De quantos processos de cultura experimentei, e creio ter pe

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LIVRARIA DO LAVRADOR

XXXII

JAYME DE MAGALHÃES LIMA

EUCALYPTOS E ACACIAS

Vinte annos de experiencias

PUBLICAÇÃO DO «LAVRADOR»

(PROPRIEDADE REGISTADA)

PORTO

Officinas do "Commercio do Porto"

102--Rua do "Commercio do Porto"--112

1920

«Avaliando os lucros da silvicultura, dois factos devemos ter em conta:

o consumo progressivo da madeira por cada habitante, em todo o mundo,

apesar da introducção de materiaes que a substituem; e mais a

exploração, destroço e destruição das florestas virgens pelo fogo,

especialmente das que continham as madeiras de construcção mais

importantes. D'aqui resultou já uma escassez apreciavel de offerta de

madeira, como é manifesto pela firme subida de preços em todos os

mercados e pela baixa de qualidade. Não parece possivel fugir á

conclusão de que esta tendencia ha-de continuar a accentuar-se, e de que

por todo este seculo temos a contar com uma subida de preços certa e

muito consideravel. A segurança de collocação economica que a cultura

florestal offerece tem, por conseguinte, todas as probabilidades de ser

d'aquellas que vão melhorando com um augmento de lucros correspondente.»

Isto dizia um interessantissimo relatorio apresentado, em 1909, ao

parlamento inglez, por uma commissão nomeada para dar parecer sobre

varias questões que se prendiam com o desenvolvimento da cultura

florestal na Inglaterra, de iniciativa e conta do Estado. E, se isto era

uma verdade de larguissimo alcance então, antes da guerra, e

indiscutivelmente o era, agora, depois do desperdicio colossal de

madeiras a que acabamos de assistir, e quando madeiras faltam para tudo,

achamos o salutar aviso de homens intelligentes e auctorisados já posto

em termos de demonstração prática eloquentissima, com que a calamidade

confirmou a previsão e o conselho.

Observa aquelle relatorio que as mattas, davam «um producto para o qual

parecia haver uma procura quasi illimitada». Mas hoje o problema

aggravou-se, a ponto de que não ha que discutir as possibilidades de

procura que os productos florestaes possam ter. Apenas teremos a cuidar

de saber por que modos se poderá attenuar a fome de madeiras que vai

pelo mundo, e particularmente na Europa, partindo do principio que a

satisfação completa é de todo impossivel, tratando-se de uma riqueza que

na melhor hypothese leva 25 annos a criar e, em muitos casos, aliás

normaes, carece de 80 annos para se constituir capazmente.

Evidentemente, não ha caixa economica que, em segurança e rendimento, se

compare com a plantação d'uma arvore. É capital posto muitas vezes a

100, 200 ou 300% ao anno. Meu pai vendeu a 4$500 réis _Eucalyptos_ de 20

annos, cuja plantação lhe havia custado a 40 réis cada um, ha muito

tempo, quando ainda em Portugal se usavam libras; e eu vendi agora a 18

escudos australias plantadas ha 17 annos, e postas na terra a menos de

tostão cada uma. Os economistas costumam dizer que a exploração

florestal é empreza a tão largo praso que não ha que fiar na paciencia e

tenacidade individual, e deve ser confiada á administração do Estado e á

sua persistencia. Mas, pois que muitas coisas fazemos sómente _para

deixar aos filhos_, eu diria a quem podésse dispõr de um modestissimo

peculio que comprasse uma leirita de bravio e a arroteasse e plantasse

de arvores, se queria estar certo de multiplicar seus parcos bens e

legar aos filhos um pé de meia em que não entra traça e que durante a

vida nos deu sombra e prazer, e esta inefavel delicia de criar.

É n'estas circumstancias que por favor da natureza, e favor muito menos

vulgar do que geralmente se imagina, nos achamos senhores de largas

regiões onde é possivel a cultura do _Eucalypto_, com antecipada certeza

de sua prosperidade. Li algures que o _Eucalypto_, em igualdade de

situação, dá cinco vezes o producto do carvalho. Haverá casos de dar

menos e haverá tambem casos, infinitamente mais numerosos, de dar muito

mais; mas, sem muito nos prendermos com o rigor de numeros que a

natureza nas suas divagações e caprichos transgride de contínuo, podemos

ter por averiguado e fóra de duvida que não ha entre nós arvore

florestal de maior rendimento em volume e peso do que o _Eucalypto_.

Por isso me convenci de que não seria totalmente inopportuna e esteril a

publicação d'estas notas da experiencia da cultura de algumas dezenas de

especies de _Eucalyptos_, a que ha vinte annos me dedico. Alguma coisa

n'ella haverá que possa aproveitar aos nossos lavradores. Sobretudo me

parece que, além do _E. globulus_, convém que, sem demora, plantemos

mais meia duzia, pelo menos, de outras especies que se distinguem, ou

pela superior qualidade da madeira, ou pela faculdade de adaptação a

terrenos que o _E. globulus_ engeita e que nenhuma das nossas arvores

acceita com promessa de rendimento comparavel ao de certas variedades de

_Eucalyptos_, ás quaes uma tradicional preguiça não concedeu ainda logar

dentro dos vallados das suas mal povoadas mattas.

O leitor talvez estranhe que eu aqui tomasse nota de muitas variedades

por diversos motivos condemnadas. Mas persuadi-me de que nem assim

convinha ignoral-as; os livros e os catalogos estrangeiros facilmente

induzem em esperanças e enthusiasmos que não raro e facilmente só a

desenganos conduzem, e imagino que onde eu desenganado me encontrasse em

emprehendimentos que custam algum dinheiro, muitos cuidados e grande

perda de tempo, seria de duvidosa camaradagem e rematado mau gosto ficar

calado e pelo silencio deixar que os companheiros corressem a

precipitar-se em igual desastre.

Eixo, 26 de Janeiro de 1920.

