Qual deve ser a atitude dos monárquicos perante a republica nova?
Antes de 5 de Dezembro, havia duas correntes caracterizadas: a corrente
conservadora e a corrente demagógica.
Agora, aparece-nos em campo uma terceira corrente que cria uma situação
complicada porque isto que está já não é República, não sendo ainda a
Monarquia. Já não é República, porque lhe falta Afonso Costa. Ainda não
é a Monarquia, porque lhe falta o Rei. Ora a nossa atitude é clara.
Antes de 5 de Dezembro, diziam os republicanos que os monárquicos
desobedeciam às ordens do Rei, porque este lhes ordenava se colocassem
ao lado dos governos no que respeita à guerra, e os monárquicos não o
faziam,--acusação caluniosa, aliás, como é sabido.
Mudou-se de situação, e veio um governo que não nos insulta, que não
nos maltrata e que mantém a ordem, e nós com muito mais facilidade,
agora, cumprimos as ordens do Rei, e damos apoio a esse governo. Se
antes da revolução de 5 de Dezembro, fervia pancadaria rija nos
monárquicos porque estes não apoiavam os governos democráticos e da
sacrílega união sagrada, agora, ferve a mesma rija pancadaria porque
apoiam um governo honesto e de honradas intenções.
Os republicanos são curiosos: dão aos monárquicos, em Portugal, direito
de cidade e de existência, com a condição de serem ou afonsistas, ou
almeidistas, ou camachistas; simplesmente monárquicos, monárquicos _tout
court_, monárquicos puros, não os admitem, os republicanos.
Neste país, dão-se coisas que só neste país são possíveis!
Ora nós não podíamos e não devíamos adoptar diante do actual governo
outra atitude que não fosse a que adoptamos, porque nós não somos
desordeiros, e perderíamos todo o nosso prestígio político, dando uma
prova de falta de senso e falta de patriotismo, se nos colocássemos
numa situação anarquista e destruidora, perante o Sr. Sidónio Pais. As
forças vivas da nação diriam que éramos anarquistas, porque estávamos
contra todos os poderes. Apoiamos francamente e dedicadamente este
governo, porque este é um governo diferente de todos os outros. Apoiar
este governo, e neste momento, é nosso dever, não porque ele nos traga a
Monarquia, mas porque nos traz a Ordem.
Fazer a Monarquia...
Se dependesse de eu abrir a minha mão o proclamar-se, agora, a
Monarquia, eu fechal-a-ia e pediria a toda a gente que ma apertasse bem,
a fim de que, nesta ocasião, a Monarquia se não fizesse, pois que,
actualmente, não nos convém. Ela há de vir no momento oportuno, porque
não depende da vontade deste ou daquele, a evolução de acontecimentos
políticos e sociais dessa natureza.
O apoio ao Sr. Sidónio Pais é lógico e legítimo, porque ele está
cumprindo com os nossos deveres internacionais, com aqueles deveres a
que nos ligam tratados seculares, obra dos Reis e do Passado; e
ainda porque o Sr. Sidónio Pais está restabelecendo a ordem dentro das
condições que lhe são possíveis com a existência das instituições
republicanas. Mas este apoio que nós lhe damos, e a que eu chamo
meramente teórico e aplauditivo, não pode ir além, porque não poderá o
Sr. Sidónio Pais nem ninguém, seja quem for! fazer esquecer aos
monárquicos o que o regímen republicano tem feito em Portugal, e lhes
tem feito a eles, como eu nunca poderei esquecer o que me fizeram os
democráticos--em insultos, em agravos, em ofensas e agressões. Receios
de uma consolidação republicana, só os terão os espíritos superficiais.
É preciso levar ao espírito dos monárquicos a convicção de que a
Monarquia não pode e não deve vir somente pelos erros dos republicanos;
deve vir e há-de vir, sim, pela força da sua própria constituição,
porque o organismo da nacionalidade se integrou na forma monárquica e só
a ela se adapta. A Monarquia há de vir porque é uma conclusão lógica
dos acontecimentos, e não está no poder dos demagógicos afasta-los,
como não está no poder contrário apressa-los. Eu prefiro que ela venha
depois de um grande período de paz, de ordem, de sossego e de progresso,
dentro da República, a que venha sobre os ódios fomentados pelos
democráticos. Eu prefiro que a Monarquia venha quando a situação social
portuguesa esteja mais ou menos regulada, a que venha neste momento em
que se encontram ainda vivas todas as questões difíceis que uma longa
indisciplina impune agravou. Nós todos que amamos a nação devemos
estimar e desejar que, dentro da forma republicana, se aplanem todas as
dificuldades, de modo que a Monarquia possa receber o país no melhor
estado possível.
Se devemos apoio ao Sr. Sidónio Pais, no problema da ordem pública, é
porque não temos outro caminho a seguir, porque esse é o problema
fundamental português, sem a resolução do qual todas as tentativas de
resolver os outros são estéreis. Sobre o problema da ordem, sempre assim
pensei.
