A Revolução de 5 de Dezembro

a) FACTORES POSITIVOS E NEGATIVOS

A situação política, criada com a revolução de 5 de Dezembro, é

absolutamente diversa da que existia antes. Vivia-se numa tirania de

mediocretes. Muitas vezes se fala em ditadura tirana. Mas o que então

verdadeiramente existia era uma mediocracia mesquinha dominando cinco

milhões de habitantes, o que era indigno de uma nação com um passado

como o nosso. Podíamos ter um César dominador e forte. Mas não era

isso o que tínhamos. Havia, apenas, pequeninos poderes anónimos e

ocultos que desapareciam à mais simples análise, que se furtavam à

crítica séria que sobre eles quiséssemos exercer. Era qualquer coisa de

incómodo e de irritante, mas que não provocava momentos de cólera, pois

apenas provocava o tédio. Fora dos partidos republicanos, não havia

ímpetos de raiva: sentia-se aborrecimento. Bocejava-se.

O 5 de Dezembro representa assim uma tentativa de salvar o regímen

republicano. Esse acontecimento teve factores positivos e negativos. Os

factores positivos foram o Sr. Sidónio Pais, com a mocidade da Escola de

Guerra e os elementos que a esta se juntaram; os negativos foram os

constituídos pela atmosfera em que se vivia e pela repulsa que o regímen

republicano, em sete anos de demagogia impune, soube criar-se.

Por parte dos partidos monárquicos, existia a expectativa, não só em

obediência às ordens de El-Rei, mas também porque assim o exigiam os

superiores e sagrados interesses da Causa monárquica--à qual convém

que o regímen republicano liquide inteiramente as responsabilidades dos

compromissos que contraiu.

Se, antes de 5 de Dezembro, eu dissesse aos que me escutam neste momento

que se ia tentar resolver o problema da ordem e que seria o Sr. Sidónio

Pais que dirigiria tal tentativa, ninguém me acreditaria, porque ninguém

o categorizava, ninguém o conhecendo.

Mas o 5 de Dezembro apareceu, e quando, na tarde desse dia, correu a boa

nova de que o Triunvirato tiranete encontrara alguém--que lhe fazia

frente, houve uma esperança como aquela que acolheu a tentativa do

governo de Pimenta de Castro.

E na hora em que o Sr. Leote de Rego (que tanto se louva de ter feito

arrear a bandeira alemã dos navios mercantes) teve de arrear a sua

bandeira de Comandante da Divisão Naval, o país respirou,--porque viu

dominada a demagogia, ou por que viu efectivar-se o seu ideal e a sua

aspiração?

A Nação viu, com agrado, que se caminhava para uma coisa melhor do que a

que estava, que se caminhava para a resolução do problema da ordem

pública, problema que há cinquenta anos está sem solução e tem

pervertido a alma da nação, inutilizando-lhe todas as suas forças. Esse

problema que se espalhou por todos os países, nuns mais cedo, noutros

mais tarde, surgiu para nós, quando quisemos adaptar a este país, uma

nova constituição de vida política, que nunca chegou a aclimatar-se e a

vingar.

A situação que tínhamos em Portugal, em 5 de Dezembro de 1917, era

lógica e era a conclusão matemática de tudo o que se tinha feito desde

que se implantou entre nós o constitucionalismo. Essa situação tem

raízes profundas, tem enormes raízes no passado, mas começou a

manifestar-se acentuadamente, quando quisemos adaptar à Nação Portuguesa

um regímen para que a sua alma nunca esteve preparada. E a prova disto

está em que todos nós respiramos mais tranquilamente neste regímen

ditatorial, porque, em Portugal, nunca se têm tão garantidas as

liberdades mais comezinhas como quando há suspensão de liberdades...