Eucalyptos e Acacias

I

Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso paiz e da

apreciação do valor dos seus productos

Tem já historia a cultura do _Eucalypto_ na Europa, embora não tão

remota como a data do descobrimento d'estas arvores soberbas nos

auctorisaria a suppôr. O primeiro registado nos annaes dos exploradores,

o _Eucalyptus obliqua_, foi visto na Australia por l'Héritier, em 1788,

e por elle annunciado então ao mundo scientifico; e onze annos depois,

em 1799, achado por Labillardière, vinha o _Eucalyptus globulus_, «o

principe dos Eucalyptos», no dizer do Barão de Mueller, por sua vez

tambem principe no estudo d'este genero de plantas. Sempre terão de

recorrer aos seus preciosos trabalhos quantos em similhante cultura se

acharem interessados. Todavia, só do meado do seculo XIX em diante

começou a reconhecer-se a importancia do _Eucalypto_, comquanto «o

prolongado desprezo de arvores de tão maravilhoso valor pareça agora

quasi indizivel e enygmatico», segundo tambem, e com toda a justiça,

observa aquelle grande e illustre mestre.

Para nós, apesar de possuirmos nas collecções scientificas alguns

exemplares antigos, de 1850 ou pouco depois, o tempo da passagem do

_Eucalypto_ dos viveiros escolares para a cultura economica usual poderá

começar em 1870. É de 1870 a _Breve noticia sobre o Eucalypto globulus_

do illustre propagandista snr. Duarte de Oliveira, e de 1876 o

_Eucalyptus globulus_ de Carlos de Souza Pimentel. Essas publicações,

ainda hoje de considerar na grande maioria das suas observações, marcam

uma época, o inicio intelligente e fecundo d'esta cultura florestal.

A esse tempo, não havia virtude de que o _Eucalypto_ não commungasse.

Crescia rapidamente, multiplicaria milagrosamente a riqueza florestal em

proporções descommunaes, povoava os desertos, soffria toda a inclemencia

da atmosphera e do sólo, purificava os logares insalubres, livrava das

febres paludosas, dava madeira excellente para todos os fins, rebelde á

podridão, e distillava oleos, essencias e medicamentos preciosos. N'esta

fé se plantaram muitos _Eucalyptos_ pelas nossas provincias e por todo o

littoral do Mediterraneo. Plantaram-se bem e plantaram-se mal, onde

vingavam e onde morriam, n'uma variedade de condições infinita; e, por

isso, houve plantações que foram maravilha de prosperidade e opulencia,

e outras houve tambem que se tornaram exemplo tremendo de miseria e

ruina. Não podia deixar de haver de tudo isto n'uma experiencia feita em

tão larga escala, em grande parte filha de illusorias e arrebatadas

esperanças, mal consideradas, de todo alheias a uma sensata observação

das coisas, desde principio condemnadas a naufragio por violação de leis

impreteriveis da natureza.

Seguiu-se a reacção contra os impulsos da primeira hora. Os que haviam

sido infelizes se encarregaram de a proclamar, pondo á conta da

debilidade e insignificancia da arvore o que frequentemente era apenas a

consequencia da mingua de reflexão de quem precipitadamente a havia

plantado. Então, não houve defeito de que não se accusasse o

_Eucalypto_: não resistia nem ao sol, nem ao frio, nem á pobreza da

terra; onde crescesse, edificava um abrigo temeroso para os passaros que

devastavam as seáras; estragava os mattos e logo de começo ficava caro

pela despeza da plantação. A madeira não prestava para nada; estalava

por mil modos, torcia e rachava ao seccar, apodrecia depressa, quando

enterrada ou mesmo fóra da terra, e demais o córte das arvores

tornava-se dispendiosissimo em muitos casos pelo volume monstruoso que

ellas tinham attingido. Quanto a effeitos de saneamento, pura phantasia;

em vez de beneficios, o _Eucalypto_ importava calamidades. Não só onde

havia plantação de _Eucalyptos_ e as condições hygienicas haviam

melhorado, a melhoria provinha de outras causas; mas até acontecia que o

_Eucalypto_ era nocivo, creando na casca e na sombra humida viveiros de

mosquitos, e assim se convertendo indirectamente em agente disseminador

de febres palustres.

Tudo isto se dizia e se jurava.

Como, porém, havia plantações que tinham medrado e offereciam bons

córtes, entrou no debate um elemento novo e resolveu a questão; veio o

mercado e em termos do seu uso garantiu que os _Eucalyptos_ eram

excelentes. Comprando-os, pagando-os por um preço altamente remunerador,

dando-lhes variadissimo destino, decidia com todo o desrespeito pelas

academias e seus libelos, que os _Eucalyptos_ constituiam uma cultura,

pelo menos lucrativa. N'uma reacção contra a reacção, volta-se á

primeira fórma, e eis que aquella cultura começou a insinuar-se por

todos os cantos, entre as fagueiras esperanças dos que n'ella se

empenhavam e as liquidações vantajosas dos que, tendo ido á frente,

começavam a arrecadar os proventos, não raro avultados, da sua audacia.

A verdade será que nem o _Eucalypto_ tinha os poderes miraculosos de

resgate de esterilidade que o primitivo enthusiasmo de botanicos e de

iniciadores annunciou, nem tambem, e muito menos, era a nullidade

economica e o perturbador nocivo que o estouvamento e má sorte de alguns

cultivadores desastrados proclamava.

A madeira do _Eucalypto_ é magnifica, incontestavelmente, quando lhe

tivermos dado o tempo necessario para amadurecer capazmente. Cortaram-se

_Eucalyptos_ com 10 ou 12 annos e não deram madeira que prestasse. Não

podia prestar. Pois se essas arvores eram herva!... D'essa idade, que

consistencia podiam ter! Uma arvore, seja de que especie fôr, não

demanda menos de 30 ou 40 annos para criar cerne e endurecer. Se está

feita aos 25, e isso não raro acontece com o _Eucalypto_, já foi grande

fortuna.

Demais, para apreciação da madeira de _Eucalypto_, fomos buscar um

padrão subido, dos mais subidos. Comparamol-o com o carvalho. Por pouco

iriamos até ao mogno e ao pau santo. Não é d'isso que se trata; não se

pensa em trocar pelo _Eucalypto_ essas madeiras que formam uma

aristocracia; apenas se procura auxiliar e engrandecer as plebes

florestaes, associando-lhes plantas novas da sua igualha. É ao choupo,

ao amieiro, á nogueira, ao ulmeiro, á cerejeira, sobretudo ao pinheiro,

que temos de referir o valor do _Eucalypto_. Com estas e outras madeiras

da classe das communs a que estas pertencem, temos de o comparar, e

perante ellas achar-lhe-hemos uma superiosidade indiscutivel a todos os

respeitos--pela rapidez do desenvolvimento e pelo volume dos troncos,

pela duração, pela belleza, (em obra confunde-se facilmente com o

castanho), pela resistencia, pela elasticidade e pela faculdade, aliás

de summa importancia, de durar na agua mais do que qualquer outra das

nossas arvores. De que se trata é unicamente de plantar _Eucalyptos_

onde estavam pinheiros, e de tirar das margens dos nossos rios e das

areias dos seus campos um rendimento florestal superior ao que

actualmente d'alli podemos colher com as arvores que lá temos. Pela

minha parte, direi que não semearei mais um pinheiro onde possa plantar

um _Eucalypto_; todas as experiencias de comparação que n'este sentido

fiz durante 20 annos, e em terrenos, no geral, ruins, pedregosos, frios

e magros, me auctorisam sem discrepancia esta conclusão.

Muitas são as vantagens do _Eucalypto_, mas entre todas avulta a

facilidade e vigor com que rebenta dos troncos cortados. O mesmo terreno

dá dois e tres córtes de madeira, sem necessidade de renovar a plantação

ou sequer, a cultura, e advertindo--circumstancia devéras apreciavel e

que muitos ignoram--que as segundas camadas, sem duvida porque a

robustez do raizame e a condição das seivas lh'o facultam, criam cerne

immediatamente, ao contrario do que é a regra com a primeira haste,

prompta em crescer, mas lenta em amadurecer. Assim, nas segundas

camadas, as varas delgadas, de seis ou oito annos não dão ordinariamente

mais de 25 por cento de cerne. O Barão de Mueller diz que a renovação do

_Eucalypto_ pelos rebentos das hastes cortadas é sobretudo propria de

arvores não muito antigas e não se opera com igual força e promptidão

nas differentes especies. Entre os mais faceis em rebentar, menciona o

_E. globulus_ e o _E. amygdalina_, e acha o _E. rostrata_ dos menos

inclinados a este modo de renovação. Mas nas minhas plantações,

provavelmente por serem recentes, todas as especies téem rebentado

admiravelmente. Foram rarissimos os _Eucalyptos_ que não rebentaram

depois de cortados, e n'esses as baixas mostram ser accidentaes, questão

de condição individual e não commum á especie que n'outros exemplares

provou a sua faculdade de renovação.

Como combustivel, as analyses do snr. C. Lepierre, publicadas pelo snr.

W. C. Tait, em 1915, mostram que a lenha de _Eucalypto_ dá 4:353

calorias onde a lenha do pinheiro não passa de 3:200--isto é, a lenha do

_Eucalypto_ tem um terço a mais do poder calorifero da lenha de

pinheiro; e póde mesmo substituir o carvão, valendo um kilo de lenha de

_Eucalypto_ por 550 grammas de hulha. De modo que, para este effeito,

quando, por exemplo, uma tonelada de pinheiro custar 12 escudos, a de

_Eucalypto_ deve valer 16. E, se considerarmos que a mesma superficie

plantada de _Eucalyptos_ ou semeiada de pinheiros dá no primeiro caso um

volume de madeira que é tres ou quatro vezes, pelo menos, aquelle que

póde produzir na segunda hypothese, por ahi se calculará quanto vale a

substituição do pinheiro pelo _Eucalypto_, ainda que não seja senão para

criar lenha.

Secarão os _Eucalyptos_ as fontes, segundo muitos crêem? Desconfio.

Ganharam essa fama e provavelmente continuarão a soffrel-a, se os que

téem minas e canalisações debaixo das raizes dos _Eucalyptos_ não as

limparem assiduamente. As raizes dos _Eucalyptos_, no seu rapido

desenvolvimento, depressa obstruirão completamente essas minas e

canalisações, transviando-lhes e sumindo-lhes as aguas. Se, porém,

houver os necessarios cuidados de limpeza, creio que tal não acontecerá,

pois sobre este quesito posso dar testemunho de que, tendo ha quarenta

annos um macisso colossal de _Eucalyptos_ sobre uma nascente, nunca esta

deu signal de enfraquecimento. É hoje o que sempre foi.

Dão abrigo aos passaros--evidentemente, como todo o arvoredo. Se isso

houvesse de ser motivo de depreciação do _Eucalypto_, importaria a

condemnação de todas as florestas. O que faltou dizer, quando se aduziu

semelhante prejuizo do _Eucalypto_, é se essas aves que elles abrigam

não valem bem o que pastam nos campos e se sem ellas não corre grave

risco a nossa saude e o nosso sustento, pela invasão de uma fauna bem

mais destruidora do que as aves, e da qual as aves são inimigos

infatigaveis e mortaes. Isto reduzindo a questão a termos meramente

economicos, porque, se a apreciassemos por considerações moraes e

estheticas, não podia subsistir um instante. A belleza, o conforto e a

protecção do arvoredo de qualquer especie serão eternamente um regalo

dos sentidos incomparavel e um mysterioso mas efficaz elixir de paz de

espirito.

Mas os _Eucalyptos_ dão cabo dos mattos, ou melhor, do tojo. É este um

dos artigos mais repetidos da excommunhão dos _Eucalyptos_.

Sobre isso, não haja duvida. É muito certo. O _Eucalypto_ é absorvente,

onde se planta, logo se apossa absolutamente da terra, como

inevitavelmente, sempre terá de acontecer com toda a especie vegetal de

natureza opulenta. O _Eucalypto_ reclama tudo para si; necessidades

formidaveis de sustentação assim o determinam. Que eu saiba, apenas as

acacias, as hakeas e os sobreiros lhe supportam a vizinhança e apezar

d'ella se mantéem e medram. O que resta saber e aqui constitue todo o

problema, é se vale a pena conservar o matto onde podemos crear

_Eucalyptos_. Ora, um hectare com 1:000 _Eucalyptos_ dará, ao fim de 25

annos, 5 contos, calculando cada _Eucalypto_ a 5 escudos, preço modesto.

Serão 200 escudos por anno. E quantas carradas de matto seriam

necessarias para que esse hectare produzisse rendimento semelhante?

Haverá mesmo algum pedaço de matto em Portugal dando rendimento que com

aquella cifra se compare?

O lavrador corre a affirmar que não póde dispensar os mattos para adubo

dos campos. Mas suspeito de que haverá agronomos que discordem,

respondendo que semelhante processo de adubação é tão antiquado como

pobre. As adubações em verde, com a sua riqueza de azote, barateza de

applicação e mais vantagens scientificamente demonstradas, e os adubos

mineraes, de uma efficacia admiravel e de uma commodidade de transporte

unica, vão deixando para um derradeiro e pesado recurso as adubações

pelo tojo, de proveito minguado e lento e preparação dispendiosa,

reclamando uma somma de trabalho que não está em proporção da riqueza

fertillisante do adubo, seriamente estorvada por difficuldades de

decomposição desanimadoras. Não, não será o tojo que economicamente

possa medir-se com o _Eucalypto_.

Dar-se-ha, porém, o abstruso caso da insalubridade das mattas de

_Eucalypto_, por propicias á propagação dos mosquitos? Abrirão ellas uma

excepção na velha e incontestada crença pupular de que as arvores são

beneficas para a saude de quem entre ellas habita?

Sobre esse ponto atrevo-me a ter opinião propria, com toda a arrogancia

do incompetente que não é medico nem homem de sciencia.

O Barão de Mueller falla do «grande poder de exhalação» que os

_Eucalyptos_ possuem, e na minha intimidade com essas arvores

casualmente vi demonstrada essa assombrosa capacidade de exhalação. Puz

flôres em diversos vasos de vidro, d'estes vulgarmente chamados

«solitarios», e entre elles ficou um contendo unicamente ramos e flôres

do _Eucalyptus gracilis_. Passadas vinte e quatro horas, vi quasi sem

agua o vaso do _Eucalypto_, emquanto os outros a conservavam

aproximadamente na altura em que na vespera a deixára, o que aliás era

de esperar passando-se isto em dezembro, mez em que a evaporação é

frouxissima. Enchi de novo o vaso no qual a agua baixára e, passadas as

segundas vinte e quatro horas, de novo a agua desapparecêra, como da

primeira vez. Seguidamente, repeti a experiencia e o resultado foi

invariavelmente o mesmo. Percebi então o que era o extraordinario «poder

de exhalação» do Eucalypto.

Ora, sendo assim com os ramos cortados, cuja vitalidade necessariamente

terá abrandado pelo córte, pergunto que especie de atmosphera será a que

cobre uma floresta de _Eucalyptos_ e a sua visinhança immediata, e não

posso deixar de suspeitar que essa atmosphera será permanentemente

moderada por uma evaporação que tanto ha-de quebrar a violencia do calor

no estio, como o rigor do frio no inverno. Será um manto precioso para a

actividade do corpo e uma fonte continua de suavidade para os sentidos.

Se isso não é salutar, não sei o que o seja nem o que deva buscar para

ter saude.

Quanto aos effeitos therapeuticos das essencias derivadas do

_Eucalypto_, especialmente das folhas e dos seus oleos, respondem os

formularios pharmaceuticos e o uso medico actual. Mas convem lembrar que

esse será um rendimento secundario, apenas subsidiario, nas plantações

de _Eucalyptos_ em larga escala.

Para preencher os pedidos da pharmacia, bastará uma quantidade de

arvores muito reduzida. Por ahi o lavrador não enriquece, e nem sequer

achará mercado sufficiente, se tem muitas arvores para vender.

E, porventura, o mesmo se poderá dizer do _Eucalypto_ como pasto das

abelhas. Sem duvida, não haverá melhor planta para este fim; a profusão

de flôres em cada especie e a diversidade de época em que as differentes

especies florescem, facultam sustento ás abelhas na maior parte do anno,

senão mesmo durante todos os mezes do anno. Sobretudo o _Eucalyptus

cosmophylla_ torna-se notavel sob este aspecto; vingando bem em terras

nossas, floresce no principio do inverno, quando a escassez de flôres

nos montes é extrema.

Não tenho elementos para conjecturar até que ponto será remuneradora a

cultura do _Eucalypto_ como planta melifera. Parece-me, todavia, que

alguma cousa ha ainda a experimentar e estudar n'este capitulo,

particularmente com a especie que acabo de apontar.

II

Cultura do Eucalypto

A cultura do _Eucalypto_ tornou-se facilima e corrente entre nós. Hoje,

o _Eucalypto_ vende-se nas feiras á duzia e ao cento como as couves,

enterra-se depois pelo meio dos mattos em covachos abertos a esmo, e

n'esta barbarie, com estes cuidados elementares por demais resumidos,

vinga, se o terreno lhe agrada e a humidade atmospherica o favorece, ou

se não sobrevêm dois ou tres dias de nordeste que o mirram. Assim se

téem criado arvores magnificas.

Sempre aconselharei, porém, mais algum esmero a quem quizér proceder com

segurança ou com minguado risco de perder o tempo e o dinheiro.

De quantos processos de cultura experimentei, e creio ter percorrido a

escala toda ou pouco menos, o que decididamente offerece mais

probabilidades de exito começa pela sementeira em vasos ou caixões,

seguida da transplantação de cada pé para seu vaso privativo--sementeira

em abril ou ainda mesmo na primeira quinzena de maio; transplantação

para vasos de 8 e 10 centimetros de bocca e altura correspondente,

quando as plantas estão de 3 a 4 centimetros; plantação definitiva, logo

no começo do outomno, de exemplares não muito grandes, de cerca de

palmo, tirados dos vasos antes que as raizes comecem a enrodilhar-se,

como sempre acontece se se prolonga a estação nos vasos,

determinando-lhes aquella fórma de desenvolvimento em espiral que

ulteriormente conservam e as prende mal á terra, sujeitando a arvore a

cahir quando o temporal a açoite. As transplantações para vasos deverão

fazer-se pela fresca, de manhã cedo ou á tardinha, onde o sol não toque

a raiz; a simples exposição da raiz a uma atmosphera secca e quente, por

poucos minutos que seja, bastará para inutilisar alguns pés e atrazar

nos demais a renovação do crescimento interrompido pela transplantação.

