Appareceu em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França.
Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso de
não poder abraçal-o. Notou no seu _remember_ dezenas de encommendas das
senhoras flavienses, _novidades_ de Pariz, que ellas haviam de estreiar
nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato corrente era que o
morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de noivado, e encravar
os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios modernos.
Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura.
Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida.
Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No
_hotel de Italia_, na rua de S. Francisco, onde Raphael se alojara
recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da sua
compatriota.
Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida,
marginando a carta com a recommendação de _reserva_. Chamava ao _hotel
de Italia_ o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se o romance
dos primos esta novella!
--Que fazes em Lisboa?--perguntou o fidalgo de Aguiar.
--Vim aqui para esconder-me.
--Vens fugido?
--Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e
o marido com ella.
--Casada!... Agouro-te desgraça!...--atalhou gravemente Ricardo.
--Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens
vivido, velhaco?
--Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É
conhecida a mulher?
--É a prima Beatriz Vahia.
--A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia
mais cedo do que eu esperava!...
--A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos
eu e ella?
--Parecia que sim...
--O tio Martinho casou-a...
--Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.
--Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do
raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi
dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica. Será
moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha
por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de
gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e
eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?
--Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é
coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!
--Ora não faças a terra maior do que ella é;--replicou Raphael.--Eu
cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia
onde morava madame Margarida Froment.
--É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os
morgados de Traz-os-Montes.
--De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?
Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial
das hospedarias.
--Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?
--Sou.
--Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os
poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com
a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza
offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma
coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a
côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés
no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!
--Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.
--Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão
choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres
dinheiro?
--Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e _soirée_ ás terças
feiras.
--Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu
amas! Devéras amas? falla a verdade.
--Amo, porque me não merece confiança nenhuma.
--Esse _porque_ é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo desprezar
as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é amor, dou-te a
minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri Beile, e todos os
praxistas _ad hoc_.
--Então que é?
--É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande
dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas
montanhas. Ella atraiçoou-te?
--Não...
--Que tu saibas...
--Sei que não; mas tem um ideal.
--A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e
andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a
mais, a despeza do ideal!
--Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!
--Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te
não merecia confiança.
--Mas posso ser injusto.
--Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas
desmarcadamente, eim!
--Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria.
--Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher
não tem vergonha.
--É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora...
--Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da
Foz com ella para Lisboa.
--E elle ainda a ama?
--N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da
irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.
--E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.
--Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça
para nós ambos a reconsideração.
--Porquê?
--Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a
prima Beatriz.
--Virá elle a Lisboa com intenções?
--Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar
uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para
ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava
as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos
para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua
propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são
os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher
porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores
gigantes, te daria mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma,
bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes
a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado.
Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á
natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar
dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração
puro de uma esposa!
--Sinceramente te digo que já pensei n’isso.
--Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.
--Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção,
retorquio sorrindo Ricardo.
--Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo
que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde
a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que
outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em
flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte
de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair
d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio.
Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por
descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros
sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás
nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas?
Nunca pensaste n’isto?
--Já.
--E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira?
--Vejo um par de excellentes pistolas.
--Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é
que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso
dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és
um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que
perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido.
Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e
vás saber onde mora a prima Beatriz.
--Pois sim, e fallaremos depois--disse Ricardo de Almeida, e saiu com
animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do
morgado de Fayões.
Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que
Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos
Romulares.
--Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os
triumphos! exclamou Raphael.
--Que tencionas fazer agora?
--Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez
necessariamente está defronte de alguma casa.
--Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?
--O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.
--Estás a mangar!...
--Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no
quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae
rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por
cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e
diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze, o
empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com
esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!
--E depois?
--Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho
olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos
olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que
eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.
O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves
do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia
seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.
Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz
passar a noite com o primo Almeida.
Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e
disse-lhe pouco depois:
--Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...
--Não ha duvida, minha senhora.
--Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia
no animo de seu primo.
--Porque, madame? Sinistra influencia!...
--Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova.
Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será
mais inepto do que eu presumo?»
E, replicando a Margarida, disse:
--Bem vê, minha senhora, que a minha idade não authorisa a dirigir
o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa
excellencia domina com absoluto imperio.
--Agradecida! tornou ella com ironico sorriso.
--Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao
primo. Que significa este desastre?
--Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo.
--Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza.
Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e
sorriu-se para dentro.
Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a
aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.
Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando
com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse
ao hospede com requebro maviosissimo de voz:
--Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?
--Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse
longe de vossa excellencia.
--O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as
mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se
vista de palavras usadas nos salões.
--Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.
Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana
genealogica.
Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao
encontro dos cavalheiros:
--Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.
--Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões.