Ricardo de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado,
bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o
escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e
servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:
--Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo
turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!
--Isto não é desgraça, homem!--contestou Raphael Garção.--As bebedeiras
são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?
--Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no
purgatorio; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no
inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como
ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida
d’este parente do senhor morgado?
--Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja
polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.
--Deus o ouça, meu senhor!--disse o velho, e foi á cosinha filtrar
alegremente o café.
Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz
hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho.
Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se
da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não
praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e
mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o
invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido
põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.
Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e
disse:
--Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu
maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me
alguma coisa de Margarida.
Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um
romperem-se-lhe as fibras da larynge:
--Margarida!?
--Que é lá?--acudiu Raphael.--Uma chavena de café, primo Ricardo!
O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se,
no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:
--Que perdição!... que horror me faz a vida!...
O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e
exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular.
--A materia bruta de sensibilidade--explicava elle--ha de gastar-se
mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos
homens.
Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto,
aspirando a tragos a viração da antemanhã.
--Estou melhor--disse elle.--Que soubeste de Margarida?
--Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora.
--Onde estiveste?... aqui?
--Não: estive com a prima Beatriz.
--No hotel?
--Sim, no hotel.
--Como a fortuna te bafeja!--disse com tristeza Ricardo.
--A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso
Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu,
meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...
--E tolice--concluiu Ricardo.
--Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste.
Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e
doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes
a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha
unicamente um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do
coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A
cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo
em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os
eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente
de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes
aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu
tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes?
--Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a.
--Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo.
Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua
indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa,
mobilada como está, com as carruagens e cavallos.
--Tudo ahi te fica--disse Ricardo.
--Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha
tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de
meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e
cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza
de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos
de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil
cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos.
Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo
d’estes objectos: incommodas-me.
--Como quizeres--conveiu Ricardo.
--Agora presumo que o Mesquita não sae tão cedo de Lisboa, a menos que
Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança
das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora
o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar
o ultimo pregão da tua miseria.
Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e
despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da
rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se
como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado
de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi
espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado
e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o
de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se,
purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo
espinho do crime sem remorso.
Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida
Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se
não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos
santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno
lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.
Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete
que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de
poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se
horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde,
Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria,
tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o
marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias
deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias
verdadeiras.
Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz.
Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez
novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se
de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas.
Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de
afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da
desgraça.
Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu
mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores
de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.
As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada
abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo
beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram
erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.
Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra
ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio
do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra
escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral
publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe,
a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na
delapidação dos seus bens. Desempenhou os hypothecados, restaurando
rendas bastantes a um decente passadio.
Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que
tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada
do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um
irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o
irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833,
hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro
foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de
Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo,
e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois,
voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do
Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas
do inverno.
A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos
infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo
d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos
infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor
da sobrinha.
Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem
poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.
O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade
com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo,
escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse
bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha.
Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem comprado
a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o
primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando
todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por
estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle
afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu,
nem a nossa Laura quer que a sacrifique.»
Uma carta de Ricardo a Raphael, dois mezes depois, desenvolve e remata
o episodio, necessario ao contexto d’estas biographias. Dizia assim:
«É constante ainda o boato da tua residencia em Paris. As damas de
Chaves esperam as encommendas. Teus paes soffrem com a falta das tuas
noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar á caixa em
Pariz. A Angela de Santo Aleixo, para que ninguem possa duvidar de
que tu vens casar com ella, casou antes de hontem com o morgado das
Boticas.
«O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte
para França. Desconfia tambem tu da espionagem d’elle em Lisboa.
«Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei
enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois annos a mesma
mulher!» Eu digo-te sem assombro, por que te conheço: «Dois mezes o
mesmo anjo!»
«Agora, se queres, fallar-te-hei de mim. Caso. A historia da
felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de
um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandella com um chapéo
braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandella com quatrocentos
contos, e trez filhas, e a jaqueta e o chapéo, que ainda mostra aos
duvidosos da sua origem.
«Laura é brazileira, é galante, faz dezoito annos, escreveu-me com
pouco esmero de grammatica, e incluia as cartas abertas nas do pae.
Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-n’a. Eu estimo-a, e creio
que virei a amal-a. Sei que se affligem os nossos parentes com este
alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos
e dentes, a opinião de nossos primos é que elle viria estrangular-me
e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e
promettem revender-m’as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de
Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos,
assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo.»
Raphael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me
que Ricardo é mais feliz do que eu!»
E, com intervallo de um soliloquio mental, fallou com o seu demonio, e
disse-lhe: «É crivel que eu esteja enfastiado de Beatriz?!»
--Pois não é?!--respondeu o demonio.