Deverão os vasos ser postos á sombra, durante quinze dias, e quer então,

quer posteriormente, depois de passados para o sol, convém regal-os

abundantemente duas vezes por dia, de manhã e á tarde. Em outubro e

d'ahi por diante até aos primeiros dias de março, abrindo apenas um

parenthesis durante o tempo das geadas mais rigorosas, poderá

proceder-se á plantação definitiva. Para esta, será grande vantagem

cavar ou lavrar primeiro a eito o terreno da plantação, abrindo depois

de tres em tres metros covas de tres palmos em toda a direcção e tendo o

cuidado de picar bem fundo o leito da cova. Bem sei que se encontram

bellissimos _Eucalyptos_ plantados em covas sem arroteamento prévio de

toda a terra, e não é cousa que eu não tenha feito e repetido, algumas

vezes com resultado; mas para mim não soffrem duvidas as vantagens

incalculaveis do arroteamento prévio. É miraculoso.

A sementeira em viveiros e a plantação definitiva immediata é o processo

vulgar, o mais usado, ficando contente o lavrador quando achou e comprou

exemplares bem desenvolvidos, frequentemente de um metro de altura e

mesmo mais. Mas, a não ser em terrenos cultivados e muito frescos, ainda

não observei factos que me demonstrem a vantagem de semelhante regra.

Não só por este systema as probabilidades de vingar serão largamente

reduzidas porque na transplantação se inutilisaram as raizes mais

delicadas; simultaneamente e tambem por effeito da perda d'essas raizes,

os _Eucalyptos_ grandes levarão tanto tempo a pegar que os pequenos, não

havendo soffrido igual perda e trazendo intacto do viveiro todo o

raizame, depressa alcançam e ultrapassam os que foram plantados já

grandes.

Sementeiras de outomno nunca me deram boa prova. Não vingam tão

facilmente como as da primavera e prolongam inutilmente, e até

prejudicialmente, o tempo de viveiro; não crescem tanto que estejam em

termos de plantação definitiva na primavera immediata á sementeira, e

ficarão demasiado desenvolvidas para plantação ao fim de um anno, no

outomno seguinte depois da sementeira.

A melhor época para colher a semente é o fim do inverno, quando as

capsulas só esperam o calor de março para expontaneamente se abrir e

lançar á terra a semente. Antes d'isso, as capsulas murcham muito,

quando se colhem, e téem certa difficuldade em largar a semente, o que

indicará talvez um amadurecimento imperfeito. Segundo o Barão de

Mueller, a semente do _Eucalyptus globulus_ conservaria durante 4 annos

o poder germinativo que no _Eucalyptus amygdalina_ vai até 6 annos e

n'outras especies alcança mesmo 13 annos, se a semente foi conservada em

logar secco e frio. Mas tenho-me dado mal com sementes velhas; em regra,

poucas nasceram. Por isso, direi:--Semente fresca, o mais possivel, de

poucas semanas, e até de poucos dias, podendo ser. Vai n'isso uma

vantagem manifesta.

Exceptuando as argilas e os calcareos, todo o terreno convém ao

_Eucalypto_, comtanto que não seja fundado em rocha a pequena

profundidade e dê ás raizes possibilidade de penetração. Tenho lido que

o _Eucalyptus gomphocephala_ e o _cornuta_ supportam os barros e os

calcareos; não vi, porém, ainda demonstração prática d'essa faculdade

auctorisando qualquer experiencia de certa latitude. O livrinho de Souza

Pimentel diz que o _Eucalypto_ viverá onde o sobreiro viver, e

inclino-me a crêr que essa indicação será, em geral, segura. O certo é

que o _Eucalypto_ é facil de contentar quanto a terreno e capaz de

vestir e enriquecer os mais ingratos, desde os seixos frios das

charnecas até as areias mais safaras.

Outro tanto não se poderá dizer das exigencias do _Eucalypto_ em materia

de clima. Na Australia supporta temperaturas de 70° centigrados ao sol e

algumas especies ha, como o _Eucalyptus largiflorens_ e o _polyanthema_,

que affrontam impunemente as nossas estiagens mais duras. Mas

desenganemo-nos, tanto mais que os enganos poderão sahir caros ao

lavrador, como aconteceu na Argelia; o _Eucalypto_ é arvore de climas

moderados, alegra-se na frescura e soffre deveras com o frio. Em

temperaturas inferiores a 4° centigradus abaixo de zero, dá logo signais

de doença, e nas especies mais melindrosas gela até ao colo da raiz,

mesmo quando já está com alguns metros de altura. Isto me aconteceu, por

exemplo, com o _Eucalyptus maculata_; perdi n'um só inverno quantos

tinha, já muito crescidos e lindos.

Sobretudo, acabemos por uma vez com a illusão de que os _Eucalyptos_

podem formar abrigos contra o vento do mar. Tenhamos bem presente a

preciosa recommendação de Souza Pimentel, que, sendo de 1876, ainda hoje

carece de ser repetida, tão lenta é a diffusão dos conhecimentos

agricolas:--«Apezar do clima maritimo ser muito favoravel para os

_Eucalyptos_, não devemos fazer plantações d'esta arvore em sitios muito

proximos do mar e que estejam directamente expostos ás emanações

salgadiças e aos ventos muito violentos do littoral; ou então

procederemos de modo que as plantas fiquem abrigadas por alguma elevação

natural, ou outra qualquer defeza, o que é facil encontrar.» Quererá o

_Eucalypto_ sentir o alento das aguas do mar, mas onde lhe chegue isento

de toda a aspereza que é caracteristica da nossa costa maritima.

