniquináos, terenas e guanás com algumas alterações:
os seus costumes identicos. O seu typo é caracteristico; a physionomia
muito menos expressiva que a do terena e menos delicada que a dos
quiniquináos; elles têm o nariz afilado, ás vezes pontudo, os olhos
algum tanto divergentes, os labios finos e apertados.
As suas plantações consistião em arroz, milho, feijão; porém as chuvas
falhadas impedião que ellas tivessem aspecto satisfactorio; por esta
razão, não podérão os seus possuidores prometter cousa alguma para as
forças.
[58] O corrego da _Pontinha_, perto de _Camapuam_, é uma das cabeceiras
mais afastadas.
[59] _Uacôgo_, corrego dos Couros (guaycurú).
[60] As _aracuans_, Penelope aracuan (Spix.), são aves de plumagem
escura, pernas curtas, bico preto e forte. É caça procurada pela alvura
e sabor da carne. Este passaro offerece uma particularidade singular.
Quando um grita, é logo acompanhado por todos os companheiros, de modo
que, por qualquer ruido, levanta-se grande alarido em ambas as margens,
o qual vai-se propagando e crescendo. É muito applicavel o--_Vires
acquirit eundo_.
[61] Esta ave conhecida tambem por _inhuma-póca_ canta com regularidade,
de modo que, dizem, póde marcar as horas e tambem annunciar mudanças de
tempo. Tem como a _palamedea cornuta_ excrescencia na cabeça. Marcgravio
diz do canto: Terribilem clamorem edit--_vihu vihu_--vociferando.
[62] O _tuyuyú_ (micteria americana) é a maior das aves ribeirinhas:
todo branco com uma colleira vermelha, tem um bico longo e tubulado.
Nutre-se de peixe e anda no lodo das bordas de rios. A sua altura, fóra
o pescoço, é de 1, m. 2.
[63] O _tabuyayá_ (ciconia maguari) é maior que a garça; tem azas pretas
malhadas de branco: o bico e pernas compridos. Em guarany chama-se
baguary (Martius).
[64] Na nossa passagem do Aquidauana, um soldado foi arrebatado por um
jaù.
[65] Pison diz com razão da carne: «Edulis non solum caro ejus
albissima, sed quod friabilis et sicca optimi saporis».
[66] Familia dos Aproterodontes--Gen. boa--Esp. murina (Principe de
Neuwied e Sellow): boa scytale (Lin.) Estas serpentes apparecem raras
vezes nos affluentes do rio Paraguay, ao passo que abundão nos do rio
Paraná. O grito d'ellas, ê, dizem, estridente. Nunca ouvimos esse ronco
de que tanto se falla no sertão.
[67] Entre as absurdas historias, tocantes a essas serpentes, sobresahe
a referida por Charlevoix, na sua historia do Paraguay, o qual diz que
os sucurys se atirão sobre as mulheres com outro fim, que não o de
devoral-as e cita o testemunho do padre Montoya que confessára, em certa
occasião, uma india _in extremis_: «laquelle étant occupée à laver du
linge sur le bord d'une rivière, avait été attaquée par un de ces
animaux, qui lui avait fait, dit elle, violence: le Missionaire la
trouva étendue par terre au même endroit, etc.»
[68] Relatorio geral da commissão de engenheiros (pag. 22 e 31).
[69] Spix chama-o _pacú-argenteus_, não sabemos se com razão; o pacú
pouca semelhança tem com o corimbatá.
[70] Contra ella tambem bate o rio Aquidauana, formando uma curva
apertadissima. Além, no outro lado, eleva-se o _Morro Azul_, seguindo de
novo a serra até Nioac e para os lados do Apa; baixa, porém, e com
disposição de morretes.
[71] Citaremos uma lindissima _apocynea_ (nerium?), varias _salvia_, a
_ardísia_ (_Ardisacea_), a curiosa _aristolochea galeata_, que se
enrosca nos mais flexiveis encostos; a fragrante _saudade_ do campo
(scabiosa-dipsacea), hyptis (labiadas), _malpighiaceas_ rasteiras com
cambiantes samaridios, a vistosa _gomphrena officinalis_ (o para-tudo de
Minas) _malvaiscos_, etc.
