Quer debaixo da fórma de adubos chimicos preparando para iss

Produced by Pedro Saborano

BREVES PALAVRAS

SOBRE A

CULTURA

DA

OLIVEIRA

DISSERTAÇÃO INAUGURAL

APRESENTADA AO

Instituto d'Agronomia e Veterinaria

POR

Avelino Nunes D'Almeida

1899

IMPRENSA DE LIBANIO DA SILVA

_91, Rua do Norte, 91_

LISBOA

BREVES PALAVRAS

SOBRE A

CULTURA DA OLIVEIRA

BREVES PALAVRAS

SOBRE A

CULTURA

DA

OLIVEIRA

DISSERTAÇÃO INAUGURAL

APRESENTADA AO

Instituto d'Agronomia e Veterinaria

POR

Avelino Nunes D'Almeida

1899

IMPRENSA DE LIBANIO DA SILVA

_91, Rua do Norte, 91_

LISBOA

A MEUS PAES

A MEUS IRMÃOS

Como prova de muito respeito e amisade.

Á MEMORIA DE MEUS TIOS

LUIZ NUNES DA COSTA

MARIA AUGUSTA NUNES

MARGARIDA AUGUSTA NUNES

Gratidão eterna.

A MEUS PRIMOS

AOS MEUS AMIGOS

AOS MEUS CONDISCIPULOS

Como prova de dedicação e amizade.

A .............

........................................................................

O Instituto d'Agronomia e Veterinaria não se responsabilisa pelas

doutrinas expostas n'esta dissertação (Art.º 79 do Regulamento de 8 de

Junho de 1898).

Ao escrever estas _breves palavras sobre a cultura da oliveira_, está

muito longe de mim a presumpção de que ellas vão lançar alguma luz sobre

tão importante assumpto.

Nem com esse fim as escrevo: mas unicamente para cumprir um dever que a

lei me impõe.

Anima-me a fazel-o, a confiança que tenho na benevolencia dos dignos

mestres que me hão de julgar.

Lisboa 14 de Novembro de 1899.

_Avelino Nunes d'Almeida_

PRELIMINARES

Estudo botanico

A arvore de cuja cultura me proponho tratar faz parte da familia das

Oleaceas, comprehendida no grande grupo das phanerogamicas

dicotyledoneas gamopetalas superovariadas.

Habita esta familia os paizes quentes e temperados, onde é constituida

por arvores ou arbustos de folhas oppostas, simples, inteiras e quasi

sempre sem estipulas.

As diversas especies que a compõem apresentam inflorescencia em cacho

simples ou composto, e algumas vezes em forma de thyrso.

Flores hermaphroditas e regulares, raramente polygamicas ou dioicas.

Calice livre, presistente com quatro e algumas vezes cinco divisões.

Corolla hypogynica com quatro fendas mais ou menos profundas, de maneira

a apresentarem quatro petalas, duas das quaes muitas vezes abortam.

Apresenta a forma assalveada, rodada ou afunilada.

Geralmente dois estames alternos com os filetes curtos algumas vezes

livres outras vezes inseridos sobre a corolla; ás vezes apparecem quatro

estames alternando com as petalas.

Antheras ordinariamente introrsas, biloculares fazendo-se a sua

dehiscencia por duas fendas longitudinaes.

Genyceu de tamanho regular cujo ovario é livre, bilocular encerrando

cada loculo geralmente dois ovulos. Um só estylete, curto, estygma

simples e bifendido. Fructo secco ou carnudo (capsula, baga ou drupa).

Sementes com albumen ou sem elle: no primeiro caso tem embryão recto com

cotyledones foliaceas; no segundo caso as cotyledones são carnosas.

A familia das Oleaceas está dividida em varios generos dos quaes alguns

são frequentes no nosso paiz. Entre estes contam-se os generos Syringa

(_L._), Ligustrum. (_Tourn._) Phyliria (_L._) e Olea (_Tourn._)

*Olea, Tourn.*--Este genero é caracterisado por ter as flores dispostas

em pequenos cachos axillares, simples ou compostos; calice tetradentado;

a corolla com 4 fendas; estames salientes e inseridos no cimo do tubo da

corolla; estylete curto; estygma bilobado, conico e grande. Fructo

carnudo, oleoso, drupaceo; semente ossea com um ou dois espermas e o

embryão recto.

São arvores ou arbustos de folhas simples, coreaceas, inteiras,

presistentes e oppostas.

A oliveira faz parte d'este genero e entra na constituição da especie

_O. europaea_, L. originando dentro d'esta especie um grande numero de

variedades.

A _O. Europaea_ distingue-se pelos seus cachos axilares de flores

brancas. Forma arvores ou arbustos de folhas oppostas, persistentes,

coriaceas, inteiras, brancas ou esbranquiçadas na pagina inferior.

O typo verdadeiro da oliveira parece ser o Zambujeiro (Olea oleaster D.

C.) que se apresenta sob a forma de arvores ou arbustos de ramos

quasi sempre espinescentes, com drupas pequenas, negras e algumas vezes

brancas.

Esta variedade é dotada de muito vigor, sendo por isso empregada como

cavallo sobre que se enxertam as variedades mais productivas.

A oliveira commum, cultivada em todo o paiz, é a O. europaea sativa, D.

C. que forma arvores com ramos sempre inermes, drupa cujo tamanho varia

muito com a intensidade da cultura, e de cor escura. A sua cultura tem

introduzido na sua organisação modificações mais ou menos profundas que

tem dado origem á differenciação de um grande numero de variedades.

D'estas differenças, faceis de obter, nos caracteres especificos da

planta nasce uma grande difficuldade senão uma impossibilidade completa

em se determinar o numero exacto das variedades cultivadas, e de fazer

n'ellas um estudo botanico que bem as caracterise.

A avolumar ainda as difficuldades levantadas pelas alterações

morphologicas dos orgãos da planta surge ainda o inconveniente da

diversidade de nomes que de terra para terra são dados a uma mesma

variedade.

É do maior ou menor vigôr das arvores, da natureza dos seus portes e

sobretudo da coloração, forma e grandeza dos seus fructos que se tiram

os caracteres das suas variedades.

São muito inconstantes estes caracteres. Oliveiras tenho eu visto que,

provenientes de estacas da mesma mãe, se apresentam hoje, logo á

primeira vista, com aspectos muito differentes dos da planta d'onde

provieram.

