O effeito de belleza é grande--o que tambem representa valor. Nem só de

pão vive o homem; a vida não se resume em operações arithemeticas de

sommar e multiplicar. Disseminando entre os _Eucalyptos_ _Acacias

podalyriaefolia_, _Baileyana_, _dealbata_, _mollissima_, _longifolia_,

_pycnantha_, _cyanophylla_, _decurrens_, _melanoxilon_ e todas a demais

d'este genero, possuiremos quanto baste para termos flôres, de um

perfume leve e delicioso, desde os fins de novembro até maio, quasi

ininterrompidamente. Por momentos, quando a estação lhes corre

favoravel, dão um deslumbramento, de que o lavrador, se bom lavrador

quizer ser, alguma coisa colhe e traz ao mercado para engordar o

mealheiro.

Entretando, criou-se muita ramagem que aquece o forno da brôa e poupa o

córte de arvores adultas, e criou-se tambem, além de muita lenha, uma

avultada somma de madeira preciosa, com diversos usos, sobretudo

convindo á marcenaria e á tanoaria. Para estes ultimos fins, a _Acacia

melanoxilon_ tem hoje os creditos feitos; facilmente se pagará por 20

escudos uma arvore de 20 annos, se foi convenientemente tratada--isto é,

rendeu 1 escudo por anno e, calculando que um hectare comporta 1:000,

rendeu um conto por hectare e por anno. Mesmo suppondo que os preços

baixarão algum dia d'aquelles exageros em que a guerra os pôz, a

plantação da _Acacia melanoxilon_, ou da _australia_, como no vulgo é

chamada, ficará em toda a hypothese uma cultura altamente lucrativa.

Immediatamente, como productores de madeira, vém a _Acacia decurrens_ e

as suas variedades, entre as quaes póde contar-se a _Acacia dealbata_,

recentemente em uso para fabrico de tamancos e dando casca excellente

para cortumes, de uma elevada percentagem de tanino. Muito proxima,

senão igual n'esta ultima applicação, segue-se a _Acacia pycnantha_, de

uma rijeza de madeira notabilissima e «uma das cascas taninosas mais

ricas que ha no mundo», segundo Maiden diz, o qual acrescenta que «outra

mais rica poderá haver, mas não do seu conhecimento.»

Supponho todavia que o principal valor economico das _Acacias_,

sobrelevando áquelle muito subido que possam ter para madeira, lenha e

cortumes, estará porventura na sua prodigiosa capacidade de criar

vegetação nos terrenos áridos, terrenos que, na expressão de Maiden,

«nem herva dão», nem para pastagem servem. D'isso tenho na minha

experiencia provas concludentes.

Pelos residuos de materia organica que n'essas terras deixam, as

_Acacias_ são o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte

á cultura. Para este effeito, a _Acacia_ é reputada superior ao

_Eucalypto_, e creio mesmo que é superior a qualquer outra planta,

embora tenha conseguido cobrir gandaras frias e miserrimas com o

apertado manto de verdura que a _Hakea saligna_ lhes prodigalisa em

poucos annos, enriquecendo essas gandaras, preparando-as para melhores

destinos com boas camas de folhido. Mas as _Hakeas_, se depressa medram,

cedo morrem e dos seus troncos só nos deixam uma lenha que me parece

muito pobre. As _Acacias_ levam-lhes, evidentemente, grande vantagem na

missão de fertilisadores: a sua qualidade de leguminosas e o poder

fecundante que d'essa qualidade lhes vém, juntando-se a uma incomparavel

resistencia ás violencias da estiagem e á avareza nativa do sólo,

attribue-lhes um logar unico no desbravamento das nossas charnecas,

tanto mais que parece averiguado que a cultura das _Acacias_ se póde

prolongar no mesmo terreno sem prejuizo da sua fertilidade. Os

cultivadores e botanicos australianos são de opinião que por esse lado

não ha inconveniente na repetição immediata de tres ou quatro plantações

sucessivas de _Acacias_ na mesma terra. Note-se que a _Acacia_ é uma

arvore que se faz depressa e envelhece cedo, mostrando exemplares de 10

e 12 annos com uma boa percentagem de cerne, e este facto,

acrescentando-se aos demais que acabo de apontar, legitíma a esperança

de melhorar um terreno fazendo tres cortes de madeira boa em 60 annos.

A cultura da _Acacia_ é em tudo igual a do _Eucalypto_, modificada

apenas em dois pontos: a sementeira e a póda.

A semente da _Acacia_ tem um invólucro muito rijo; ha exemplos de

sementes enterradas fundo, durante muitos annos, que depois d'isso

germinaram, quando o acaso da cultura as trouxe de novo á superficie da

terra. Por isso, agradece preparo que facilite a germinação; convém

lançar-lhe em cima agua a ferver e n'essa agua a conservar antes de a

lançar á terra. Isto tenho feito com bom resultado. E ha até quem

recommende que se ferva a semente por um instante, advertindo todavia

que a temperatura não deve exceder 75° centigrados. Tenho para mim que a

melhor sementeira das _Acacias_ é a que se faz com as sementes frescas

logo que se colhem. Então germinam quasi todas, mesmo sem prévia

immersão na agua quente; e como essas sementeiras são antes do fim do

estio, época em que a semente amadurece, habilitam-nos a ter plantas em

estado de collocação definitiva na primavera seguinte; o que, afinal,

significa o adiantamento de um anno.

A póda é indispensavel, a _Acacia_ facilmente alastra e rasteja, se se

encontra abandonada e á larga. Para obter troncos bons, altos, lisos e

aprumados, teremos de os guiar com cuidado, limpando os ramos lateraes e

decapitando a arvore, para lhe engrossar a haste principal, se ella vai

muito delgada, com o risco de se tornar curva pelo peso da folhagem.

O melhor processo, particularmente para a _Acacia melanoxylon_, é a

plantação basta; assim, a falta de luz, determinando a inanição dos

ramos lateraes, atrophia-os e secca-os, ao mesmo que promove a elevação

do tronco. Considere-se, porém, que póda ha-de ser feita com

discernimento e paciencia, pouco a pouco, de modo que a arvore se forme

bem equilibrada, sem nunca se achar demasiado despida, o que a

enfraquece e atraza, quando não a inutilisa.

Maiden é de parecer que as _Acacias_ se devem dividir em dois grupos: as

das terras sêccas, que medram com pouca chuva, e d'essas a _Acacia

pycnantha_ é o typo; e as das terras frescas e dos climas maritimos,

demandando mais agua e florescendo em temperaturas inferiores d'estas, o

typo é _a Acacia decurrens_.

Esta distincção, que tenho por fundamental, bastaria para a selecção das

variedades conforme as circumstancias da cultura que emprehendessemos;

mas entretanto não será ocioso, para mais segura apreciação, tomar

conhecimento de certas qualidades peculiares a cada uma das especies que

passo a apontar, e que julgo as principaes:

*Acacia Baileyana.*--Lindissima, como planta ornamental, pela profusão

das flôres; mas especie pouco firme, degenerando com frequencia, e das

menos rusticas. Quer abrigo, boa terra e, ainda assim, não raro morre

nova.

*Acacia cyanophylla.*--Arvore robusta. Bellas flôres, das mais tardias.

Excellente para logares sêccos. Teme a geada. Comparavel á _Acacia

pycnantha_, manifestamente.

*Acacia dealbata.*--A mais conhecida das mimosas. Flôres já muito

apreciadas nos mercados. Como arvore florestal, aproxima-se da _Acacia

decurrens_, sendo-lhe um pouco inferior no volume dos troncos, na

percentagem taninosa da casca, e talvez na dureza da madeira. O Barão de

Mueller, no excellente _Diccionario das plantas uteis extra-tropicaes_,

traduzido para a nossa lingua pelo illustre professor da Universidade de

Coimbra o snr. dr. Julio Henriques, recommenda a _Acacia dealbata_,

«principalmente como combustivel, por ter grande poder calorifero.»

*Acacia decurrens.*--D'esta, diz o Barão de Mueller que «é mais

resistente do que o _Eucalyptus globulus_, podendo ser cultivada a

altitudes mesmo muito notaveis.» Riqueza taninosa superior, boa madeira,

contentando-se com terrenos pobres, e, como a _Australia_, com maior

tendencia a crescer direita do que as congeneres.

*Acacia longifolia.*--Boa flôr para o córte, crescimento rapido, valor

baixo em madeira e tanino, acentuada propensão a rastejar, preciosa como

povoador e fixador das areias da costa maritima. É esta a sua qualidade

por excellencia, provada entre nós em algumas localidades.

*Acacia melanoxylon.*--Dispensa commentarios. Conhecida e experimentada

em todo o nosso paiz que d'ella ostenta exemplares soberbos, em grande

variedade de situacões. Madeira magnifica para innumeraveis applicações.

Não ha, porém, que fiar na sua generosidade, quanto a qualidade do

terreno; nem todos lhe servem. Tenho d'esta especie plantações

atrophiadas por não terem gostado de terrenos, onde aliás o _Eucalyptus

globulus_ medra bem. Por isso, passei a reservar-lhe algum pedaço de

terra mais fresca, leve e penetravel. Encontra-se em grande variedade de

situações; é sabido e certo. Mas, até onde a minha experiencia alcança,

inclino-me a incluir a _Acacia melanoxylon_ nas _Acacias_ do typo da

_decurrens_, para os effeitos da cultura e da escolha do local da

plantação.

*Acacia mollissima.*--Maiden julga que a _Acacia mollissima_, como a

_dealbata_, é uma variedade da _decurrens_. Por esta poderiamos, pois,

aferir o valor economico da _Acacia mollissima_. Das plantações que

tenho feito, inclino-me a concluir que a _Acacia mollissima_ não

prospera em terrenos agrestes pela seccura ou pela pobreza do fundo.

Deixa-la-hia, portanto, na cathegoria das _Acacias ornamentaes_, porque

as flôres são realmente opulentas, brilhantes, e de um amarelo de oiro.

Degenera e cruza com uma frequencia extrema.

*Acacia podalyriaefolia.*--Cultivo-a ha poucos annos; faltam-me

elementos para lhe apreciar o valor da madeira e o desenvolvimento, que

entretanto me parece mediano. Supporta terras magras e estiagens

aturadas. Como productor de flôres para a venda, é incomparavel, não só

pela sua côr, de um amarelo leve, mas sobretudo pela época em que ellas

véem, em novembro, logo após os ultimos chrysanthemos, quando as flôres

muito escasseiam.

*Acacia pycnantha.*--Os naturalistas australianos reputam-lhe a casca

immediata á da _Acacia decurrens_, em riqueza de tanino. O Barão de

Mueller diz que «é de rapido crescimento, contentando-se com quasi toda

a terra, mas encontrando-se geralmente em terrenos arenosos pobres,

proximo á costa maritima.»

Maiden acha-lhe uma casca esplendida, densa e nada fibrosa,

pulverisando-se completamente, o que porventura não será indifferente

quando se empregue em cortumes. Não é das mais promptas em enraizar na

primeira transplantação para vaso; mas depois, na plantação definitiva,

vinga bem e atura grandes estiagens. Madeira rigissima, troncos grossos;

um exemplar de 20 annos, tinha 30 centimetros de diametro quando o

cortei. Passa por ser das mais sensiveis ao frio; mas as que plantei nas

encostas e entre outro arvoredo, soffreram temperaturas de 2°

centigrados abaixo de zero, sem maior mal. Flôres grandes e magnificas,

facilidade em dar á arvore boa fórma por uma póda conveniente.

Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado

*Eucalyptus acervula.*--Uma variedade do _Eucalyptus Gunnii_, sem

vantagem alguma sobre a especie typo, quanto a crescimento e resistencia

ou qualquer outra qualidade.

*Eucalyptus acmenoides.*--Da Nova Galles do Sul. Boa madeira, sem

duvida, na opinião unanime dos que se lhe referem. Desenvolvimento

mediocre nos exemplares que experimentei. Macclatchie aponta-o como

«conveniente para o littoral das regiões tropicaes», o que, acrescido ao

acanhado desenvolvimento que na experiencia mostrou, o deve excluir das

nossas plantações.

*Eucalyptus affinis.*--É um hybrido do _Eucalyptus sideroxylon_ e do

_Eucalyptus hemiphloia_, segundo as indicações de Maiden, que o reputa

de boa madeira. São muito novos os exemplares que possuo, para que possa

concluir o quer que seja sobre a conveniencia da sua cultura. Cresceram

bem no vaso, nos primeiros mezes; mas na plantação definitiva amuaram a

tal ponto que não farei nova tentativa. Creio que d'alli nada ha a

esperar.

*Eucalyptus amygdalina.*--Da Tasmania e muitas outras regiões da

Australia. Gigantesca e preciosa arvore, de que se encontraram

exemplares com 120 metros de altura e 20 de circumferencia na base. A

sua madeira é leve, propria para muito genero de carpintaria;

habitualmente não torce ao seccar, e fende em estacas com facilidade;

mas não é muito duradoura, quando enterrada, nem tão pouco dá

combustivel de primeira ordem.

Tenho d'este _Eucalypto_ muitos exemplares e em muito diversas

condições, e apezar da qualidade da madeira que apodrece quando

enterrada e dá uma lenha de valor mediano, afoita e calorosamente o

aconselho, sobretudo nas encostas frias e humidas, onde em

desenvolvimento excede algumas vezes o _Eucalyptus coriacea_ e o

_Eucalyptus Gunnii_, generosos e os melhores povoadores d'essas terras.

O _Eucalyptus amygdalina_ passa por ser ávido de humidade; mas nunca,

porém, me morreu nenhum de estiagens, embora alguns as soffressem e das

mais severas. Em terrenos bons, attinge rapidamente proporções

magnificas, e em terrenos pobrissimos, nos quaes o _Eucalyptus globulus_

adoeceu e se tornou rachitico, o _Eucalyptus amygdalina_ cresceu

devagar, muito devagar, mas sempre sadio.

É positivamente um criador de vegetação notabilissimo; merece ser

disseminado com prodigalidade, podendo subir a grandes elevações, pois

supporta temperaturas baixissimas, parecendo sob este aspecto mais

robusto que os seus companheiros da frialdade, o _Eucalyptus coriacea_ e

o _Eucalyptus Gunnii_. Nem nos prenda a limitada applicação da madeira;

não servindo para muita coisa em que outras especies se distinguem,

ainda assim lhe ficam qualidades de sobra para ser classificada em alto

apreço.

O _Eucalyptus coccifera_, o _dives_, o _fissilis_, o melanophloia, o

_regnans_ e o _Risdoni_, todos téem com o _Eucalyptus amygdalina_

parentesco, quando não são apenas um estado acidental d'essa especie,

determinado pela situação em que vegetam, convindo considerar n'este

ponto que, segundo o Barão de Mueller, o _Eucalyptus amygdalina_, mesmo

ordinariamente, varía bastante de aspecto, conforme as condições

geologicas e climatericas a que fôr sujeito. A essas variedades do

_Eucalyptus amygdalina_ me referirei em sua altura; mas desde já será

bom fixar que para as nossas culturas florestaes nenhuma d'essas

variedades offerece qualquer vantagem comparada com a especie de que

derivam.

*Eucalyptus Andreana.*--Naudin julga que provavelmente, será uma das

especies a que se deu o nome de _Eucalyptus amygdalina_, e achou-lhe

caracteres que d'esta especie o aproximam, emquanto na fórma juvenil

parece mostrar parentesco com o _Eucalyptus viminalis_. Sejam, porém,

quaes forem as suas affinidades especificas, que aliás não auctorisam a

presumpção de grande resistencia de madeira--«resistencia», note-se, não

se confunda com «utilidade», a qual não só na resistencia se funda--seja

qual fôr o seu logar na classificação botanica, o certo é que o

_Eucalyptus Andreana_ dá uma linda arvore, com a folhagem miuda e os

ramos delgados e pendentes, tronco direito e grande abundancia de flôres

na época propria.

Tenho exemplares de 17 annos com 90 centimetros de circumferencia,

prosperando em terrenos mediocres e nunca se havendo mostrado muito

captivos do frio. Ainda não decapitei nenhum; por isso, ignoro se tem

facilidade em ramificar e formar arvores baixas e copadas que seriam

bellas. É uma experiencia a fazer, com probabilidades de bom exito, a

julgar pelo parentesco. Tanto o _Eucalyptus amygdalina_ como o

_Eucalyptus viminalis_ podem sem maior difficuldade sujeitar-se a fórmas

ramificadas.

*Eucalyptus Behriana.*--Pequeno e vagaroso no desenvolvimento. Na

opinião dos botanicos, talvez uma variedade do _Eucalyptus largiflorens_

(ou _Eucalyptus bicolor_). O Barão de Mueller diz que «as qualidades

technicas da madeira estão ainda por experimentar.» Os exemplares que

tenho d'esta especie, semeados em 1903, estão bons e téem mostrado

grande resistencia ás estiagens. Mas cresceram anchamente, são de casca

persistente, e por estas qualidades supponho que houve erro na

classificação e são do _Eucalyptus hemiphtoia_, especie da qual o

_Eucalyptus Behriana_ se distingue a custo.

*Eucalyptus Boormannii.*--Maiden tem-no por hybrido do _Eucalyptus

siderophloia_ e do _Eucalyptus hemiphloia_, dando madeira de duração.

Por este lado, é de boa origem; qualquer das especies de que provém dá

madeira rigissima. Acresce que o _Eucalyptus hemiphloia_ é oriundo de

regiões sêccas.