[72] Erão os restos da abundantissima colheita paraguaya; esses campos,
poucos mezes antes, havião contido muitos milhares de rezes. O districto
de Miranda possuia 150,000 cabeças de gado: d'essas, segundo o
testemunho de vista de João Barbosa Bronzique, o infeliz prisioneiro de
que já temos fallado, 60,000 passárão para a republica do Paraguay em
varias pontas e ainda no tempo em que viajavamos pelo Aquidauana
continuavão amiudadas as remessas. A carne do gado d'essas vargens è
saborosissima.
[73] Palavra tupi, usada geralmente: significa _casa abandonada_.
[74] Momordica operculata (Velloso), charantia.
[75] Quasi todos os habitantes de Miranda fugírão embarcados, descendo o
rio Miranda, entrando no Aquidauana e subindo por este até perto do
porto do Souza. Ahi se refugiárão nas fragosidades da serra de Maracajú
(Morros); alguns tomárão caminho de Sant' Anna do Paranahyba. A villa
ficou deserta a 4 de Janeiro de 1865: a 12 entrárão os paraguayos que
n'ella estiverão até fins de Fevereiro d'aquelle anno.
[76] Das outras tribus que refere Castelnau, não ouvimos fallar. Talvez
estejão extinctas ou confundidas com estas.
[77] Tanga, avental.
[78] Muito aprecião o _tarumá_ (Vitex montevidensis) que em Dezembro de
1866 constituia a principal alimentação da gente quiniquináo dos Morros.
[79] Bixa orellana.--Genipa americana.
[80] Léry faz esta justiça ás indias em geral, quando diz: «qu'á toutes
les fontaines et rivières claires, qu'elles rencontrent, s'accroupissans
sur le bord ou se mettans dedans, elles jettent, avec les deux mains de
l'eau sur leur teste et se lavent et plongent ainsi tout leur corps
comme cannes, tel jour sera plus de douze fois» (Histoire de l'Amérique,
pag. 128).
[81] Quasi todos os nomes de lugares e rios do districto de Miranda são
de origem guaycurú.--_Euagaxigo_, significa bando de capivaras;
_Eponadigo_, bando de trairas; _Lauiád_, campo bello; _Nioac_, clavicula
quebrada.
[82] Esses lindissimos lugares forão explorados a vez primeira pelo
intrepido sertanejo José Francisco Lopes, o qual encontrou, n'uma de
suas viagens, uma numerosa partida de cadiuéos, que o acompanhou até
terras do Paraguay.
[83] Palavra guarany que significa Nosso-Senhor. Os terenas usão d'esse
vocabulo. Os outros guanás dizem _Ech[-a]i-uanuké_ (que está no céo).
[84] Herpethoteres. Azara chama _Macaguá_: alguns _acauan_ ou _oacaoam_.
[85] O mesmo fazião os medicos entre os guaranys (Padre Loçano).
[86] Não sabemos se deve merecer fé o que diz Castelnau sobre
assassinatos dos padres.
[87] O mesmo dava-se entre os padres dos guaranys (Padre Montoya).
[88] Léry diz dos tupinambás:--«Ils lamentent de telle façon, que si
nous nous trouvions en quelque village où il eust un mort, ou il ne
fallait pas faire éstat d'y coucher, ou ne se pas attendre de dormir la
nuit. Mais c'éstait merveille d'ouyr les femmes, lesquelles braïllent si
fort et si haut que vous diriez, que ce sont hurlemens de chiens et de
loups» (Histoire de l'Amérique, pag. 392).
[89] Léry refere: «Si elles se ressouviennent de leurs feus parents, ce
sera, faisant les regrets accoutumez, á hurler de telle façon, qu'elles
se font ouyr d'une demi-lieue (H. de l'Amérique, pag. 400).
[90] A que chamão na provincia _lavrados_.
[91] Principalmente o _timbó_ (paullinia pinnata) que tem violentas
propriedades toxicas.]
[92] Batem-se a punho secco, ainda mais geitosamente que os albiões (M.
Ayres de Casal C. B. pag. 234).
[93] Todo o homem branco, pardo ou preto, é portuguez; os indios nunca
usão da denominação de brasileiros: os paraguayos são ainda para elles
castelhanos.