A planta de que se extrairam estas estacas é uma velha oliveira que tem

vegetado sempre á custa dos elementos naturaes do terreno, já de si

pobre, e que pela sua constituição schistosa não é dos mais proprios

para esta especie de cultura. Os seus fructos são pequenos, as folhas,

esbranquiçadas na pagina inferior, tomam uma côr verde pouco

carregada na pagina superior. As estacas d'ella provenientes foram

levadas para o littoral e plantadas em um terreno onde annualmente se

faz a cultura do milho e de outros cereaes. É um terreno

argillo-calcareo com ligeira inclinação ao poente.

As arvores provenientes d'estas estacas são muito vigorosas; o seu

fructo é muito mais volumoso que o produzido pela planta mãe; as folhas,

com quanto apresentem na pagina inferior a côr esbranquiçada

caracteristica da especie, apresentam na pagina superior uma côr verde

mais escura que as da planta d'onde provieram: estas differenças são tão

sensiveis que difficilmente se conhecerá nas duas plantas a mesma

variedade.

No meio d'esta confusão algumas variedades têem sido já caracterisadas,

algumas das quaes já foram descriptas por José Antonio de Sá,

Dalla-Bella, Mendo Trigoso e Barão de Forrester.

São nove as castas apresentadas por estes auctores, conhecidas pelos

nomes de: _negrões ou maduraes, verdeaes, cordovezas, lentisqueiras ou

durasias, carrascas, bicaes, negruchas, carlotas redondis judiagas ou

mançanilhas._

O distincto agronomo Sr. Sousa da Camara, no seu _Estudo da Oliveira_

actualmente em publicação na _Gazeta das Aldeias_, tem conseguido até

hoje differençar as seguintes variedades e sub-variedades:

Variedades Sub-variedades

Nome botanico Nomes vulgares

Olea europaea oleaster, D. C { Zambujeiro.

{ Zambujo.

Olea europaea pomiformis, Clem. { Mançanica. } Golozinha.

{ Mançanilha. }

{ Cordoveza. }

{ Cordovil. }

Olea europaea, regalis, Clem. { Longal. } Redondal.

{ Santulhana. }

{ Sevilhana. }

{ Bical.

O. europaea, rostrata, Clem. { Bicuda.

{ Cornalhuda.

{ Cornicabra.

{ Gallega. }

O. fructo oblongo, Bauh. { Madural. } Negrucha.

{ Negral. }

Olivo murtea. { Carrasca. } Carrasquenho meudo e

{ Carrasquenha. } carrasquenho tinto.

{ Brunhenta. }

{ Durasia. }

Olivo racemosa. { Lentisca. } Barrenta.

{ Lentisqueira. } Zambulha.

{ Zambulheira. }

O. viridula, Gou. { Verdeal. } Verdeal cobrançosa

{ Carlota.

{ Judiaga.

{ Redondil.

{ Oliveira de fructos vernaes,

{ Zamborina.

{ Tentilheira.

CAPITULO I

Clima e solo

A--Clima

São por de mais notaveis as diversidades existentes nas especies

vegetaes que habitam a superficie da terra.

Estas diversidades que se observam dentro da mesma propriedade e que

augmentam de propriedade para propriedade e de um paiz para outro,

accentuam-se extraordinariamente quando comparamos a flora de dois

continentes.

A estructura, composição chimica do solo e o clima são as causas

principaes d'esta accidentada vegetação.

Cada planta tem as suas exigencias especiaes, de cujo conhecimento

resulta a determinação da zona de terreno em que cada especie encontra

condições favoraveis de vida.

Conhecida a zona propria para a vida de cada planta, ou melhor,

conhecidas as especies culturaes adaptaveis a uma determinada zona de

terreno, poder-se-ha emprehender uma exploração agricola mais segura dos

seus resultados do que se a completa ignorancia da geographia botanica

nos obrigasse a emprehender ao acaso essa exploração.

Só um grande esforço, que acarretaria despezas enormes, pode permittir

que se desvie uma planta do seu habitat natural, para, por processos

artificiaes, obter d'ella eguaes productos.

É isto que se faz em varios paizes da Europa, como por exemplo em

Inglaterra, onde em estufas apropriadas se força a videira a produzir.

Depois, no mercado, a muita procura alliada á raridade do producto,

remunerará condignamente o esforço e a despeza do industrial.

Plantas ha que, mais modestas nas suas exigencias, podem vegetar nos

sitios menos favorecidos pela natureza. São estas as plantas herbaceas

expontaneas, as quaes se vêm vegetar em sitios onde é vedado o

desenvolvimento ás plantas arboreas ou arbustivas.

Outras, porém, e n'este grupo entra uma grande parte das plantas

cultivadas, não se contentando com as minguadas exigencias d'aquellas,

tornam mais limitada a zona em que a vida lhes é favoravel.

As especies arboreas, pela sua constituição robusta e pelo seu grande

desenvolvimento radicular, accommodam-se em sitios onde as culturas

arvenses não poderiam ter logar.

O nosso paiz, pela sua accidentação e variedade da sua paizagem, está

naturalmente indicado mais para aquellas do que para estas culturas.

A oliveira, arvore cuja cultura é tão remuneradora, aqui encontra

condições muito favoraveis de vida.

As boas condições do nosso clima, alliadas á estructura do solo que lhe

é propria, collocam-nos em condições de por toda a parte disseminarmos a

sua cultura, augmentando a producção que até hoje tem sido muito diminuta.

A oliveira exige, para poder prosperar e produzir, uma temperatura

branda e pouco variavel.

A area destinada á sua cultura vae, segundo _Gasparin_, até aos 46° de

latitude N. e ao sul é limitada pelo Tropico.

Outros auctores, porém, limitam mais a area indicada por Gasparin.

_De-Noisette_, por exemplo, dá-lhe como zona propria a comprehendida

entre 25° e 43° de latitude boreal. Para lá de 46° a oliveira cresce,

mas é muito raro amadurecer os seus fructos; á medida que formos

caminhando para o equador, esta arvore vae augmentando de volume, mas de

18° para baixo dá-se o mesmo caso que para cima de 46°.

Os calores intensos e os frios excessivos prejudicam altamente a vida

d'esta arvore; e não tanto os frios intensos como as mudanças bruscas de

temperatura n'ella exercem a sua nefasta influencia.