Eu nunca tenho de me arrepender do que a este respeito preguei
noutros tempos, porque, por muitos que fossem os meus exageros e
desvios, uma coisa nunca fiz: foi defender actos de desordem, de
violência, ou de anarquia; coloquei-me sempre no ponto de vista de um
homem com responsabilidades de governo. Acima de tudo, primeiro que
tudo, a ordem--que se baseia na educação.
Eu não quero só instrução, não; o que quero é educação. Não ensinem o
povo a ler, enquanto não estiver bem educado, porque se sabe ler, sem
ser educado, começa a disparatar.
O povo que não está educado, se sabe ler, aprende a fazer ingredientes e
máquinas explosivas, praticando todas as tolices possíveis e
imagináveis, querendo imitar os lunáticos e fantasistas que aparecem
pela Europa a propagar desordens e tolices. Quando o povo tiver bem
profundo o sentimento da ordem, então que aprenda a ler à vontade. É
preciso que o povo não deixe de ser criminoso somente por medo ao código
ou à polícia. Cada vez que se funda uma escola, ergo as mãos ao céu,
porque nós só sabemos deseducar, só sabemos fomentar a indisciplina e a
desordem, só sabemos ensinar ler o que não deve ser lido, e se não sabe
compreender.
Nós temos partidos anarquistas, sindicalistas e socialistas que ignoram
o que são essas doutrinas e que, com a sua falta de educação, ao lerem
Kropotkine, um pobre príncipe exilado que está agora na Rússia a ver a
prática dos seus dizeres, dão no roubo e no assassinato.
Eu assisti a alguns dos desvairamentos e aos excessos e aos roubos que
ultimamente se deram nas ruas da cidade.
Querem saber o que vi os assaltantes roubar e usar? Não era só o
bacalhau, o feijão ou a batata que lhes pudessem servir para a
alimentação; eram serpentinas e máscaras de Carnaval que espatifavam,
garrafas de Champanhe e de licores que não podiam beber, porque o seu
paladar não está preparado para tais bebidas, eram botas de luxo,
sapatos de luxo que não podiam calçar,--enfim a exibição do crime, na
sua forma mais hedionda.
E até ouvi que merceeiros houve que tendo tirado das suas lojas os
géneros que tinham, fingindo-se roubados, iam depois, comprar aos
desgraçados das ruas os géneros saqueados para os venderem por alto
preço! Aqui têm o que é a falta de educação!
Apesar das falsas ideias dos tribunos inflamados que advogam a
instrução, eu continuo pois a pedir para este povo educação, educação e
educação; e só depois, é que pedirei a instrução.
Trata-se de um povo em que cada um quer ser independente, em que cada um
só pensa em mandar e não obedecer, porque ninguém pensa em que é muito
mais nobre obedecer do que mandar, exorbitando, ou sem capacidade para o
mando.
Apoiado o governo no problema da ordem, temos que lhe dar apoio também
no problema da guerra. A entrada de Portugal na guerra, para mim, é
ainda hoje um mistério e se não é um _bluff_, é, pelo menos, um problema
que precisava ser muito esclarecido. Convenço-me disso pela relutância
que tem havido na publicação de certos documentos, e na apresentação
de certas condições. Mas, houvesse o que houvesse, a verdade é que
estamos ligados à Gran-Bretanha, por efeito de tratados antigos e que
não datam, se não estou em erro, do regímen republicano, e temos que
cumprir aquilo a que nos comprometemos. No problema da guerra há, pois,
que dar força ao governo para que ele continue a obra estabelecida pelas
condições especiaes em que se encontrava a nação.
Mas o problema de que fundamentalmente nos separamos do governo, e
perante o qual nos encontramos, portanto, em campos opostos, é o que eu
chamo o problema da Nacionalidade.
O Sr. Sidónio Pais demonstrou pelas suas palavras, e o seu governo
também o demonstrou por actos, que se deixa embalar muito pelas quimeras
impossíveis, pois quer normalizar a vida política da nação fazendo
ingressar os monárquicos na República. Não pode ser! Diante das palavras
proclamadas pelo chefe do Estado, devemo-nos manter na maior reserva e
na mais firme expectativa.
E a conhecida reforma da lei da Separação destruiu as ilusões que
pudéssemos ter alimentado.
Não nos é possível ingressar na República, porque somos monárquicos,
porque a República não se adapta ao sentimento nacional, porque a nação
tem oito séculos de tradições monárquicas, porque os ensinamentos da
política europeia nos indicam que as nações são tanto mais fortes quanto
mais forte é o seu regímen monárquico, e porque na Europa (a guerra o
mostra) o principio democrático está sendo vencido pelo principio
monárquico. A Rússia é o exemplo vivo.
Por outro lado, a reforma da lei da Separação não foi feita em homenagem
à Igreja, mas sim, como o próprio relatório confessa, para fazer
desaparecer uma arma que se manejava contra a República!
Sempre a defesa egoísta da República!
Em homenagem à Igreja e ao sentimento católico da nação, o regímen
republicano devia rasgar completamente a lei da Separação. Não
compreendo como o regímen republicano quer resolver a questão
religiosa, sem ouvir a Igreja.
