A República nova

Há hoje uma forma republicana a que o Sr. Sidónio Pais chama _República

nova_. Quer dizer: existe hoje o contrário do que existia, há alguma

coisa que nós ainda não tínhamos visto.

Quero acreditar que estejamos numa nova República e, pela minha parte,

confesso que contra esta nova República não senti ainda a mais pequena

animosidade ou oposição.

Há quem se queixe. E julgo mesmo que certas restrições atingem certos

jornais. Eu aplaudo. Não são doutrinários os jornais que querem sair.

São folhas impressas, órgãos de insulto, de calúnia ou de infâmia. O

governo não deixa que elas saiam? Acho que o governo faz muito bem! Isso

não pode magoar o meu liberalismo. Porque eu recordo-me muito bem de que

quando foi do governo Pimenta de Castro, esse governo mole e

bonacheirão, manso e lunático, honesto mas inexperiente, _O Mundo_,

esse saudoso órgão do republicanismo puro, não se cansou de acusar o

governo de estar vendido à Espanha. E o general Pimenta de Castro com

cuja amizade me honrei e, me honro, como eu lhe chamasse a atenção para

a calúnia, não quis ler, não quis saber, como não quis saber de muitas

outras coisas. As consequências foram o 14 de Maio! Não deixa o actual

governo preparar-se uma situação igual, proibindo estas gazetas de

aparecer em público? Faz muito bem! Mas o governo tem uma tríplice

função a desempenhar. Além da função superiormente política e importante

para ele e para o regímen, de alterar as bases do actual sistema

político republicano, tem ainda a função penal e moral: penal, mandando

para a África, como o tem feito, os incorrigíveis, os reincidentes do

crime comum, sejam ou não sócios do democratismo; e moral, castigando os

abusos e os erros do partido democrático e do governo transacto. Se

puder desempenhar estas funções, é caso para o felicitarmos...

Quanto ao aspecto político da sua missão, levanta-se, actualmente,

uma celeuma enorme sobre se deve continuar o regímen parlamentar ou deve

adoptar-se o regímen presidencialista. Como observador e crítico, acho

interessante o assunto.

Entendo que nós, como monárquicos, temos de nos manter alheios a essa

questão. Somos o partido dos monárquicos,--não somos ainda partido

monárquico. Não temos organização definida, embora tenhamos a chave

dela, que é o Rei.

O partido monárquico lançar na urna, como monárquico, o seu voto, para a

eleição presidencial, é fazer uma afirmação de princípio republicano, e

revogar a base fundamental do seu doutrinarismo monárquico. Mas se é

preciso, para se evitar um mal maior, impedir que o Sr. Sidónio Pais

saia do Poder, concorramos individualmente a dar-lhe a força precisa.

Neste caso, não é um partido monárquico que intervém, são os indivíduos

monárquicos que o fazem. É uma ficção necessária.

Esta questão que se formula sobre regímen parlamentar e regímen

presidencialista é salutar, porque vai acostumando o país a pôr de parte

o regímen parlamentar, e ensina a opinião pública a reconhecer a

possibilidade da existência de um governo responsável e independente das

tricas e habilidades parlamentares. Eu compreendo a relutância dos

republicanos pelo presidencialismo.

Os republicanos, verdadeiramente, não podem ser presidencialistas, e por

isso, faz bem o Sr. Afonso Costa, do fundo do seu exílio de Elvas, em

protestar contra o presidencialismo, como o Sr. António José de Almeida

que não sabe o que seja isso, ou o Sr. Brito Camacho a quem o

presidencialismo não convém. A República ou é parlamentar, caminhando a

passos largos para o anarquismo, ou é presidencialista e, então, deixa

de ser autêntica república. Os presidencialistas não são republicanos

puros, são republicanos monarquizados.

Oxalá triunfe o principio presidencialista!

Quando fui evolucionista, nesse tempo em que andei quatro anos a malhar

em ferro frio, eu pedia uma república presidencialista com poderes

vitalícios para o chefe do Estado. Isso dá-me um tal ou qual desejo de

assistir à experiência.

Faço pois votos por que a nação se habitue à diminuição das funções e

atribuições do parlamento, e entendo que os monárquicos devem,

individualmente dar todo o apoio e aplauso, escrito e falado, ao

princípio presidencialista, que é o mais benéfico e salutar dentro das

doutrinas republicanas.

Esta República nova tem um ambiente conservador e tem por cooperadores

os elementos monárquicos. É, por consequência, uma república de carácter

paradoxal, contra a qual os verdadeiros republicanos se apresentam em

acto de hostilidade, não tendo ainda entrado no caminho das violências,

porque têm medo; mas fá-lo-hão, quando virem que o sr. Sidónio Pais

enfraquece. Mas como os povos não se governam com instituições

paradoxais, esta situação tem que se esclarecer. Quando se esclarecerá?

Não sabemos. Ninguém o sabe.

A Situação Política Conferência realizada no Salão Nobre da Liga Naval Portuguesa, na noite de 26 Fevereiro de 1918 · 第 10 / 11 题