porém, evidentemente e para todos os effeitos, superior ao pinheiro,
cujo logar haja de tomar. Dá bellos troncos, aprumados, não muito altos,
não indo ordinariamente a mais de 25 metros, e engrossando bem. Vigoroso
e de crescimento rapido, capaz de descer a povoar terrenos mediocres.
Mediocres, note-se; para os ruins não será de confiança. Na America
mostrou-se «notavelmente resistente ao calor e ao frio» (Macclatchie);
Naudin considera-o «naturalisado» na Europa. A fórma do fructo, proxima
da do _rostrata_, promette que será dos que se prestam a cruzamentos, e
parece-me mesmo que das sementes que colhi, tenho já exemplares
hybridos.
O que tudo visto, e sendo certo que os numerosos _Eucalyptos_ d'esta
especie que possuo confirmam a informação dos livros estrangeiros a seu
respeito, creio que é de propagar com franqueza e estudar com attenção e
com probabilidades de proveito.
*Eucalyptus saligna.*--As noticias que encontro sobre este _Eucalypto_
divergem.
Aqui, leio que a madeira é «esplendida» e que os carpinteiros a estimam
muito; além me acautelam contra a sua «inferior» qualidade. Talvez
questão de terreno, o que nos _Eucalyptos_ muitas vezes determina a boa
e má qualidade da madeira. Quanto a exigencias climatericas, não é maior
a conformidade: na America, não sobreviveu a estiagens intensas, e na
Australia habita apenas as regiões mais quentes do littoral; mas o
_Diccionario das Plantas Uteis_ diz que «é mais rustico do que o
_Eucalyptus globulus_». Sobre terreno é que não ha duvida; o
apparecimento d'esta especie é uma «indicação de terreno bom», diz a
_Eucalyptographia_.
Os exemplares que eu tenho, já não são novos e estão magnificos, em boa
exposição e boa terra; mas, não obstante esta demonstração favoravel,
correrá talvez a desenganos quem se aventurar á plantação fóra de iguaes
condições, e as reservas sobre a qualidade da madeira não auctorisam
aventuras.
*Eucalyptus salubris.*--Boa fama; promettedor para as regiões áridas,
supportando temperaturas elevadas e geadas consideraveis, e afinal dando
boa madeira. E d'estas virtudes nenhuma subsistiu nos poucos exemplares
que d'elle obtive. Desde o viveiro foram muito pobresinhos, e, depois,
nunca tiveram nem um momento de crescenças francas nem estatura
apreciavel.
*Eucalyptus santalifolia.*--Um arbusto. Perdi quantos tinha no primeiro
inverno; morreram de frio.
*Eucalyptus siderophloia.*--Um _Iron-bark_ (casca de ferro), de
excellente madeira, como todos os da sua classe. Parente proximo do
_Eucalyptus_ _crebra_, será talvez menos resistente do que este, o que
aliás não foi estorvo a que me desse um exemplar que, da mesma idade do
_Eucalyptus crebra_, não lhe está muito inferior nem em desenvolvimento
nem em saude. Porventura não será erro, na cultura meramente florestal,
plantar conjunctamente, em mistura, o _Eucalyptus crebra_, o _Eucalyptus
paniculata_ e o _Eucalyptus siderophloia_.
*Eucalyptus Smithiana.*--D'esta especie pouco pude averiguar. Os
exemplares que possuo, de sementeiras de 1913, ainda não passaram
invernos bastantes para dizer claramente ao que vem. Alguma cousa dizem
já; é certo. O desenvolvimento é magnifico em qualquer exposição,
preferindo a frescura, manifestamente; mas tambem sem temer a terra
ingrata e ardente onde vejo um exemplar sadio e com um desenvolvimento
mediano. Aspecto lindo, folhagem abundante, delicada e pendente.
Madeira... parece que é parente do _Eucalyptus viminalis_, ao qual muito
se assemelha, realmente, á primeira vista; e, n'esse caso, teremos a
contar com uma madeira clara, inferior em dureza á das especies
congeneres mais notaveis, mas de muitas e utilissimas applicações apezar
d'isso.
*Eucalyptus stellulata.*--Arvore pequena, que não será talvez para
desprezar em encostas voltadas ao norte, pois supporta grandes frios e
dá boa lenha. Sem grandes esperanças, claro está; em Portugal serão mais
de apreciar _Eucalyptos_ que resistam ao calor do que os que supportam
grandes frios. Abrigos não faltam em nossos montes; a humidade é que nem
sempre será bastante, e sem alguns dias ardentes ninguem passa no estio,
quer more á beira do mar, quer paire nas alturas da Estrella.
