fructificação_ que têem por fim manter na oliveira a fórma regular,
provocando-lhe e regularisando-lhe ao mesmo tempo a producção.
Esta operação requer da parte do operador conhecimentos especiaes sobre
o modo de vida da planta.
É a physiologia vegetal que nos fornece esses elementos e, embora os
nossos operarios não estejam habilitados a deduzir d'esta sciencia as
bases em que hão de firmar-se para a execução d'esta operação, póde,
tendo presentes as regras d'ellas tiradas, effectuar a poda com methodo.
Essas regras são as seguintes.
1.ª--As flores, e portanto os fructos d'um dado anno, desenvolvem-se
sempre sobre os lançamentos do anno anterior e nunca sobre os
lançamentos d'esse mesmo anno;
2.ª--Só florescem e fructificam os ramos que estiverem durante a maior
parte do dia expostos á influencia solar;
3.ª--É sobre os ramos horisontaes ou pendentes que se desenvolvem os
melhores e mais abundantes fructos;
4.ª--Se uma oliveira muito carregada de ramos produz muitos fructos
estes ficam pequenos, pouco rendosos em azeite e a colheita é biennal:
5.ª--Nem todas as variedades de oliveiras devem ser podadas do mesmo modo;
6.ª--A fructificação d'uma oliveira varia com o terreno e exposição, por
isso a poda deverá variar com estes factores;
7.ª--Devemos evitar o mais possivel os córtes de ramos grossos.
Pela primeira regra se vê que nunca devemos tirar á arvore grande
quantidade de raminhos, porque isso irá prejudicar muito a producção do
anno seguinte.
O segundo principio diz-nos que a arvore deve ter sempre os seus ramos
bem distribuidos e nunca deve estar demasiadamente carregada d'elles,
por que a sua folhagem compacta impede que os raios solares penetrem bem
por entre elles, ficando a formação do fructo limitada simplesmente aos
pontos em que esses raios podem, sem obstaculo, exercer a sua influencia.
Um principio de physiologia vegetal, citado por Foëx, diz que a
quantidade de seiva que passa n'um ramo é tanto maior quanto mais
proximo elle estiver da vertical. Diz o mesmo auctor, n'um outro
principio, que a vegetação de toda a planta ou ramo é complementar.
Estes dois principios vêm provar a segunda regra annunciada para a
pratica da poda.
Effectivamente, se a vegetação d'uma planta ou ramo é complementar, isto
é, se quanto maior fôr a vegetação d'essa planta ou ramo, menor será a
sua producção em fructo, os ramos verticaes pela grande vegetação de que
dispõem serão menos productivos do que os affastados d'aquella posição.
Firmados n'esta terceira regra devemos destruir pela poda, os ramos
verticaes de preferencia aos horisontaes ou pendentes.
Da quarta regra deprehende-se a necessidade de nunca deixar a arvore
demasiadamente carregada de ramos fructiferos, a fim de que ella não
tenha que alimentar, ao mesmo tempo, uma demasiada quantidade de
fructos, o que lhe acarretaria um exgotamento de que ella levaria um ou
mais annos a refazer-se. Mas que se não vá tomar á lettra o proverbio
provençal--_Fais mois pauvre et je te ferai riche_--porque isso
redundaria em grave prejuizo para a oliveira.
O que convem sempre é regular esta operação pelas condições do terreno,
pela exposição e pela tendencia natural da planta, como aconselham as
regras quinta e sexta.
N'um terreno rico e situado n'uma boa exposição deverá deixar-se a
arvore mais carregada de ramos porque no terreno não escassearão
substancias para os alimentar e a maturação dos fructos é mais certa.
Pelo contrario, um terreno pobre exige uma poda mais energica.
A regra quarta aconselha-nos a que tenhamos em conta a variedade da
oliveira cultivada, porque algumas ha que tendem a elevar-se muito.
N'este caso o podador deve ter sempre em vista não contrariar muito o
crescimento da planta com rebaixamentos exagerados.