Sem embargo, a grande zona do _Eucalypto_, em Portugal, aquella que

admitte largo numero de especies e lhes assegura condições de

desenvolvimento perfeito, será essa que as brumas maritimas de perto ou

de longe e em toda a estação bafejam. O fallecido e benemerito

Bernardino Barros Gomes, nas _Cartas elementares de Portugal_ que, a meu

vêr, continuam sendo um documento fundamental no estudo da physiographia

do nosso paiz, acha a linha culminante que domina a vida physica do paiz

na extensissima cordilheira que com depressões de variada profundeza vai

subindo lentamente do Cabo da Roca á Estrella, pelas serras de Cintra,

Aire e Louzã, e da Estrella vai a Larouco, na fronteira da Galliza,

pelas serras de Montemuro, Marão e Gerez. «Linha seguida de condensação

mais extensa e elevada não ha no paiz: 1:580, 1:206, 1:422, 1:389 1:993

e 1:202 são as alturas dos seus pontos culminantes, marcados na carta

geographica com os nomes de Larouco, Gerez, Marão, Montemuro, Estrella e

Louzã.» São essas as muralhas que os ventos do mar téem a vencer na

passagem para o interior da Peninsula, e por sua poderosa influencia de

condensação essas serras dividem o paiz ao norte do Tejo em duas grandes

zonas--littoral e interna.

Ora, é esta zona littoral ao norte do Tejo que eu julgo ser a grande

zona da cultura do _Eucalypto_ em Portugal--na faixa média, isto é, a

distancia sufficiente do mar, para não soffrer com o rigor da ventania,

e limitando-se na subida ás alturas, para não morrer victima dos gelos,

devendo todavia notar que a 600 metros de altitude tenho encontrado

lindos exemplares do _Eucalyptus globulus_ e que, se o _Eucalyptus

globulus_ prospera n'essas alturas, é de suppôr que o _Eucalyptus

amygdalina_, o _coriacea_ e o _Gunnii_ consentirão em crescer nos nossos

montes a 700 ou mesmo 800 metros de altitude, se ahi lhes soubermos

escolher situação. Fóra d'essa extensissima região litoral do norte do

paiz, quer no sul, quer no interior do norte, haverá, sem duvida,

muitissimos logares onde o _Eucalypto_ medre rapida e magestosamente,

sobretudo nos valles e na proximidade de ribeiros que alguma frescura

lhe facultem. Mas, pois que não é licito contar aqui como regra a

abundante e permanente humidade da zona norte que tracei, a cultura do

_Eucalypto_ passa a ser como accidental, o que aliás não impede de

apresentar muitas e valiosas manchas de explendor, igualando as melhores

da zona eleita.

III

Póda dos Eucalyptos

Algum tempo, e muito longo, tive como regra invariavel que os

_Eucalyptos_ não careciam de póda. Mais do que isso, a póda era-lhes

nociva. Isto me diziam os melhores livros que se occupavam da sua

cultura; isto me era confirmado pelo que observava nas minhas plantações

e nas dos visinhos; e isto tambem me era aconselhado pelo exame das

proprias arvores que, despojando-se expontaneamente dos ramos caducos,

d'aquelles cuja acção havia cessado, estavam em seu trabalho organico a

mostrar-nos a indiscrição de qualquer intervenção, que por certo nunca

poderia exceder, ou sequer emparelhar, a sua natural previdencia. Ellas,

as arvores, é que sabiam, muito melhor do que nós, quando é que lhes

convinha desfazer-se das roupas velhas.

As minhas observações então limitavam-se, porém, a uma só especie de

_Eucalyptos_, ao _globulus_. E para esse e para todos os afins no modo

de vegetar, isto é, para aquelles que crescem em haste direita e se

despojam expontaneamente dos ramos velhos, a regra prevalece:--não se

lhes deve tocar. A não ser, claro está, para cortar algum ramo muito

baixo que por acaso persista e se desenvolva, encurtando mais tarde o

comprimento das madeiras ou empecendo, no presente, o caminho ou

passagem. E esta ultima hypothese não é rara nos _Eucalyptos_ plantados

isoladamente, em condições de bracejar com largueza, a seu capricho.

Nas especies que não dão expontaneamente haste direita, e n'este numero

se tornam notaveis e predominantes o _polyanthema_, o _melliodora_, o

_Behriana_ e o _bicolor_ ou _largiflorens_, n'estas, se não lhes

acudimos a tempo encaminhando-as pelo córte dos ramos rasteiros, teremos

todas as probabilidades de as vêr convertidas em grandes arbustos,

pendidos, tortos e curvados por mil modos, sem dois palmos de madeira

direita aproveitavel. Ahi, a póda é essencial e tem sua arte, reclamando

a attenção de quem a faz, para que não seja tardia, nem excessiva, para

que não deixe engrossar demasiado os ramos e tambem para que por excesso

de póda não adelgace muito a haste e lhe prejudique a robustez.

Mas ha mais: em certos casos, e mesmo para _Eucalyptos_ que naturalmente

crescem em haste direita, poderá haver vantagem no córte das pontas

terminaes a quatro ou cinco metros do chão. Em Roma, encontrei

frequentemente _Eucalyptus rostrata_, assim degolados, com troncos

magnificos na base e bem vestidos de frondosos braços no cimo. E aqui,

nas minhas plantações, aconteceu que, havendo sido cortadas (por

malvadez) as pontas de oito _Eucalyptus macrorrynchas_, crearam outras

que soldaram perfeitamente no tronco, e este engrossou bem, e até mais

do que o dos _Eucalyptos_ da mesma especie que estavam proximos e foram

poupados pelo vandalismo.

Por isso me inclino a crêr que, n'esta materia, a regra é, na verdade,

não podar; mas tem muitas excepções, a que convém attender. E não me

tenho dado mal, muito pelo contrario, admittindo-as no meu uso.

A proposito, acrescentarei que o _Eucalypto_ que comece a crescer

inclinado, seja de que especie fôr, não só d'aquellas que acima aponto

como tendo invariavelmente esta tendencia, mas tambem de outras que

accidentalmente a revelam, como, por exemplo, o _Gunnii_ e o

_Stuartiana_, _Eucalypto_ que assim cresça deve ser cortado a meio palmo

do chão, logo que o tronco chegue a robustez bastante, de ordinario no

quarto ou quinto anno. É o unico modo de obter boas hastes d'essa cêpa;

véem depressa, direitas e vigorosas. Algumas tenho que subiram mais de

dois metros logo no primeiro anno depois do córte. E, se considerarmos

que os rebentos são mais promptos em crear cerne do que as mães,

convencer-nos-hemos de que similhante operação é de todo o ponto

vantajosa. Muitas vezes a tenho feito e nunca me arrependi.

