Ás dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a
Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no _hotel de Italia_,
tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.
Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais
copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que
chore um homem.
Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o
violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o
desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de
rija tempera, e disse:
--Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae
de Lisboa. Não te aconselho que busques diversões ao espirito no
grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia
devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és
tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções,
que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que
te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te,
padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella.
Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações,
engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão
de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na
duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz
desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava
distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que
já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá,
primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres,
portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario.
Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao
infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o
grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz
um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti
nas coisas da tua vida.
Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é
provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado
de Raphael, alvoroçadamente.
--Que tens?!--perguntou o amo.
--Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.
Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.
--Entrou com elle uma senhora--continuou o criado.
Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:
--É ella!... é Margarida!
--Eu estava no quarto do porteiro--continuou o criado--quando elles
saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos
carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro
horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que
o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava
estrangeiro.
Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:
--Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?
--Apunhalal-os.
--É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has
de matar--replicou o de Fayões com agastada ironia.--Se não tivesse
compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!
E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.
--Vamos sair ambos--tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no
sophá.--D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não
sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se
da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês
mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e
choramos como mulheres, assim que ouvimos o trovão! Ergue-te d’ahi,
coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?
--Irei.
--E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em
Lisboa, ou é fechada em algum convento.
Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo
andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes
para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a
estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida,
porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira
chamal-a assim.
Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.
--Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos
para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho,
ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois
reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos
perdidos. Valeu?
--Vamos, disse Ricardo.
--Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado.
Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a
saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.
Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de
Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao
escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás
nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte
do palacete, e o guarda portão vira, á claridade das lanternas, que
estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar
palavra aos criados, e saltou ao estribo.
Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola
da carruagem que despediu á desfilada.
--Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr
escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores
vinhos! ordem ao escanção!
Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os
licores mais excitantes.
Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e
cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O
de Fayões exclamava:
--Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não
seja vinho!
Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia,
e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados
transportaram-n’o ao leito.
A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação,
de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no
peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A
cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava
ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do _hotel de Italia_.
Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda
estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á
uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo. Apeou.
Entrou no pateo do _hotel francez_. Subiu ao terceiro andar. Abriu a
porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael
entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez
que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle
abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume.
--Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás
mãos d’elle!--murmurou abafada Beatriz.
--Nicoláo vem á uma hora.
--Por que o sabes? onde está elle?
--Com Margarida, no hotel em que eu morava.
--Com a franceza!...--exclamou ella espavorida.
--Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo...
Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!...
Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha
alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é
bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...
--Ó Raphael!... tu atterras-me!...--clamou ella, afogando-lhe no peito
as altas aspirações, que saiam gementes.--É possivel que eu esteja
em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!...
Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha
felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é
agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...
A eloquencia persuasiva de Raphael contra as appreensões de Beatriz,
era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios
mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz.
Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante
peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de
comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde
dizer: «Caí; mas vinguei-me.»
Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo
que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.
O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não
ousava encaral-o, disse:
--Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos
Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não
deitaste, priminha?
--Não era meu costume...
--Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze
horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram
de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o
conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando
menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor
da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra,
extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não
estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?
--Pois sim... deitar-me-hei.
--Bonita! o menino como tem passado a noite?
--Bem.
--E tu que fizeste? Lêste?
--Li.
--Gostas das _Meditações_ de Lamartine?--disse elle, tomando o livro de
sobre a almofada do canapé.
--Muito... São tristes...--respondeu ella.
--Qual te fala mais ao coração?
--A _Tristeza_.
--Bem sei...--acudiu elle, recitando de cór:
De mes jours pâllissans le flambeau se consume,
Il s’éteint par degrés au souffle du malheur,
Ou, s’il jette parfois une faible lueur
C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.
--Mas--proseguiu o morgado--o que ha no teu coração é o _souvenir_ do
poeta de Elvira.
--Ha.
--Qual?!...
--A recordação do anjo da minha mocidade.
--Teu primo?--atalhou irado o marido.
--Não... o anjo da minha innocencia.
Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com
maviosidade:
--Queria vêr-te feliz, prima!
--Feliz... como tu?
Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o
preconceito, e respondeu:
--Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que
por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...
--São quasi duas horas...--observou Beatriz, depois de uma longa
expansão de termos affectuosos do marido.
--Queres dormir, prima?
--Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...
--Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi,
e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um
palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena
casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?
--É-me indifferente.
--Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de
assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo,
quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima...
Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente
occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?
--O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir...
Sinto-me tão desfallecida!...
--Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e
até ámanhã.
Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das
cartas aos feitores:
«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos...
Abro ao acaso as _Meditações_ de Lamartine, e leio no _Canto d’amor_:
«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles
«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?
«..........................................
«Parle-moi!... que ta voix me touche!
«Chaque parole sur ta bouche
«Est un écho mélodieux!...
«.......................................................»
Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!