XV

De relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a

apresentações. E ajuntou:

--Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é

terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á

tua amiga. E apparece.

No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de

um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao

hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e

pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado

sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um

opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu

amor desde os quinze annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás

nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e

foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora.

Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado

mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a

sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma

janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse

a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo

á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do

chambre.

Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do

bigode, e baforando fumaças do charuto.

Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas

justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara,

Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete

com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe.

Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a

debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz

no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu,

vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o

filho e saiu.

Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á

janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava

valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas

do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael

estremeceu: era outra mulher sua prima; mas tambem formosa a outra

mulher figurada.

Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez

um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi

enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se

mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia

sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam

sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do

roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das

claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher,

que todavia já não era a sua prima Beatriz.

Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano,

que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do

seu passado.

Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com

estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se

de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria;

levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um

ai estridente.

Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha

correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé.

Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira,

entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama

atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa

onde devia de estar a alcova.

Posto que a gentil visinha não fosse exactamente a linda Beatriz, o

morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo.

Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de

Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou

como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que

não jantaram no dia anterior.

--Não saias, disse elle ao criado.

Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça

e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas

pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios

coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por

mais milagrosa transformação que a primeira.

Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto

de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe

uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz.

Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido,

atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel.

A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe:

--Entretém o menino com o papagaio.

Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar,

recebeu a carta, e disse ao criado:

--Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu

não volto hoje á janella, senão á tarde.

Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos

romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com

intervallos de espionagem.

Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando

com os braços desabridamente.

Era um dialogo violento com sua mulher...

Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse:

--Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes

e penteias com esmero!

--Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo!

objectou ella com amavel sombra.

--Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude!

--Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança

perdida de me veres brevemente morta?

--Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão

vivedoura...

Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas

as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas.

Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro

d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael.

--Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e

brandura de voz.

--Como está elle?

--Melhor. Diz que vem a Lisboa.

--Oxalá...

--Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo

Aleixo.

--Sim?...

--É verdade.

Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e satisfactoriamente

observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença.

--Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento.

--Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso

frivolo.

--Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o

tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em

si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo,

e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de

Portugal.

Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em

que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida

Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo.

O despeito respirou estas imprudentes expressões:

--Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes

das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e

amadas em Portugal.

--Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte.

--A consciencia que te responda.

--Como sabes tu que...?

Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso:

--Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos

contas mais tarde...

--Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita.

--As contas que se liquidam com os traidores!

--E tu já as deste, primo? não deves nada?

--Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia... não ousa tanto.

Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu?

--A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a

palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu

tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer

separemo-nos!

--Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala.

Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça

Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella.

O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado

pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria

espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado

da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar

as janellas do hotel.

Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do _hotel de

Italia_, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára

passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão

miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada

Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha,

até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma,

infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias

do reino escuro.

Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.

--Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos

de polé! Aposto!

--Coisa peior.

--Fugiu-te?!

--Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella

do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a

escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta

á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem

contradicção, esta carta é para mim.»

--E tu mataste-a?

--Zombas com a suprema desgraça, Raphael?

--Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?

--Não... foi ella quem se despediu.

--Oiro sobre azul. Então já lá vae!...

--Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não.

Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das

tuas mãos!»

--Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança!

Disseste-lhe que eu amava Beatriz!

--Não.

--Por tua honra?

--Por minha honra.

--Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por

interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!...

--Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu

occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não

póde perdoar é ser elle feliz.

--O caso é que ella ficou...--volveu Raphael.

--Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro

homem.

--E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel! Vocês devem

ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não

podes arrancar da mulher...

--Eu não sei o que está claro.--disse Ricardo de Almeida.--Escura sei

eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa

allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te

não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do

teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze

horas é procurado pelos padrinhos.

--Então é certo que endoudeceste?--exclamou Raphael Garção.--Em

primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa

elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo

de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas

Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem

gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que

armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...

--Nem hoje.

--Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de

Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio!

Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de

Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços

da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou

desprezo--não sei o que é--de uma mulher despejada, que te abandonou!

Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias

unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que

te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!... Tu vaes d’aqui

procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir

n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia

livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!

--Tenho vergonha de retirar a proposta--replicou Almeida.--Em Lisboa um

caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.

--Da valentia!

--Da honra.

--Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...

--É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as

veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais

obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido...

Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...

--Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico

Ricardo--atalhou Raphael abraçando-o.--De hoje em deante és meu irmão!

Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!

O esqueleto: Romance · 第 33 / 62 题