Do _Eucalyptus Boormannii_ tenho um só exemplar. Cresceu devagar e não

está grande, em terreno de segunda ordem; mas sempre se mostrou sadio.

Por isto e attendendo á qualidade da madeira, convém persistir na

experiencia, a meu vêr.

*Eucalyptus bosistoana.*--Encontro-o indicado nos livros estrangeiros

como de boa madeira e proprio para regiões humidas. O unico exemplar que

d'elle tenho, sendo muito novo, e é nos primeiros tempos que mais

costumam crescer, e estando em excellentes condições, não mostra pressa

de ser grande, e desanima-me de novas tentativas.

*Eucalyptus botryoides.*--Abunda na Nova Galles do Sul e ainda na

colonia de Victoria; e tornou-se vulgar no sul da França, na Italia e na

Argelia. É, portanto, uma especie experimentada em climas muito parentes

do nosso, da qual já se sabe alguma coisa provada.

Mueller apresenta-o como arvore mediana, raro excedendo 40 metros de

altura, de casca permanente e madeira sólida, escura na côr, similhando

mogno, boa para carpintaria e marcenaria. Acha esta especie uma das mais

proprias para cultura á beira-mar, presumpção justificada pelo facto de

se encontrar indigena em localidades humidas e arenosas. Naudin tambem a

recommenda, «pela fórma pyramidal e pela folhagem abundante e umbrosa»

capazes de «a converter n'uma bella arvore de estrada».

Da excellencia da madeira do _Eucalyptus botryoides_ ha, porém, quem

duvide; Macclatchie, no seu precioso livro sobre _Os Eucalyptus

cultivados nos Estados-Unidos_, muito avisadamente aponta as

divergencias, embora previamente confirme as vantagens da cultura. Pois

diz: «Esta especie prospera á beira-mar; mas não convém a regiões de

clima sêcco. Na Australia prefere as situações arenosas e humidas, junto

á costa maritima, e, segundo o Barão de Mueller, vinga bem em terras

contendo agua estagnada. Na California dá-se bem em grande variedade de

situações que vão até 50 milhas da costa.» Esta arvore é das que se

pódem usar para plantação florestal em terras baixas de regiões

moderadamente humidas, onde não ha a temer grandes geadas. Pela folhagem

é util como arvore de sombra, em muitos sitios. Na Australia, onde os

colonos de differentes sitios estimam diversamente a sua madeira,

chamam-lhe «mogno dos brejos» e «mogno bastardo». Maiden julga que este

ultimo nome deve ser devido a confusão. Bailey e o Barão de Mueller

ambos reputam boa a madeira, emquanto Maiden se lhe refere como

«inferior, tanto pela resistencia como pela duração». Mueller e Bailey

indicam a madeira como dura, rija e duradoura, util para travejamentos

nas grandes edificações, cavernas de embarcações, postes, carros e

ripado. A madeira é avermelhada e de fibra apertada. Mueller diz que os

postes d'esta qualidade são muito duradouros, não lhes havendo notado

signaes de decadencia, ao fim de quatorze annos de uso.

Pela minha parte, confessarei grande predilecção por esta especie. Ha

bastantes annos que a tenho plantado em grande variedade de terrenos,

alguns assaz sêccos e sáfaros, e em todos elles encontro exemplares

perfeitos, senão pela rapidez do desenvolvimento, alguns medram devagar,

ao menos pela conformação e saude. O melhor de todos, da primeira

plantação, ha dezesete annos, tem hoje 1m,50 de circumferencia no

tronco, um metro acima do sólo. Note-se que estas plantações sentem

ainda o ar do mar; ficam a menos de vinte kilometros da costa, e sem

montes de permeio que embaracem a visita das brizas maritimas. Nada

posso dizer da madeira, senão que é maravilha o aprumo das hastes quando

a plantação é basta; e crescendo este _Eucalypto_ rapidamente, é de crer

que a madeira amadureça tarde, e só em exemplares de quarenta annos,

pelo menos, attinja aquella firmeza de trama que lhe dá todo o seu

valor. Cortada cêdo, achando-se tenra, tanto mais tenra quanto mais

depressa cresceu, ha-de por força torcer e rachar, tal qual as

congeneres em iguaes condições.

Para arvore decorativa e de sombra, o _Eucalyptus botryoides_ é

manifestamente magnifico, o mais bello do seu genero.