Tem-se visto estas arvores supportarem, sem alteração sensivel nas suas

funcções, uma temperatura de -16° C., ao passo que são accommettidas por

uma morte rapida quando, depois de terem estado por algum tempo

submettidas á temperatura de -5°, são banhadas rapidamente por um sol

claro e intenso.

Procurar, portanto, os logares em que a temperatura seja pouco variavel,

será pratica prudente e vantajosa.

Alguns querem até estabelecer a visinhança dos mares como unico solar

onde esta preciosa arvore encontraria condições confortaveis de vida,

por ser ahi onde a temperatura é mais estavel; a pratica, porém, destroe

tal asserção, pois que no interior dos continentes ella se vê

desenvolver e fructificar admiravelmente.

Para determinarmos se uma dada região é ou não propria para esta

cultura, é de summa importancia o conhecimento das temperaturas maxima e

minima; nunca nos devemos guiar só pelo conhecimento da sua temperatura

media.

É sabido que para a completa maturação do fructo, a oliveira exige um

total 3978° de calor; mas sitios ha em que esse numero de graus se obtem

igualmente, embora as temperaturas extremas divirjam muito. Se

considerarmos dois logares, n'um dos quaes as temperaturas minima e

maxima sejam _a_ e _b_, e no outro _a-c_ e _b+c_, elles terão as mesmas

temperaturas medias e comtudo pode ser impossivel a olivicultura no

segundo e muito adaptada ao primeiro; depende isso simplesmente do valor

de _c_.

Estes inconvenientes conseguem remediar-se procurando exposições em

harmonia com o clima local.

A _exposição e inclinação_ do terreno são duas questões de summa

importancia para este assumpto. Em um clima demasiadamente quente, pode

convir uma exposição que seria prejudicial em outro que não tivesse a

mesma propriedade.

No nosso paiz a exposição ao sul é a mais conveniente, a não ser n'um ou

n'outro ponto em que o calor excessivo do verão e a pequena percentagem

de humidade nos terrenos, aconselhem inclinação differente. Nos sitios

onde são frequentes as geadas, nunca a exposição a Levante pode convir,

porque a planta que durante a noite esteve submettida a um frio intenso,

soffre muito ao receber rapidamente os matutinos raios solares. O

desgelo seria rapido e a sua influencia na vida das cellulas prejudicial.

Em resumo, aconselharei a exposição ao meio dia, como a que mais

geralmente convem, sendo muito para adoptar tambem a exposição ao poente.

Quanto á _inclinação_, é preferível a meia encosta porque n'ella se

somma maior numero de graus de calor do que nos terrenos de planicie, se

os considerarmos collocados nas mesmas condições de altitude, latitude e

composição.

A pratica tem provado que, embora as oliveiras vegetem e fructifiquem

perfeitamente nas planicies, o azeite extraindo dos seus fructos é mais

grosso, de peior qualidade, e que estes no acto da expremidura

desprendem muito mais _almofeira_ do que os fructos provenientes de

oliveiras cultivadas nas encostas.

Não ha vantagem em cultivar a oliveira em terrenos demasiadamente

inclinados, porque ahi são impossiveis as lavouras mechanicas, tendo

este trabalho de ser feito a braço, o que augmenta muito a despeza.

A este inconveniente junta-se ainda o da terra ser arrastada da parte

superior para o fundo da encosta, resultando d'aqui que o solo se vae

tornando cada vez menos profundo á medida que vamos subindo na encosta.

Este inconveniente observa-se facilmente pelo simples aspecto da

plantação. As arvores da base alcançam maior e mais rapido

desenvolvimento graças á espessura do solo, successivamente augmentado

pela terra deslocada da parte superior.

O sr. D. José de Hidalgo Tablada dá como limite de inclinação para as

terras trabalhadas com arado a inclinação de 6%. Para maiores

inclinações convirá fazer a cultura em sucalcos.

B--Solo

A oliveira é tida como uma planta que vegeta em todos os terrenos

qualquer que seja a sua contextura ou a sua composição chimica.

Effectivamente ella vive por toda a parte povoando terrenos da mais

differente structura, e ainda n'aquelles em que muitas outras arvores

não encontram condições favoraveis, ella se mostra com aspecto regular.

Muitas vezes os maus tratos dos homens e a sua exposição aos frios e aos

ventos fortes são-lhe mais prejudiciaes do que as más qualidades do

terreno.

Então essas arvores cuja resistencia ás más qualidades do terreno, só

por si, não conseguiram destruir, cede, embora lentamente, á combinação

d'ellas com os maleficios provenientes da velhice e dos maus tractos, e

o seu tronco, minado internamente pela alteração dos seus tecidos, vae

desapparecendo, apresentando-se frequentemente reduzido a uma debil

parede formada apenas pela casca e pelas primeiras camadas do alburno.

A custo este debil tronco vae mantendo em equilibrio o decrepito

individuo, até que um dia o vento ou qualquer outro agente se encarregue

de o prostrar por uma vez.

Este tronco ao desapparecer não arrasta comsigo as ultimas

manifestações de vida do individuo de que fazia parte.

Dentro em pouco, da parte mais superficial das suas raizes, e da sua

toiça ver-se-hão surgir novos rebentos que o virão substituir.

Estes casos que são muito frequentes mesmo nos peiores terrenos não

significam que seja indiferente destinar este ou aquelle terreno á

cultura d'esta arvore.

Embora possa viver em toda a area que lhe foi destinada ella tem

comtudo, dentro d'essa area, preferencia por determinados terrenos, e á

sua boa vegetação e sobre tudo á qualidade e quantidade do fructo

importa muito a escolha do solo destinado ao olival.

Os terrenos francos e soltos permeaveis e medianamente ferteis, fundos e

frescos são os que mais lhe convêm. Prejudicam-a bestante os terrenos

humidos e os demasiadamente seccos.

São os terrenos calcareo-silico-argillosos os que melhor satisfazem a

estas condições. Prestam-se muito a esta cultura os terrenos pedregosos

onde ella encontre terra bastante para o desenvolvimento das suas raizes

no principio da sua vida.

De grande importancia n'esta questão é a qualidade do sub-solo; este

pode tornar muitas vezes impossivel a cultura d'um terreno cujas boas

qualidades de solo parecessem as mais proprias para a vida vegetal.