Em 1910, havia algum conflito entre o Estado e a Igreja? Não. Havia um
regímen concordatário bom ou mau, não o discuto. Se não havia conflito,
porque foi o regímen republicano levantá-lo? Podia decretar que não
reconhecia a religião católica, e o Estado passava a viver independente
dela, como vive independente de quaisquer academias ou associações.
Queria o Estado alterar as suas relações com a Igreja? Entendia-se com
as suas autoridades superiores. O que não se compreende é que um regímen
que não é católico se disponha a reformar as coisas da Igreja.
A reforma da lei da Separação restabeleceu a permissão do uso de hábitos
talares e deu aos seminários liberdade para regularem e dirigirem o seu
ensino interno; mas dizer que isso resolve o problema religioso em
Portugal não é verdade. Só se resolverá inteiramente o problema
religioso, quando à Igreja católica forem dadas regalias e privilégios
especiais em face das outras religiões, porque seria de uma
ingratidão profunda esquecer os múltiplos serviços que se devem à Igreja
católica. De resto, isto está mais ou menos no espírito público.
Logo depois de 5 de Outubro, houve muitos aplausos à propaganda
anti-clerical, mas a nação, hoje, está convencida de que o perigo
clerical é uma lenda, e que a Igreja é um elemento insubstituível de
ponderação e ordem.
Conclusões.
A nossa aspiração é a Monarquia e, por isso, temos que estar preparados
para ela. Não sou revolucionário nem conspirador. O sentido das minhas
palavras é muito outro. Não tenhamos ilusões, nem esquecimentos: a
situação do Sr. Sidónio Pais não é eterna e, quando ela findar, ou
regressa Afonso Costa ou temos uma Monarquia.
Os monárquicos têm pois que estar preparados, não para colocarem nas
janelas as bandeiras azuis e brancas, mas para estabelecerem nas suas
fileiras uma disciplina segura e uma obediência plena e absoluta ao Rei.
A Monarquia só pode ser eficaz, só pode trazer a normalidade e a
tranquilidade ao país, quando não houver no pensamento de cada um de
nós, resíduos republicanos, preocupações liberalistas, aspirações
democráticas ou fantasias e quimeras de 1789; só pode ser eficaz e
trazer a normalidade, quando olharmos para o símbolo da nossa causa e
dos nossos princípios, e lhe obedecermos inteiramente; quando formos
como que um exército que só é perfeito quando obedece ao seu general;
quando pusermos o Rei acima das nossas dissensões pessoais, e tão alto
que só o vejamos pelas suas altas qualidades de majestade perfeita, e de
supremo e legítimo representante da nação; tão alto como ele nunca
esteve durante os oitenta anos de constitucionalismo. A Monarquia só
pode ser eficaz e trazer normalidade, quando o Rei se não veja obrigado
a tirar o poder a um para contentar outro, a dar o poder àquele para
contentar aqueloutro; quando não fizermos chegar aos ouvidos do Rei, e
nem mesmo aos últimos degraus do seu trono, as nossas questões pessoais,
as nossas birras e os nossos despeitos e quando fizermos com que não
haja outra coisa senão servidores da nação. É para isto que entendo que
todos nos devemos preparar.
Os novos, que não têm ainda a inteligência estragada pelos vícios
doutros tempos, que não viram directamente tudo quanto se passou antes
do advento da República, devem levar ao espírito dos monárquicos a
consciência da necessidade desta orientação. Os velhos que assistiram, e
muitos foram cúmplices, ao que se passou, e os que não são nem velhos
nem novos, todos esses devem seguir os novos.
Foi com os novos que o Sr. Sidónio Pais se encontrou e é também com os
novos que a Monarquia se há de encontrar.
Eu pertenço a uma geração de sacrifícios, a uma geração de vítimas, que
nasceu ouvindo as maiores acusações sem provas, e bebeu essas
campanhas negativas e difamatórias como bebemos a água que nos dão ou
recebemos o ar que respiramos. Os novos têm de se agrupar e fazer deste
país, uma nação com um poder político que seja legítimo e autêntico,
cuja força, disciplinada, se estenda do exército à indústria e do
operariado às academias, na orientação que eu levo e que levam os meus
amigos integralistas.
Só quando a nação atingir esse período encontrará a sua hora de salvação
e nova grandeza.
Não se seduzam pelas velhas teorias da Liberdade, Igualdade e
Fraternidade que seduziram os nossos pais e com que nos embalaram na
infância. Estudem, pensem e reflictam, não se deixando levar por
quimeras risonhas de outros tempos. Olhem para o que se passa por essa
Europa fora, vejam o que é a disciplina, a organização, a submissão ao
poder, o que é o respeito ao mando, o que são as forças organizadas
diante de forças improvisadas. Vejam tudo isso e aprendam em tudo isso.
Quando a Nação Portuguesa concentrar em si o máximo de energia e o
máximo de disciplina, a nação se salvará. Contribuamos todos para que
esse momento não tarde.
Tenho dito.