IV

Escolha das variedades

Evidentemente, em mais de oitenta especies e variedades de _Eucalyptos_

que tenho experimentado, o _globulus_ mantém o seu logar de primazia,

quanto á rapidez de desenvolvimento. Quem procurar o volume maximo de

madeira a crear em determinado tempo e espaço, não tem que hesitar:

plante o _globulus_. E, se nos lembrarmos de que a sua madeira é

excellente, propria para innumeraveis applicações, teremos por seguro e

certo que, quem assim resolver, procede com as maiores probabilidades de

haver feito um magnifico negocio, rendoso como os melhores.

Mas, se o _Eucalyptus globulus_ conta a seu favor a vantagem do mais

rapido desenvolvimento, outras especies o preterem, quanto á resistencia

a doenças parasitarias, e quanto a belleza e quanto á capacidade de

supportar as vicissitudes climatericas e a pobreza do sólo, e quanto á

qualidade da madeira.

Não ha plantação de _Eucalyptus globulus_ que se mostre viçosa por

igual. Aqui e além apparecem sempre exemplares rachiticos, e tenho para

mim que esses, em geral, definham por doenças cryptogamicas, sobretudo

se a exposição é ao norte e batida do vento d'esse lado. O _Eucalyptus_

_Risdoni_ partilha com o _globulus_ d'essa susceptibilidade; adoece

tambem muito facilmente. Mas, exceptuando este, julgo que, em grande

maioria, as outras especies de _Eucalyptos_ são, em geral, muito menos

sensiveis ás invasões cryptogamicas do que o _Eucalyptus globulus_.

Quanto a belleza, se queremos formar avenidas copadas, ou vestir de

folhagem abundante um pedaço de terra, se procuramos sombra e frescura,

o _Eucalyptus botryoides_, aliás facil de contentar em riqueza do sólo e

favor do clima, excede todos os demais. Em seguida, para este effeito,

virá o _Eucalyptus Andreana_, uma especie de chorão, de folhas delgadas,

um pouco esguio, na verdade, mas lindo, sem embargo, principalmente

quando se cobre de flôr. Por ventura o _Eucalyptus virgata_, ou

_Sieberiana_, segundo outra classificação, tem de ser incluido n'esta

cathegoria. Ramifica copiosamente. Mas os exemplares que possuo estão

ainda muito novos para que me auctorizem juizo definitivo. É possivel

que com a idade se tornem mais despidos.

Para os terrenos humidos e frios, a solução não offerece duvida. O

_Eucalyptus amygdalina_, o _coriacea_ e o _Gunnii_ téem de ser os

redemptores d'esses brejos miseraveis das nossas florestas, assim como

nos terrenos sêccos o _Eucalyptus polyanthema_, o _melliodora_, o

_bicolor_ ou _largiflorens_ (são synonimos) e o _Behriana_ e o

_hemiphloia_--de crescimento lento, note-se--excedem em coragem para

supportar a estiagem todos os demais. Sobretudo, o _Eucalyptus

polyanthema_, quando plantado basto e bem guiado, porque facilmente

entorta e deixa engrossar os ramos rasteiros com prejuizo da haste

principal--é muito de cultivar, tanto mais que a madeira é rija como

ferro. O _Eucalyptus melliodora_ cresce mais depressa e dá troncos mais

direitos; mas pelo que tenho visto e lido, supponho que a madeira,

embora boa seja, é inferior à do _polyanthema_.

Pela qualidade da madeira é que muitos _Eucalyptus_ se antepõem ao

_globulus_, coincidindo a superioridade da madeira com uma celeridade de

desenvolvimento e aptidões de cultura inteiramente satisfatorias e mesmo

comparaveis ás d'aquelle gigante das nossas florestas. Aqui seria longa

a lista das especies de _Eucalyptos_ do meu conhecimento e experiencia

que convém preferir ao _globulus_, embora este jámais deixe de ser

excellente. Outros o vencem, é incontestavel: e para abreviar, mesmo

porque ha vantagem prática em abreviar e não dispersar o nosso esforço

em incertezas e caprichos, eu recommendaria, a quem quizesse produzir

madeiras de excepcional valor, todos os _Iron-bark_ (casca de ferro),

como é, por exemplo, o _crebra_, de que facilmente conseguiremos bons

exemplares, e poria na cabeça do ról o _Eucalyptus corynocalyx_ ou

_cladocalyx_, que não torce depois de sêcco, o _marginata_, de uma

dureza maravilhosa, e ainda o _resinifera_ que não dispensa logar

favoravel; mas que, cemo o _crebra_, não é tão esquivo que não vegete

bem em muitissimos valles e encostas do nosso paiz e possa formar

florestas esplendidas.

V

Do córte dos Eucalyptos

Sobre o córte dos _Eucalyptos_, a _Eucalyptographia_ do Barão de Mueller

reproduz as recommendações de George Simpson, o qual, na opinião de

Mueller, «falla em resultado d'uma longa experiencia e com auctoridade»;

e porque essas recommendações se me afiguram de uma importancia capital,

aqui as reproduzo.

Dizem assim:

«Por causa da sua densidade, a madeira do _Eucalypto_ não póde seccar

nos cêpos; troncos de 12 pés de comprimento por 12 polegadas de

espessura, deixados durante 7 annos no logar onde foram cortados,

empenaram, quando depois foram serrados em pranchões, quasi tanto como

se houvessem sido cortados recentemente. D'aqui vem que a exposição dos

cêpos a influencias proprias a effectuar a séca alcança apenas a parte

externa e com prejuizo, pelo menos, d'essas camadas que attinge. Por

isso, G. Simpson insiste, com razão, na conveniencia de serrar os

troncos nas dimensões que se quizerem, logo que são derrubados. A

madeira serrada deve depois ser empilhada, e, para obstar a que se fenda

e torça, convem cobril-a levemente com serradura, sendo esta substancia

a mais facil de obter e applicar para evitar uma evaporação demasiado

rapida da humidade da madeira. A serradura é um mau conductor do calor.