*Eucalyptus Stuartiana.*--São de 1902 os que eu tenho. Muito me animaram
nos primeiros dez annos; depois afrouxaram no crescer, e entretanto
moderavam-me o enthusiasmo. Resiste bem ao frio mas teme a falta de
humidade; por este lado muito me lembra o _Eucalyptus obliqua_, o
_Eucalyptus capitellata_ e os demais _Stringybark_, seccando quando
elles seccam e nunca se lhes assemelhando nas proporções quando elles
medram. Juntando a isso que o _Eucalyptus_ _Stuartiana_ não dá nada
especial quanto a madeira, embora muito aproveitavel seja e faça boa
lenha, inclino-me a crêr que não ha vantagem em insistir na sua
disseminação.
*Eucalyptus tereticornis.*--Convém não o perder de vista. Agradece a
frescura das proximidades do littoral, emquanto ao mesmo tempo não
succumbe com a estiagem e a seccura dos valles do interior; e, quanto a
madeira, é o rival do _Eucalyptus rostrata_ na opinião do maior numero,
e até lhe será superior na opinião de alguns outros. «O snr. Maiden, diz
Macclatchie, conta que um poste d'esta madeira se conservou inteiramente
são durante 55 annos; e, segundo o mesmo auctor, o snr. Howitt, eminente
auctoridade sobre as arvores da colonia de Victoria, põe o _Eucalyptus_
_tereticornis_ na cabeça do rol das madeiras d'aquella colonia proprias
para commercio.»
Vão bem os dois exemplares mais antigos que d'esta especie possuo; o
maior, de 1902, tem 85 centimetros de circumferencia. Note-se: cresceram
devagar nos primeiros annos e, no geral, não terão tendencia a dar
troncos muito aprumados,--o que se corrige, já vigiando-os e guiando-os,
já plantando basto e assim mantendo direitas as hastes que sobem á
procura da luz.
*Eucalyptus uncinnata.*--Um pobre arbusto, que nem sequer pelo vigor se
faz valer.
*Eucalyptus urnigera.*--Não fica pequeno; tenho, entre outros, um
exemplar com 15 annos e 1m,10 de circumferencia. Talvez o _Eucalypto_
que mais baixas temperaturas supporta; vem das regiões mais frias da
Tasmania. Affigura-se-me, porém, assás amigo de humidade, e não tenho
podido achar informações algumas sobre a qualidade da madeira. Se é
certo o seu proximo parentesco com o _Eucalyptus_ _cordata_, conforme o
Barão de Mueller tem por probabilisimo, o _Eucalyptus urnigera_ não nos
promette madeira melhor do que a de muitos outros de cultura igualmente
facil, senão mesmo mais segura e rendosa.
*Eucalyptus viminalis.*--Um colosso; dos meus, o mais alentado, com 20
annos, mede de circumferencia 2m,20. Cultura facil; até os encontrei
nascidos e crescidos expontaneamente em terra de uma vinha abandonada,
argilosa e de todo exposta ao sol. Na Italia supportou temperatura de 9°
e 10° centigrados abaixo de zero. Além d'isto, uma bella arvore de
sombra, melhor do que qualquer outra especie.
A madeira é que não tem muito credito; julga-se inferior á da maior
parte das outras especies, pouco duradoura em contacto com a terra e
fraca para lenha.
Talvez que o juizo que mais exactamente resume as qualidades e
deficiencias d'esta arvore seja o de Naudin, dizendo que o _Eucalyptus
viminalis_ é uma bella arvore de ornamento ou de avenida, chegando a
mais de 30 metros de altura, sem crescer tão depressa como o
_Eucalyptus_ _globulus_. A sua madeira não tem nem a mesma densidade nem
a mesma duração da madeira do _Eucalyptus_ _globulus_, o que não a
impede de servir para numerosas applicações em obras do interior da
casa.
*Eucalyptus virgata.*--Ou _Eucalyptus_ _Sieberiana_, na classificação do
Barão de Mueller, que d'elle diz muito bem. É o _Iron-bark_ da Tasmania,
frequente nas cumiadas graniticas da costa, nos valles arenosos e
pedregosos do interior, assim como nos outeiros de lousinho, e indo até
1:200 metros de altitude. Boa madeira para serrar, dura depois de sêcca,
leve e elastica, ardendo bem mesmo em verde, fraca para enterrar, muito
superior á do _Eucalyptus hoemastoma_, do qual o _Eucalyptus Sieberiana_
é parente muito proximo. De casca aspera e persistente, ramifica mais
copiosamente do que qualquer outra especie de _Eucalyptos_ da Tasmania.