[94] Temos por vezes usado d'essa denominação de uma das tribus da nação
chané, como que abrangendo a todas as outras, porque no districto de
Miranda conhecem-se todos os indios chanés por guanás. Entretanto
perguntando eu, certo dia, a um terena se elle era guaná: _Acó chooronó,
chané cuané téreno enómone_; guaná não, chané ou terena na verdade
(litt.).
[95] Esta tribu habitou primitivamente quasi toda junta á serra chamada
do Chané, no lado direito do rio Paraguay, acima da do Albuquerque,
dando a cordilheirasinha o nome da nação a que pertence? Ou lá esteve
toda a nação? Nas minhas notas encontro ainda uma confirmação de que a
denominação de chané, é valiosissima. Disse-me um quiniquináo:
_Humn[-a]i quechatí cequexivó nhumzó chané?_ O senhor quer aprender a
minha lingua chané? e acrescentou: _Encre nhumzó acó ocohocorí
iaquexovói chané_. Pois minha lingua não custa aprender o chané
(litteralmente). Ao illustrado viajante Henrique de Beaurepaire Rohan
não escapou esta particularidade importante.
[96] O ultimo accento é o tonico: os outros modificão o som das vogaes.
[97] Os dois _l_ soão claramente.
[98] Os laianas dizem _moreví_, como em guarany.
[99] Na lingua tupi _paraguá_, papagaio; d'onde _paraguá hy_, rio dos
papagaios.
[100] Castelnau no seu inexactissimo vocabulario _guaná_ exprime esta
palavra por _ann[-a]iti_ que significa _grande_, ignorando a sua
qualidade de adjectivo, o qual vai modificar _piritáo_, faca. Não merece
confiança a traducção dos outros vocabulos.
[101] Os indios chamavão-me _ungê-maracaiá_, olho de gato. Os guaranys
dizem _mbaracaiá_; na lingua tupi _maracayá_ ou _maracajá_.
[102] Talvez se devesse escrever _ingâchá-á_: em todo o caso não se
pronuncia claramente o _in_, fazendo só soar o _g_, arrastando-o.
[103] A palavra é esdruxula: não sabemos porque se a pronuncia grave.
[104] _Mámá_ em lingua caiuá, muito approximada ao guarany, senão o
proprio.
[105] Os _h_ são todos aspirados com energia.
[106] _Noné capací_, cara de nuvem, era a antonomasia de um de nossos
soldados, por causa da guedelha desgrenhada.
[107] Este _j_ sôa, como em hespanhol, gutturalmente.
[108] Significa _peixe de rabo de sangue_ (vermelho).
[109] Quer dizer _piolho de cão_.
[110] Vê-se claramente que quiniquináo é alteração da palavra india.
[111] Os nomes de peixes são, como este e muitos outros, guaycurús.
[112] Esdruxulo, quando em portuguez é grave.
[113] Os quiniquináos dizem _pahapáti_.
[114] Observa-se a irregularidade de formação. São novas palavras.
[115] Esta palavra é de mui difficil pronuncia. Nunca a podêmos escrever
conforme a ouvimos.
[116] Além de tres dizem _tápuia_ muito, ou _opôicoati_. Para marcarem
épocas, serve-lhes a florescencia do _para-tudo_. Um indio disse-nos:
«Já o para-tudo deu flôres duas vezes e os castelhanos ainda estão em
Miranda».
[117] Os imperativos, que elles empregão muito, terminão quasi todos em
_ca_, exemplo: _iticá_ faze, _tetucá_ corta, _nicá_ come, _angicá_ lava;
dos verbos _ittuketi fazer_, _tetocoti cortar_, _ningá comer_,
_angicóati_ lavar.
[118] Litteralmente _unati_ bom, _niké_ comida. _Cuati_ deveras,
_echoti_ sabe, _itucoati_ fazer, _nica_ comida, _ienó_ sua mulher.
[119] Tambem diz-se _emó_? quem sabe?
[120] Tomámos para estimativa da distancia vencida a média, em diversas
observações, do tempo gasto por um animal carregado em percorrer uma
certa extensão medida; sendo a unidade o minuto que achámos
correspondente a 30 braças, 355.
[121] O rio pareceu-nos profundo e suppomos nunca poder dar váo bom á
artilharia e cargueiros.
[122] Commandada pelo capitão José Pedro de Souza, o qual sempre se
prestou a coadjuvar-nos efficazmente em todos os nossos trabalhos.