A madeira do _Eucalypto_ (pelo menos do _Jarrah_, _Eucalyptus

marginata_) requer para seccar por este processo cerca de 3 mezes, se é

feita em pranchões de 3X2 polegadas; para pranchões de 12X12 polegadas

demandará, aproximadamente, um anno. Quanto á occasião do córte, o snr.

Simpson está de accôrdo com todos os observadores sensatos, insistindo

em que as arvores devem ser cortadas quando o movimento da seiva é menos

activo; por conseguinte, ahi pelo fim do estio, antes que as chuvas

pesadas dos mezes mais frios venham despertar uma circulação mais

vigorosa da seiva. Mais nota ainda G. Simpson que os ramos de

_Eucalyptos_, quando cortados na estação humida, fendem muito mais do

que quando o córte se faz nas épocas mais sêccas do anno. Deve haver

tambem muito cuidado em livrar as arvores de grande abalo ao cair. De

outra fórma, a madeira apresentará defeitos, embora algumas vezes estes

só se revelem muito tempo depois de a empregarmos. Poder-se-ha evitar

muito esmagamento inclinando a quéda para onde haja ramada e afastando-a

dos terrenos pedregosos e das rochas.»

VI

Eucalyptos hybridos

Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de _Eucalyptos_ com maior

assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre

exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles

tinha nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração

manifesta do typo especifico. A principio julguei que essas

divergencias, então raras, proviessem de menos cuidado no apartamento

das sementes; seriam resultado de qualquer mistura casual. Mas, havendo

plantado algumas dezenas de especies n'um espaço relativamente estreito,

verifiquei, á medida que comecei a colher sementes das arvores por mim

plantadas, a progressiva frequencia dos exemplares extravagentes, e tive

por indubitavel a hybridação. Até que, ultimamente, me veio ás mãos a

obra do illustre botanico e professor Maiden, _A Critical Revision of

the genus Eucalyptus_; e ahi vi o facto da hybridação dos _Eucalyptos_

confirmado por uma das mais subidas auctoridades contemporaneas em

materia de flora australiana.

Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos _Eucalyptos_,

e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas observações, o

_Eucalyptus Boormanii_ é um hybrido do _siderophloia_ e do _hemiphloia_;

o _affinis_ vem do cruzamento do _sideroxylon_ e do _hemiphloia_ e o

_consideneana_ será talvez um hybrido do _piperita_ e do _Sieberiana_.

Nas minhas sementeiras, os _Eucalyptos_ que se mostraram mais facilmente

susceptiveis de cruzamento foram o _Gunnii_ e o _leucoxylon_. De quinze

exemplares provenientes de uma sementeira d'este ultimo, não havia

talvez dois perfeitamente iguaes. O _robusta_, o _botryoides_ e mais

acentuadamente o _Stuartiana_ tambem não eram dos mais esquivos em

apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se por hybridação, se

por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra de duvida para

grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha outras que

não variam. Do _globulus_ nunca encontrei um só hybrido. No _amygdalina_

são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira que produziu

mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se conformava

inteiramente com o typo commum.

Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em

que se manifesta, convém saber se d'ella poderemos tirar proveito

economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras

curiosidades da cultura florestal.

N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma

indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de

_Eucalyptos_ agrupadas na designação vulgar sob o nome de _box-trees_

(arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o _melliodora_, o

_polyanthema_, o _largiflorens_ e outros, mostram «uma particular

tendencia para cruzar com aquellas outras especies chamadas _iron-barks_

(casca de ferro) das quaes o _crebra_ é muito nosso conhecido e a todos

os respeitos justamente famoso.

Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney

porventura envolverá para nós uma indicação preciosa. O _polyanthema_,

um _box-tree_, é muito provavelmente o _Eucalypto_ que entre nós melhor

supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos

invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o

_crebra_, um _iron-bark_, mais sensivel ás vicissitudes climatericas,

prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando sem maior

mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos

manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente.

Seria possivel pelo cruzamento do _polyanthema_ e do _crebra_ obter

hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do

_polyanthema_ lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E

o _Gunnii_ tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas

frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos,

trazendo á sua madeira qualidades superiores a essas, devéras

aproveitaveis, que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como

magnifica é para lenha?

A experiencia é tentadora para os lavradores moços e confiados que

queiram juntar a uma justa ambição de lucros uma intelligente applicação

dos seus ocios e um sympathico esforço para legar aos filhos e aos

filhos dos seus filhos uma riqueza nacional.

Todavia, convém notar que as experiencias d'esta natureza mais pertencem

ao Estado e ás suas estações do que aos particulares e ás suas minguadas

forças. Experiencias florestaes demandam longos annos e extensos campos;

nem podem fazer-se em pouco espaço, nem pódem concluir em pouco tempo,

como acontece com as hervas e ainda com os arbustos. Tenho _Eucalyptos_

com dezeseis annos de que ainda não colhi semente; tenho, por exemplo,

um _urnigera_, já feito e com não menos de doze annos, magnifico e

bello, que ainda não deu flôr. O que, devo acrescentar, não me desanima;

antes me prende. Quanto mais os fructos tardarem, mais se alongará a

esperança e os seus cuidados e prazeres. Tal qual como com os nossos

filhos: quanto mais crescidos são e mais trabalhos deram, mais os

amamos.

VII

A côrte dos gigantes

Para corrigir a nudez habitual das mattas de _Eucalyptos_, de ordinario

esqueleticas, apezar da robustez dos troncos, para lhes dar espessura,

misturei-lhes em diversos logares grande cópia de _Acacias_, espalhadas

a trôxe-moche, muito bastas e de variadissimas especies. Verifico,

porém, ao fim de alguns annos, que se tornou uma exploração economica

rendosa aquillo que havia sido feito por méra preoccupação de

belleza. Plantando os _Eucalyptos_ a tres metros de distancia e

intercalando-lhes, em igual compasso, as _Acacias_, mais conhecidas pela

designação popular de _mimosas_, conseguiremos vestir a terra,

abundantemente, de folhagem e flôres, e conjunctamente fabricaremos

alguma lenha e madeira nos espaços livres nos primeiros tempos, emquanto

os _Eucalyptos_ pelo seu desenvolvimento não os tomam e cobrem

inteiramente.

Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias · 第 1 / 5 段