Por mais que queiramos iludir-nos, por mais que queiramos falar nos

imortais princípios, todos sentimos isto, todos preferimos o Sr. Sidónio

Pais, tendo na mão todos os poderes do Estado, dos quais não tem

abusado, antes, talvez, não tenha sabido usar inteiramente,--a termos a

centena de legisladores no Parlamento e na Liberdade, porque neste caso,

nunca sabemos quem toma a responsabilidade de um acto que se pratica ou

de uma medida que se adopta, porque tudo foge e desaparece diante do

anonimato da chamada Soberania Nacional. Se a inteligência lúcida de um

homem fez com que se arregimentasse a seu lado a mocidade da Escola de

Guerra e se disciplinasse, debaixo do seu comando, uma determinada força

do exército, e eis os factores positivos, o resto estava feito: era o

ambiente que o regímen republicano criou desde 5 de Outubro de 1910. Já

antes os republicanos se tinham incompatibilizado com o sentimento

nacional, sancionando, se não directamente, pelo menos indirectamente, o

regicídio, premiando um regicida nas pessoas de sua família, e

fazendo uma apoteose monstruosa, impossível em qualquer país civilizado

de Europa.

b) SUA FUNÇÃO NORMAL

Quando o triunvirato Afonso Costa, António José de Almeida e Norton de

Matos foi vencido, e o Sr. Sidónio Pais se encontrou senhor deste país,

uma função, principalmente, tinha o triunfador a executar: constituir-se

em ditadura militar, necessária neste país em que a disciplina e a ordem

são vocábulos sem sentido.

Somos um país absolutamente apaizanado. Cada um de nós é um rebelde

contra as leis e contra a disciplina; nos mais pequenos actos da nossa

vida, só estamos bem quando afirmamos o que julgamos ser a nossa

independência. A concepção da Pátria é meramente negativa, provisória, e

material. A colectividade apenas existe para nos servir. Sob o ponto de

vista do regímen republicano, cada um dos republicanos é-o à sua

maneira, de modo que a república de um não é a república dos outros.

E é preciso, digamo-lo entre parênteses, que entre os monárquicos não

suceda o mesmo...

Era necessária, pois, a ditadura militar que não devia ter por fim fazer

uma reforma da Constituição, mas sim, exclusivamente, pôr termo ao que

eu chamo o Equívoco nacional. Porque nós temos vivido, estamos vivendo

num grande e perigoso equívoco.

Há muito tempo que de um e outro lado ouço dizer: «_A Nação está

comigo_»; mas não há maneira de se saber com quem a Nação está. Quando

aparece um triunfador, a Nação aclama-o. Mas o que significa isso, se as

turbas, as multidões, em Portugal, são mais mutáveis, nos seus

movimentos e expansões, de que a superfície do mar na sua cor?

Eu não me deixo comover pelas manifestações das ruas e pelos vivas; o

que quero é ver levantadas as forças vivas da nação. Não são os lenços

das senhoras flutuando nas janelas, não são as palmas e os bravos que se

dão nas salas ou nas ruas, que dão força ao governo no poder. Isso

pode até perturbar o espírito dos governos ou dos triunfadores, e

inutilizar-lhes a acção.

A resolução do Equívoco nacional a que me referi é a chave do problema

português. Enquanto não for resolvido, o problema da ordem está de pé.

Resolvê-lo militarmente era a função normal da revolução de 5 de Dezembro.

c) SUAS CONSEQUÊNCIAS PRATICAS

A revolução de 5 de Dezembro, no entretanto, deu um governo heterogéneo,

mesclado, que não se sabe se está integrado no pensamento do seu

presidente, nem se sabe se tem ligação com este ou aquele partido; deu

um governo indeciso e incaracterístico, sem unidade de vistas e parece

que sem unidade de finalidade.

As ligações políticas de alguns dos membros do governo tiram-lhe toda a

força e homogeneidade, e a singeleza de direcção e de objectivo que

devia ter, e mais do que nunca é necessária.

A Situação Política Conferência realizada no Salão Nobre da Liga Naval Portuguesa, na noite de 26 Fevereiro de 1918 · 第 6 / 11 题