Téem apenas tres annos os exemplares que possuo d'esta especie,
provenientes de sementes enviadas para o Jardim Botanico da Universidade
de Coimbra pelo professor Maiden, e, por isso, com todas as garantias de
authenticidade. Mas estão promettedores, com mais de 2 metros de altura,
viçosos, amplamente ramificados e já com fructos, segundo a precocidade
sabida e caracteristica da especie. Tudo me anima aqui a novas
sementeiras e a insistir na cultura.
*Eucalyptus Wabtoniana.*--De incerta qualidade de madeira e parente do
_Eucalyptus maculata_, por extrema susceptibilidade ao frio excluido das
nossas culturas, o _Eucalyptus Wabtoniana_ não resistiu á geada, nem
mesmo com certo abrigo. Entre nós será quasi uma planta de estufa.
BIBLIOGRAPHIA
As publicações sobre descripção e cultura dos _Eucalyptos_ já não téem
conta; o que sobre o assumpto nos offereceu a França, a Australia e a
Italia, formaria uma bibliotheca. E, mesmo entre nós, haverá muito a
colher e a aproveitar em innumeraveis e utilissimas noticias espalhadas
pelas publicações agricolas periodicas, dando conta da experiencia da
cultura de varias especies de _Eucalyptos_ em terras portuguezas.
Creio, porém, que com os poucos volumes abaixo indicados se constituirá
livraria sufficiente para quem se sentir tentado a proseguir no estudo
de similhantes missionarios de abastança das nossas florestas, tão
carecidas de renovação:
Em primeiro logar, as obras do Barão de Mueller. Sobretudo a
_Eucalyptographia_, publicada em Melbourne, de 1874 a 1884, e o
_Diccionario das Plantas Uteis_, edição da _Gazeta das Aldeias_,
traduzido em portuguez, em 1905, pelo illustre professor da Universidade
de Coimbra, o snr. dr. Julio A. Henriques.
Depois, as obras de Maiden, o eminente naturalista e director do Jardim
Botanico de Sydney, particularmente _The Useful Plants of Australia_ e
_A Critical Revision of the Genus Eucalyptus_, ainda não concluida.
Em seguida e, finalmente: o livro de A. James Macclatchie _Eucalypts
cultivated in the United States_, boletim n.º 35 da repartição de
agricultura d'aquelle paiz, publicado em Washington em 1902 (livro
excellente, talvez de todos o mais prático); _Description et Emploi des
Eucalyptus introduits en Europe_, de C. Naudin (Antibes, 1891); _Les
Eucalyptus_, de Felix Sahut (Delahaye & Lecrosnier, Pariz, 1888).
INDICE
Eucalyptos e Acacias
Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso paiz e da
apreciação do valor dos seus productos
Cultura do Eucalypto
Póda dos Eucalyptos
Escolha das variedades
Do córte dos Eucalyptos
Eucalyptos hybridos
A côrte dos gigantes
Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado
Bibliographia
Livraria do «Lavrador»
LIVRINHOS JÁ PUBLICADOS:
I--Manual do podador (2.ª edição), 90 réis
II--Doenças das videiras (3.ª edição), 100 réis
III--Doenças das fructeiras (2.ª edição), 160 réis
IV--O vinho: como se faz e conserva (2.ª edição), 140 réis
V--O desengace, 280 réis
VI--Adubações (2.ª edição), 130 réis
VII--Manual do enxertador (2.ª edição), 230 réis
VIII--Cultura da batata (3.ª edição), 140 réis
IX--Oliveira, 140 réis
X--O Azeite, 140 réis
XI--O Milho; cultura aperfeiçoada (2.ª ed.) 200 réis
XII--Animaes uteis ao lavrador, 140 réis
XIII--Animaes nocivos ao lavrador, 340 réis
XIV--As hortas; sua cultura racional (2.ª ed.) 250 réis
XV--Os pomares, 280 réis
XVI--A capoeira, 280 réis
XVII--O gado, 230 réis
XVIII--Guia do lavrador, 90 réis
XIX--Botanica e Agricultura, 280 réis
XX--Prados e Pastagens, 250 réis
XXI--Doenças internas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 350
réis
XXII--Doenças externas, não contagiosas, dos animaes domesticos, 510
réis
XXIII--Doenças contagiosas e parasitarias dos animaes domesticos,
510 réis
XXIV--O bicho da sêda, 280 réis
XXV--A Agua--Como se procura nos terrenos, 310 réis
XXVI--Construcções agricolas, 420 réis
XXVII--O Trigo--Como se obtém grande rendimemto, 350 réis
XXVIII--Os Pinhaes--Como se conservam; como se augmentam, 350 réis
XXIX--As Abelhas, 350 réis
XXX--Ervas más, 340 réis
XXXI--Jardinagem, 350 réis
End of Project Gutenberg's Eucalyptos e Acacias, by Jaime de Magalhães Lima