Os terrenos de sub-solo impermeavel são muito desfavoraveis á cultura da

oliveira a não ser que sejam submettidos a uma drenagem. Este

inconveniente trazido ao terreno pela impermeabilidade do seu sub-solo é

em parte attenuado nos terrenos inclinados porque n'elles é menor a

infiltração das aguas e mais facil o seu escorrimento á superfície do

seu sub-solo.

Quanto ás condições chimicas do terreno, é d'ellas que mais depende

a vegetação e producção da oliveira assim, como o rendimento e qualidade

do azeite. O augmento de producção de uma dada planta consegue-se muitas

vezes pelo augmento na terra de um só dos elementos indispensaveis á

vida vegetal; outras vezes, e pelo mesmo processo, se pode fazer reviver

uma cultura que a muitos o seu aspecto poderia fazer imaginar perdida.

Das analyses feitas por varios chimicos sabe-se que a oliveira apresenta

no seu todo, quantidades elevadas de cal, potassa e acido phosphorico.

Ora, como é indubitavelmente do terreno que a planta extrahe todos estes

principios, necessario se torna que elles se encontrem nos terrenos

destinados a essa cultura. Os nossos terrenos são bastante ricos em

acido phosphorico dispensando-nos por isso de nos preoccuparmos muito

com elle. O que convem é attender mais ás percentagens de cal e de

potassa por serem estes corpos os de mais incerta existencia no terreno.

São-lhe muito favoraveis os terrenos vulcanicos, graniticos, schistosos

e sobre tudo os calcareos.

N'estes ultimos vegeta a oliveira admiravelmente mas o seu azeite é

muito gordo. É nos terrenos de fraca tenacidade, onde as oliveiras dão

os oleos mais finos; nos de grés os azeites são de mediana qualidade; e

nos schistosos e graniticos a oliveira produz fructos de que exsuda o

azeite mais superior.

CAPITULO II

Adubações

Sem duvida a oliveira é uma planta que pode vegetar em toda a casta de

terrenos, mesmo os mais pobres, excepção feita d'aquelles em que houver

superabundancia de humidade; a sua producção, porém, é que, como em

todas as plantas, está em harmonia com os cuidados que se lhe dispensam.

Por isso a adubação do terreno tem uma alta importancia, e a escolha do

adubo deve merecer ao olivicultor escrupulosa attenção.

Nunca devemos esquecer o fim principal com que pretendemos empregar a

adubação.

Tres são os fins com que lançamos mão dos adubos: para favorecermos o

desenvolvimento da planta, para lhe augmentarmos a producção ou com o

fim duplo de lhe augmentarmos o desenvolvimento e a producção. Estes

tres fins estão em harmonia com os tres periodos differentes porque

passa a vegetação de todas as arvores, no primeiro dos quaes se dá o

crescimento da planta, no segundo o estacionamento e no terceiro o seu

decrescimento.

Claro está, que, ao passar por estas phases vegetativas, devemos

dispensar á planta os adubos que mais nos convenham para d'ella podermos

tirar o producto da maneira mais remuneradora possivel.

Não perdendo nunca de vista a phase vegetativa em que a planta se

encontra, são as analyses chimicas da propria oliveira e do solo que nos

fornecem as precisas instrucções para a determinação da adubação a dar á

cultura:

As colheitas e as podas vão exgotando o solo constantemente e

leval-o-hão a um estado de exgotamento completo se de qualquer fórma lhe

não restituirmos os elementos perdidos.

Para podermos determinar conscienciosamente a formula a dar ao adubo,

(caso pretendamos empregar os adubos chimicos), ou a quantidade de

estrume a empregar, (se lançarmos mão do estrume de curral ou de outro

qualquer), necessario se nos torna calcular primeiramente o

empobrecimento do terreno devido á producção da arvore.

Não é difficil fazer-se este calculo de uma maneira bastante

approximada: bastará simplesmente, avaliar, o mais rigorosamente

possivel, a quantidade, em pezo, de lenho e folhas extrahida pela

poda, assim como o pezo do fructo produzido por esse olival. Conhecidos

estes elementos facil será determinar por meio das analyses já

existentes, qual a adubação necessaria.

O conhecimento do pezo de rama proveniente da poda é perfeitamente

dispensavel no caso, aliás pouco vulgar entre nós, de ella ser enterrada

no solo do olival d'onde proveio.

N'este caso o exgotamento do terreno é simplesmente egual á quantidade

de elementos que entram na composição de todo o fructo.

Supponhamos um olival disposto em quadrado com o compasso de 8 metros,

será de 156 o numero de pés existentes no hectare. Admittindo que cada

arvore produz em media 15 litros e que o pezo de cada litro é de 600

grammas, será de 9 kilos o pezo de azeitona produzida por cada arvore.

_Caruso_ calcula que do pezo de rama extrahida annualmente pela poda,

22% são de folhas e os restantes 78 são de lenho.

Não é, porém, só a poda que obriga a arvore a perder ramos e folhas.

Muitas outras causas obrigam uns e outros a desprender-se da planta mãe

e a vir augmentar o contigente fornecido pela poda.

Entre nós o barbaro systema da apanha do fructo, geralmente seguido no

paiz, é causa de enormes desperdicios. Os ramos desprendidos pelo varejo

são os mais tenros e n'elles a parte foliar não poderá ter para a parte

lenhosa a relação estabelecida por aquelle auctor.

Para o nosso paiz costuma avaliar-se, em media, em 6 a 7 e 5 a 6 kilos

respectivamente o pezo de folha e de lenho perdido annualmente por uma

oliveira; e em 9 kilos o peso da sua producção em fructo.

A composição centesimal das diversas partes da arvore é, segundo Müntz,

a seguinte:

Lenho Folhas Fructos

Azoto 0,40 0,50 0,274

Acido phosphorico 0,10 0,29 0,130

Potassa 0,35 0,74 0,360

Cal 0,50 1,45 --

Se toda a quantidade de lenho, folhas e fructos extrahidos da arvore

forem levados para fóra do olival, produzir-se-ha um exgotamento que,

para os numeros 7, 6 e 9 acima indicados como representando o numero de

kilos d'estes materiaes perdidos annualmente por cada arvore, se poderá

computar no seguinte para cada individuo:

Lenho Folhas Fructos Total

Azoto 0,024 0,035 0,024 0,083

Acido phosphorico 0,006 0,020 0,012 0,038

Potassa 0,021 0,051 0,032 0,104

indicando estes numeros o pezo em kilos para cada arvore.

