O virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo
fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem
d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas
de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino
estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em
collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella
unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que
elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo
sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o
apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo
de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a
residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito,
e facilmente se deparou ás investigações policiaes o velho fidalgo
vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel.
Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole,
apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho
passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o
nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não
prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo
batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e
licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.
Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem
de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara
a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os
olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse
affectuosa e tristemente:
--Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?
O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino
reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz
tremida e balbuciante falla:
--O meu papá não morreu? O avô disse que sim.
--Morri, meu filho, morri!--respondeu soluçante o desgraçado.
Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão
divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:
--Abraça-o, Martinho, que é teu pae.
--E a mamã--perguntou o menino, apertado nos braços do pae.--E a mamã
tambem não morreu? Onde está ella?
O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do
pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as
taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas
descobriam.
Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve
pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.
Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe
compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:
--Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas
desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas
culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?
--Que és um desgraçado--respondeu serenamente o pae de Beatriz.
--Bem hajas!--volveu Nicoláo.--Escuso perguntar-te se me julgas o
assassino de Raphael Garção.
--Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se
era infame!
--Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?
Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:
--Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo;
era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos
os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou
pois?
--Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho Xavier, se a
minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo
o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho
sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me
apontaste como...
--Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou
com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino
esqueça. Vens buscar teu filho?
--Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.
--Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha
filha.
--Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo.
Virei eu perturbar o teu socego?
--Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus.
Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle
tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o
animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já
morto e esquecido.
Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar
melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança,
o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade
procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em
assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe
havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia
maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.
Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.
Martinho, observando com dôr o desperecimento do genro, suggeriu a
ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como
conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam
excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.
Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no
_boulevard dos Italianos_ um homem conhecido, encostado á vidraça de um
estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do consulado
francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de bello
exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.
De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a
catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto
em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta
da mulher do seu amigo.
Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O
morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier
fôra estranho ao lanço.
Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um
homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente
belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante
conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.
Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o
transeunte do phaetonte, dizia aos outros:
--Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da
fabrica vendida.
Outro ajuntou:
--Em dez annos gastou duzentos mil francos.
Ainda um terceiro:
--Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha
de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.
--A comparação é modesta! observou um.
--Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado
por uma bêsta maior da marca.
Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:
--Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.
Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua
casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente,
discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que
vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto,
prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia
de expiações.
Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle
apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns
certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem
nada.
A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem
chã:
«Lá se entendam e lá se avenham.»
Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da
Providencia.