Achando-se desafrontado, ramifica abundantemente, sem prejuizo do aprumo

do tronco, sendo frequentemente necessario cortar-lhe os ramos

inferiores, dos quaes não tem tendencia a desfazer-se espontaneamente,

como acontece com muitas especies, sobretudo, com o _globulus_. A

folhagem expande-se horisontal, bella de côr e de fórma, e assim fórma

uma copa opulenta.

Advirta-se que, apezar de agradecer e preferir a humidade, até hoje

ainda nenhum _Eucalypto_ d'esta especie me morreu por effeito da

estiagem, o que aliás me tem acontecido com muitos outros, especialmente

com o _Eucalyptus capitellata_, com o _Eucalyptus obliqua_, com o

_Eucalyptus Stuartiana_ e mais alguns de importancia secundaria.

*Eucalyptus calophylla.*--Uma curiosidade de jardim. Flôres grandes,

folhagem bella, lusidia, lauriforme; mas muito melindroso, tanto que nem

vale a pena pensarmos na qualidade da sua madeira, embora não falte quem

a gabe.

*Eucalyptus capitellata.*--D'esta especie, geralmente reputada de boa

madeira, tenho bons exemplares. O melhor, plantado em 1903, mede agora

80 centimetros de circumferencia. Mas é uma _Stringybark_ (de casca

encordoada) e, como as parceiras, facil em povoar terras pobres, mas

exigente quanto a humidade. Alguns exemplares perdi já com as estiagens.

*Eucalyptus citriodora.*--Folhagem de um delicioso aroma, lembrando o do

limão, unica, por este lado, entre as congeneres. Madeira linda e

excellente, sem contestação dos que se lhe referem. Extremamente

exigente, quanto a clima. Emquanto novo, qualquer geada o mata. Deve,

todavia, notar-se que em Portugal se conhecem exemplares crescidos

d'este _Eucalypto_, com bastantes annos e grande desenvolvimento.

*Eucalyptus coccifera.*--De Tasmania. Verdadeiramente um arbusto,

resistindo bem ao frio e sem valor algum florestal ou decorativo.

*Eucalyptus colossea.*--Vide _Eucalyptus diversicolor_, do qual é

synonimo.

*Eucalyptus Consideneana.*--Segundo Maiden, é talvez um hybrido do

_Eucalyptus piperita_ e do _Sieberiana_, de madeira descorada e macia,

proprio do littoral.

Os exemplares que d'elle tenho são poucos e muito novos. Entre elles

está um de magnifico desenvolvimento e em exposição assaz fresca,

voltada ao norte. Apesar d'isso, julgaria imprudencia confiar, por

emquanto, em grandes plantações d'esta especie. Parece demandar

humidade, e n'essas condições haverá especies que se lhe avantagem,

tanto mais que a qualidade da madeira não é tal que mereça maior risco

em experiencias.

*Eucalyptus cordata.*--Da Tasmania, apparecendo em altitudes de 500

metros acima do nivel do mar. Interesse meramente botanico. Embora

supporte bem o frio e a pobreza do sólo, como verifico no magnifico

exemplar que tenho na minha collecção, nada vejo que me auctorise a

recommendar-lhe a madeira. Conserva sempre as folhas oppostas, sesseis,

azuladas, cobertas de goma, o que para as outras especies, como no

_Eucalyptus globulus_, é transitorio.

*Eucalyptus coriacea.*--Magnifica especie, a aproveitar em muita terra

portugueza, humida e fria.

Muito conhecido em algumas classificações por _Eucalyptus pauciflora_,

encontra-se desde as mais pequenas elevações até ás mais altas

montanhas, tanto nos terrenos graniticos como em formações de outro

genero. Apparece na colonia de Victoria, Nova Gales do Sul e Tasmania,

estendendo-se por muitas outras regiões.

Arvore mediana, chegando a 30 metros de alto, de bello aspecto, ramos

pendentes, tira o seu principal interesse da resistencia a frios

severos. Nos Alpes Australianos constitue com o _Eucalyptus Gunnii_

florestas em miniatura a 1:500 metros de altitude, até proximo das

geleiras. Na Europa houve um exemplar em Pau (Pyrineus) que viveu

durante alguns annos, chegando a florir; só morreu com o frio

excepcional do inverno de 1881-1882. Proximo de Montpellier, supportou

uma tempestade de 11 graus abaixo de zero, onde o _Eucalyptus

amygdalina_, que é dos mais resistentes, gelava.

Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias · 第 2 / 5 段