Para as 156 arvores existentes no hectare teremos:

Lenho Folhas Fructos Total

Azoto 3,74 5,46 3,74 12,94

Acido phosphorico 0,93 3,12 1,87 5,92

Potassa 3,27 7,95 4,99 16,21

São estas as quantidades de elementos essenciaes perdidas annualmente

pelo terreno e que é necessario restituir-lhe para não prejudicarmos a

cultura.

Sob diversas fórmas e em substancias differentes se podem ministrar aos

terrenos aquelles elementos.

Quer debaixo da fórma de adubos chimicos preparando para isso uma

formula em que entre o azoto, o acido phosphorico e a pottassa nas

percentagens indicadas n'estas tabellas, quer em estrume de curral

ou em estrumações verdes se podem encorporar no solo aquelles elementos,

que de todas as fórmas as suas vantagens se assignalam de uma maneira

mais ou menos notavel.

Vantagens ha as sempre para a planta na execução d'esta operação; mas a

sua grandeza varia sempre com a natureza do terreno a adubar e com a

qualidade do adubo a empregar. Claro está que no que mais necessario se

torna fixar a attenção é nos resultados economicos e esses são os que

mais fazem variar as vantagens dos differentes systemas de adubar.

No caso em questão, em que supponho que todas as partes tiradas das

arvores foram levadas para fóra do olival e em que, portanto, se

roubaram ao terreno 12k,94 de azoto, 5k,92 de acido phosphorico e

16k,21 de potassa, precisaria, no caso de me querer servir dos adubos

chimicos, da seguinte formula:

Sulphato de ammoniaco Superphosphato Cloreto de potassa

65k a 20% 37k a 16% 34k a 50%

Estas seriam as adubações que theoricamente seria necessario dar a um

hectare de oliveira; ha, porém, sempre a contar com as perdas soffridas

por diversas causas, entre as quaes avulta o arrastamento de algumas

d'essas substancias pelas aguas das chuvas. O azoto, por exemplo, é uma

substancia que, quando nos estados em que pode ser absorvido pela

planta, é muito facilmente arrastado pelas aguas. Além d'isso devemos

ter em conta que nem todos os elementos serão absorvidos pela planta,

porque nem a todos os pontos em que se espalhar essa adubação chegarão

as suas radiculas para os absorver totalmente.

Attendendo a estas circumstancias que inhibirão a planta de aproveitar a

adubação na sua totalidade, convirá sempre augmentar um pouco as

quantidades calculadas com o auxilio das analyses chimicas.

Disse no principio do presente capitulo que para determinar

racionalmente a adubação conviria a presença das analyses chimicas da

planta e do solo.

Effectivamente, como já expuz, a analyse da planta diz-nos as

quantidades das diversas substancias de que ella carece annualmente, mas

não nos prova que seja necessario ministrar ao solo todos esses

elementos, e só n'este ultimo caso é que ella seria dispensavel.

Muitas vezes os terrenos pela sua riqueza em determinado ou determinados

elementos dispensam a encorporação, no solo, d'esses mesmos elementos.

É preciso, porém, certo criterio ao lidar com as tabellas que nos

indicam a composição do solo.

Algumas vezes acontece indicar-nos a analyse a existencia de um dos

elementos em proporções elevadas e no entanto a cultura agradecer-nos

uma adubação em que entre este elemento.

Com o azoto, por exemplo, dá-se algumas vezes este caso; este corpo não

póde ser utilisado pela planta senão no estado mineral (nitrico ou

ammoniacal) podendo comtudo existir no terreno em grandes quantidades

sob a fórma de azoto organico. Evidentemente a planta cultivada n'este

terreno não se poderá utilizar de tamanha riqueza de azoto, e uma

adubação azotada ser-lhe-ha vantajosa, a não ser que se provoque n'esses

terrenos uma nitrificação mais energica que obrigue este azoto a passar

á fórma mineral.

É nos terrenos pobres em cal que se dá este caso e então a addição de um

correctivo calcareo, mais barata que a adubação azotada, substituirá

esta com manifesta vantagem.

O estrume de curral fornece-nos um meio bastante economico de adubarmos

o terreno. Este adubo ao sahir da estrumeira, onde previamente tenha

sido bem tratado, apresenta-nos a seguinte composição media, por

tonelada: azoto 4k,7, acido phosphorico 3k,0, potassa 5k,2, o que,

para as quantidades d'estes elementos calculadas para a adubação d'um

hectare, mostra serem precisos, em numeros redondos, 4:000k d'este adubo

attendendo á elevada percentagem de potassa indicada na analyse da

oliveira.

Deve ter-se em consideração que ha sempre conveniencia em incorporar no

solo grandes quantidades de materia organica, sobre tudo se este for

muito compacto ou muito solto, porque esta substancia modifica-lhe as

suas propriedades physicas approximando-as cada vez mais das terras

francas.

D'aqui a conveniencia de se augmentar a quantidade de estrume de curral,

não sendo exagero o emprego de 6:000 a 7:000 kilos por hectare.

Nas terras soltas a modificação da sua cohesão não é a unica causa que

milita em favor do adubo de curral. Ahi o seu pouco poder de retenção

para as aguas sujeitar-nos-hia a grandes perdas do azoto nitrico ou

ammoniacal que lhe fornecessemos em adubações chimicas.

Convem então o emprego do azoto organico e é o estrume de curral o

melhor meio de o obtermos.

Podem-se ainda empregar na adubação o estrume constituido pelas algas

que tão abundantes são na nossa costa.

Têm estas plantas riquezas muito apreciaveis para nos poderem dar um

adubo cujo emprego é muito vantajoso, sobre tudo nas localidades

proximas dos rios e mares onde se exerce a industria da sua extracção,

porque ahi são mais convidativos para o agricultor os preços de transporte.

Em media, a composição centesimal das nossas algas é a seguinte: azoto

1,143, acido phosphorico 0,670, potassa 1,125.

Para com esta qualidade de estrumes se adquirirem as quantidades

d'aquellas substancias, necessarias ao olival a que me venho

referindo, seriam precisos simplesmente 1:600 kilos por hectare.

Como para o estrume de curral, aconselha-se empregar sempre maior

quantidade do que a referida. É de 3:000 kilos a quantidade aconselhada

por alguns auctores, a qual nos dá as seguintes quantidades de: Az. 30k,

KHO 30k e Ph^{2}.O^{5} 21.