Ao effectuarmos a poda devemos subtrahir-nos o mais possivel ao córte de
troncos grossos. A grande superficie d'estes golpes daria origem á
penetração da agua e ao ataque de muitas doenças. Quando se não possam
evitar esses golpes haverá o cuidado de os cobrir com alcatrão ou outro
inducto qualquer.
Em muitas partes, devido ao pessimo costume de se podarem as oliveiras
com intervallos de 3, 4 e mais annos, vê-se o podador constrangido a
cortar ramos grossos, o que, como acabo de dizer, acarreta graves
prejuizos para a vida das arvores.
Estes inconvenientes são ainda em algumas partes avolumados pela epocha
pouco propria em que as podas se executam, que é quasi sempre a seguir á
apanha do fructo.
A oliveira é uma arvore muito sensivel aos frios vigorosos e estes muito
mais a prejudicam quando incidem sobre recentes golpes da poda.
Para evitar os inconvenientes, provenientes dos golpes de demasiada
superficie e da sua exposição aos frios do inverno, convem, em primeiro
logar, que a poda seja feita todos os annos e em segundo logar, que ella
nunca seja feita antes da passagem dos frios, a não ser em sitios em que
o vigor d'estes não é muito para receiar.
A melhor epocha parece ser o mez de fevereiro. Alguns auctores preferem
a poda em março e abril, mas, no dizer de _A. Aloi_, a poda feita n'esta
epocha predispõe a oliveira para adquirir mais doenças.
Comtudo esta epocha varia muito conforme o clima local. Em climas onde
não são frequentes as geadas póde ella fazer-se logo a seguir á apanha
do fructo, mas é isso prejudicial nos sitios onde as geadas são frequentes.
A poda feita na primavera parece-me ainda mais prejudicial do que a
feita no inverno rigoroso, pelos grandes estravasamentos de seiva a que
dá origem.
Durante a primavera apenas se irão supprimindo os rebentos que se forem
desenvolvendo no tronco.
CAPITULO VII
Lavouras
Não é intuito meu encarecer aqui as vantagens provenientes da execução
d'esta operação.
O que direi é que o olivicultor tem tudo a lucrar conservando sempre bem
mobilisado o solo do seu olival.
A maioria dos lavradores effectuam apenas uma cava á profundidade 0m,25
a 0m,30; outros, porém, mais cuidadosos, effectuam dois lavores
por anno, sendo feito um em novembro e outro na primavera.
Alguns auctores aconselham que se executem quatro lavras: a primeira ao
terminar a colheita; a segunda de janeiro a fevereiro; outra ao acabar a
floração; e, finalmente, a ultima em agosto.
No estio, com o fim duplo de mobilisar o terreno e impedir a evaporação,
costuma-se fazer uma ou duas arrendas.
Nos sitios pouco humidos é conveniente a abertura de caldeiras em volta
do pé das arvores, para ahi se receberem as aguas das chuvas.
CONCLUSÕES
Do que fica exposto concluo que:
1.º--Attendendo ás condições de clima e de solo, o nosso paiz está nas
melhores condições para a cultura remuneradora da oliveira.
2.º--A oliveira prefere os terrenos soltos, ricos em potassa e cal.
3.º--Sobre tudo nos terrenos compactos, é muito vantajosa a adubação com
a rama proveniente da poda das oliveiras.
4.º--O terreno destinado aos viveiros deve estar em melhores condições
physicas e chimicas do que o destinado á plantação definitiva.
5.°--Ao plantarem-se as arvores definitivamente devem tirar-se á planta
todos os seus ramos e folhas.
6.°--A poda da oliveira deve ser annual.
* * * * *
Notas de transcrição:
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1899, tendo sido
corrigidos apenas pequenos erros tipográficos.
No original as unidades de medida aparecem impressas antes das casas
decimais, e em sobrescrito. Nesta versão do texto manteve-se a notação,
excepto o sobrescrito.
Existe um pequeno diagrama de apoio à descrição da "marcação do terreno
em quinconcio". Esse diagrama está disponível na versão html deste texto.