Adubações verdes

Uma grande variedade de plantas se costumam empregar como adubos e em

algumas d'ellas a sua riqueza em potassa e acido phosphorico torna-as

muito recommendaveis. As mais empregadas são: as urzes, giestas,

polipodio; as folhas de faia, carvalho, pinheiro, abeto e videira; as

palhas de trigo, centeio, cevada e aveia, etc.

Os calculos do exgotamento das arvores, feitos no principio do presente

capitulo, revelam-nos á primeira vista a conveniencia de encorporarmos

novamente na terra a rama extrahida natural ou accidentalmente das

oliveiras. Assim restituimos por meio d'ella, ao solo, os elementos que

ella mesma lhe tinha roubado. Reparamos d'esta maneira, em parte, as

perdas soffridas que ficam reduzidas simplesmente aos materiaes que

entram a constituir o fructo, os quaes para a producção supposta se

reduzem a: 3k,74 de Az., 1k,87 de Ph^{2}O^{5} e 4k,99 de KHO por

hectare. Este _deficit_ será depois preenchido com adubos de qualquer

outra natureza; ou da mesma natureza, trazendo para isso, para o olival

a rama proveniente de outro olival.

Para a restituição completa dos elementos perdidos, serão precisos 20

kilos por arvore ou 3120 por hectare em cada anno.

Não se deve, porém, fazer esta adubação annualmente, mas sim de tres em

tres annos, o que dá para um hectare, 9260k de rama que é preciso

enterrar.

Esta adubação é de grande utilidade em terrenos compactos e humidos,

porque os torna mais fôfos e estabelece ao mesmo tempo uma especie de

drenagem, que permitte uma facil circulação do ar no solo, um escoamento

mais facil ás aguas das chuvas, e provoca ao mesmo tempo o

desenvolvimento e multiplicação das raizes.

O liquido separado do azeite no acto da prensagem ou que escorre das

tulhas, no caso aliás muito pouco racional de se submetterem as

azeitonas á condemnada pratica do entulhamento, é ainda um adubo

excellente para o olival.

Porque vai prejudicar as radiculas da planta, não póde este liquido ser

empregado sem um previo tratamento, que consiste em o submetter a uma

maceração mais ou menos prolongada em agua, a que se addicione algum

adubo de curral.

As qualidades d'um adubo n'estas condições, já de si boas, augmentam

ainda quando a elle se addicionam os bagaços provenientes do lagar.

A oliveira agradece muito as adubações feitas com os residuos das

fabricas de curtimenta de couros, com a raspadura de ossos, pontas e

unhas de animaes.

Na escolha dos differentes adubos indicados convem sempre ter em vista

que á oliveira não convem ordinariamente adubos de prompta decomposição.

Só os empregaremos no caso em que só pretendamos prover ao

desenvolvimento vegetativo da arvore.

Estes adubos só vão ser gastos em proveito da vida vegetativa, e d'aqui

o adquirir a planta um grande vigor que redunda em manifesto prejuizo

para a producção.

Se quizermos empregar estes adubos, convém, antes de os encorporar no

terreno, mistural-os com folhas ou palha, ou ainda com terra solta, para

lhe attenuarmos os seus rapidos effeitos e tornal-os, por este modo,

mais aproveitaveis á fructificação.

Esta mistura deve ser bem feita, de modo a reduzir-se tudo a uma massa

homogenea.

São preferiveis os adubos de decomposição mais lenta, para que a arvore

os vá aproveitando gradualmente á medida das suas necessidades. Estão

n'estes casos os adubos provenientes das raspaduras, as varreduras das

habitações, dos caminhos e das estradas, tendo sobre os primeiros a

vantagem de serem empregados tal qual são adquiridos, dispensando a sua

mistura com substancias extranhas.

As cinzas de diversas plantas, só por si ou misturadas com os adubos já

indicados, são adubos muito uteis n'esta cultura.

Epocha do emprego do adubo

A epocha para se empregar qualquer adubo varia muito com o clima, com a

natureza do solo e com o estado do adubo.

Para um adubo de facil decomposição, convem o seu emprego na primavera,

para que a planta d'elle se approprie sem dar muito tempo a qualquer perda.

Pelo contrario, os adubos de lenta decomposição empregar-se-hão no

outomno para que tenham tempo de se decompôr e incorporar com as

particulas terrosas e estarem aptos a serem absorvidos no momento

preciso, sobretudo na epocha da fructificação.

Modo de emprego

Da maneira de administrar o adubo dependem muito os seus resultados.

Condemnavel processo é o de excavar fossas junto do tronco da arvore,

com a falsa ideia de que o adubo ahi lançado é melhor utilisado pela

planta. Com isto prejudicam-se muito as arvores porque se lhes

cortam raizes grossas e porque se expõem por algum tempo á influencia

dos agentes atmosphericos.

O melhor modo de empregar o adubo é cavar uma fossa circular em volta da

arvore e á distancia de 1m a 1m,5 d'ella; lança-se ahi o adubo,

cobrindo-o depois com terra. A essa distancia da arvore são muito

abundantes as radiculas, as quaes, por intermedio dos seus pellos

radiculares, farão gradualmente a absorpção dos alimentos.

CAPITULO III

Propagação da oliveira

De muitas maneiras se póde obter a propagação da oliveira, mas todas

ellas se podem conglobar em dois systemas differentes.

Um d'esses systemas é aquelle em que se emprega a semente para, pela sua

germinação no terreno, se obterem novos individuos: é a _reproducção_; o

outro consiste em se destacar de uma arvore um fragmento em determinadas

condições, o qual, enraizando na terra, dará origem a um novo individuo;

é este systema o chamado de _multiplicação_.

A--Reproducção

Esta forma de propagação é muito pouco seguida devido á demora que têm

as plantas reproduzidas em fructificar.

Em todo o caso, a compensar o inconveniente da demora em se obter uma

planta em condições de fructificar regularmente, tem este systema muitas

outras vantagens que o recommendam como o melhor processo de propagação.

As plantas obtidas por sementeira são muito mais duradouras, adquirem

melhor porte e resistem muito mais ás inclemencias do clima e ás

doenças do que as obtidas por multiplicação.

Para se obterem plantas por esta forma, necessario é dispender grandes

cuidados e a despeza é mais avultada do que para as obter por qualquer

outro meio; ha sempre uma grande demora na germinação das sementes, e

muitas vezes perdem-se grande numero d'ellas porque nunca chegam a

germinar, a não ser que as submettamos a um tratamento previo, que as

obrigue a germinar mais facilmente.

Além d'estes inconvenientes, as oliveiras provenientes da semente

adquirem todos os caracteres das oliveiras bravas, precisando, por isso,

serem enxertadas logo que attinjam edade e grandeza conveniente.

Para a sementeira devem-se escolher azeitonas provenientes de plantas

sãs e muito productivas, que não sejam velhas, nem tão pouco muito

novas. Diz _A. Aloi_ que as melhores são as provenientes de zambujeiros

que vegetem em climas temperados, e que a sua colheita deve ser feita em

março ou abril.

Adquirida a azeitona, é necessario extrahir-lhe o caroço, o que se faz

esmagando a polpa entre os dedos; em seguida, como a camada oleosa que

fica envolvendo o caroço é um grande obstaculo á sua germinação,

submette-se este á acção de um liquido alcalino que poderá ser preparado

com carbonatos de cal e soda.

A duração do periodo germinativo do caroço póde diminuir-se por varios

meios estudados por _Gasquet_, _Passerini_ e pelo _conde de Gasparin_.

O processo d'este ultimo sabio consiste em fender o caroço com cuidado

para não offender a semente, fazendo-o em seguida amollecer envolvendo-o

em terra argillosa e bosta de boi.

Em logar de quebrar o caroço, _Passerini_ aconselha tornal-o menos

consistente, mergulhando-o para isso em agua chlorada; o chloro

ataca o caroço, rouba-lhe o hydrogenio para formar o acido chlorhydrico,

e d'este modo permitte a entrada de humidade e a troca de gazes.

Algumas aves domesticas têm a propriedade de, comendo a azeitona, nos

restituir depois, nos seus excrementos, os caroços aptos para germinar.

Alfobres

Adquirida a semente e destruida, por qualquer dos processos indicados, a

difficuldade que a materia gorda oppõe á sua germinação, procede-se á

sua sementeira em alfobres de antemão preparados para esse fim.

O terreno destinado aos alfobres deve ter uma inclinação norte sul para

evitar a acção prejudicial dos ventos do norte e dar facil escoante ás

aguas da chuva; deve ser o mais possivel limpo de raizes e pedras e bem

mobilisado.

Quanto a sua qualidade deve ser humifero e silicioso.

O terreno escolhido n'estas condições surriba-se no inverno a uma

profundidade de 0m,50 a 0m,60, adubando-se n'essa occasião com adubo

de decomposição mediana. Em fins de Fevereiro e principios de Março

dá-se-lhe uma segunda lavoura, que d'esta vez convirá ser feita á enxada

para pulverisar melhor o terreno e para o despojar de todas as hervas

que ahi se tenham desenvolvido. Por esta occasião o estrume que se lhe

encorporou no principio do inverno deve estar já decomposto e a terra

nas melhores condições para receber a semente.

Feito isto grada-se o terreno e abrem-se sulcos com a profundidade de

0m,05, distando 0m,25 uns dos outros.

É n'estes sulcos que se collocam as sementes distanciadas 0m,25 umas

das outras, tendo o cuidado de as dispôr de modo que o embryão fique na

sua posição natural. Isto feito cobrem-se com uma ligeira camada de

terra que se calca com um rolo para aconchegarmos bem a semente;

segue-se uma rega ligeira por aspersão para manter o terreno fresco e

ajudar o effeito do rolo.

Quatro mezes depois, nos meados de julho, surgirão as novas plantas.

Durante todo este tempo é necessario ter o alfobre sempre limpo da

vegetação expontanea e deve manter-se sempre na terra uma certa

frescura. As regas e as limpezas feitas com muita precaução são

operações indispensaveis.

No outomno terão as plantas adquirido uma altura do 0m,11 a 0m,20

sendo n'essa occasião necessario effectuar uma sacha para manter o

terreno fôfo e mais permeavel á agua das regas.

Em localidades em que os invernos são habitualmente rigorosos é

indispensavel cobrir o alfobre com qualquer substancia para o preservar

do frio intenso que lhe é muito prejudicial. Empregam-se para isto

agulhas de pinheiro seccas, palhas ou ramos de plantas.

No segundo anno continuam as regas e sachas repetidas para que as

plantas desenvolvam bem as suas raizes. Em outubro d'este anno ou na

primavera seguinte estão as plantas aptas para serem transportadas para

o viveiro.

B--Multiplicação

Como disse, a multiplicação é um dos meios que a natureza nos fornece

para obtermos a propagação da especie. Esta operação da multiplicação

pode fazer-se por varias formas. As _estacas_, as _raizes_ e a

_enxertia_ sobre zambujeiro constituem outras tantas maneiras de

obtermos a multiplicação.

A _estaca_ que pode ser _simples_, _ramificada_ ou _composta_, de

_talão_, de _polas_ e de _protuberancias_ constitue entre nós o meio

mais seguido para a obtenção de novos individuos.

As estacas, _simples_ ou _compostas_, obtêm-se com muita facilidade e em

grande abundancia, sem prejudicarmos em nada o individuo de que

foram separadas, aproveitando os ramos provenientes da poda.

Escolheremos de preferencia os ramos provenientes de plantas fructiferas

e de boa qualidade, os quaes devem ser providos de boas gemmas tanto na

parte que deve ser enterrada como na que tem de ficar fora do solo.

Assim, nos asseguraremos melhor do facil desenvolvimento das raizes e

dos rebentos.

Para as estacas simples cortam-se os ramos de poda em fragmentos de 0m,30

a 0m,50 e enterram-se no viveiro de modo a ficar debaixo da terra

a sua parte mais grossa.

Para as estacas compostas aproveita-se um ramo tal como foi separado da

planta mãe e enterra-se n'um viveiro preliminar de tal maneira que

metade dos seus ramos fique debaixo do solo e a outra metade fique a

descoberto.

Estas ramificações originarão, umas rebentos e outras raizes. D'aqui a

faculdade de podermos mais tarde dividir esta estaca em muitos individuos.

No fim do primeiro anno terá esta estaca enraizado pelos ramos

subterraneos e os ramos exteriores terão lançado os seus rebentos;

arrancar-se-ha, então, com todo o cuidado para lhe não prejudicarmos as

novas raizes e, por meio de uma secatoria, a dividiremos em um numero de

partes egual ao numero de raminhos e transplantaremos estes novos

individuos para o viveiro definitivo.

Nos bordos dos golpes crescem vergonteas em cuja base se observam

dilatações dos tecidos motivadas pela accumulação de seiva. Estas

vergonteas destacadas da arvore de modo a levarem comsigo essas

dilatações e enterradas depois, enraizam muito facilmente. São estas as

chamadas estacas de talões.

Na toiça da oliveira e sobre as suas raizes mais grossas que correm á

superficie da terra, apparecem grandes dilatações d'onde emergem

rebentos em grande numero, que se vão desenvolvendo á custa da planta

mãe e das raizes de que quasi sempre são providos.

Estes rebentos fornecem-nos um meio muito facil e seguro da propagação

da especie. Para esse fim vão-se desbastando esses rebentos de modo a

deixar só os mais vigorosos; cobrem-se as dilatações d'onde provêm

(polas) com terra, para que se possam prover de raizes aquelles que

ainda as não tenham. Assim se deixam ficar até ao anno seguinte, sendo

então transportados para o viveiro e ahi collocados em linhas á

distancia uns dos outros de 0m,80.

Um outro methodo de multiplicação muito usado na Italia é o que consiste

no aproveitamento de umas pequenas dilatações, similhantes a ovos de

pata, localisadas na parte enterrada do tronco e ainda sobre as raizes

mais grossas.

Estas protuberancias são providas de gemmas, tendo por isso a faculdade

de quando enterradas desenvolverem raizes e rebentos para darem origem a

novos individuos.

Não se deve abusar muito da extracção d'estas protuberancias, porque com

isso prejudica-se a vida do vegetal de que são extrahidas, pelas feridas

produzidas nas suas raizes e pelo grande numero d'estas que é necessario

descobrir. _Antonio Aloi_ aconselha a que se não tirem mais do que 3 ou

4 de cada arvore para lhe não alterarmos sensivelmente a sua vida.

Convem antes sacrificar 3 ou 4 individuos á morte, extrahindo d'elles

todas as excrescencias encontradas, que poderão montar a 300 a 400, do

que descobrir as raizes a muitas oliveiras.

Estas excrescencias devem ser tiradas de individuos robustos e

productivos, e preferem-se sempre os situados debaixo da terra, que são

mais tenros e desenvolvem mais fortes rebentos.

Para fazer a sua extracção, escava-se em volta da cepa até pôr as raizes

grossas a descoberto; procura-se sobre estas com uma espatula de madeira

o sitio em que se encontram as exostoses; achadas estas, põem-se a

descoberto e á volta d'ellas se vão fazendo incisões profundas, onde

depois se mette um escopro por meio do qual se faz saltar a excrescencia.

Tira-se-lhes em seguida todo o lenho que com ellas se arrancou e as suas

raizes, se por acaso d'ellas vier provida; limpa-se bem em volta, e

envolve-se em terra misturada com palha, para a conservar até á epocha

da plantação no viveiro.

Chegada esta epocha, que deverá ser em Março ou Abril, levam-se para o

viveiro, onde serão enterradas, conservando entre si a distancia de 0m,80

e a profundidade de 0,10.

As oliveiras velhas cujos troncos, já muito carcomidos, não podem

resistir ao impeto dos ventos ou das intemperies, são lançadas por terra

e as suas raizes continuam ainda a viver por muitos annos.

Com o desapparecimento do tronco velho principiam a desenvolver-se na

toiça grande quantidade de rebentos ou polas. Desbastam-se estes

rebentos, deixando só os mais vigorosos, que ahi vão vivendo até

adquirirem a grossura de 0m,03, sendo então transportados para o

viveiro e ahi plantados á distancia de 0m,80.

A plantação de todas estas estacas pode ser feita com alguma vantagem em

viveiros preliminares, como se faz para as estacas ramificadas ou

compostas; n'este primeiro viveiro vão ellas enraizar para depois serem

mudadas para o viveiro definivo. É, porém, dispensavel este primeiro

viveiro, porque as estacas postas n'um só viveiro desenvolvem-se

perfeitamente e adquirem o vigor necessario para serem plantadas

definitivamente.

CAPITULO IV

Viveiro

A--Seu estabelecimento

Os individuos formados nos alfobres pela germinação da semente ahi

deposta e os provenientes de estacas que tenham desenvolvido as suas

primeiras raizes em viveiro preliminar, necessitam, depois de terem

adquirido um certo desenvolvimento, serem transportados para um viveiro

onde possam dispôr de mais espaço para desenvolverem e multiplicarem as

suas raizes e os seus ramos e onde possam ser convenientemente educados

até á edade de poderem ser transportados á sua definitiva morada.

As estacas e outros fragmentos em que se não tenha ainda provocado um

primeiro enraizamento no viveiro preliminar, serão immediatamente

plantadas no viveiro definitivo nas mesmas condições de espaçamento

d'aquellas, porque é aqui que ellas adquirirão todo o seu corpo para

poderem ser plantadas definitivamente.

Não é indifferente a qualidade do terreno onde queremos estabelecer o

viveiro; pelo contrario, devemos ter muito em consideração a sua escolha.

Um terreno muito argilloso não nos póde convir porque no inverno se

torna humido de mais e adquire no verão propriedade opposta. É, além

d'isso, muito compacto e as tenras raizes das pequenas plantas não

conseguiriam distender-se á vontade, sendo d'este modo muito prejudicado

o seu crescimento; greta muito no verão e, ou romperia as raizes ou as

deixaria expostas ao calor d'essa estação.

O solo muito silicioso possue propriedades contrarias áquelle e por

isso o devemos regeitar tambem.

Escolher-se-ha, sempre para este fim, um terreno de mediana compacidade

e porosidade, o mais possivel limpo de pedras e raizes, para que as

raizes das novas plantas se possam distender perfeitamente, e onde o ar

e a agua possam circular com relativa facilidade.

Deve procurar-se um terreno com exposição ao sul o qual ainda melhor

convirá se tiver para essa orientação uma ligeira inclinação. Assim

estarão as pequenas plantas garantidas contra a influencia dos ventos do

norte que tanto as prejudicam.

Breves palavras sobre a cultura da Oliveira · 第 1 / 3 段