CONCLUSÃO.

Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha

de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e

Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas,

acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos

fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma só

resistira á saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo

bom tracto dos novos amos.

As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram

quatro frescas moças, robustas, côr escarlate de quem vende saude,

alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de

innocencia, e felicidade expansiva.

Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro

sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de

rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de

mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de louça

ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O

oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e

mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas.

Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes

umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato.

Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete

de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou:

--Finalmente!

Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe:

--Que celestial graça tem isto tudo, ó filho!

--Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...--disse Azevedo,

relanceando em redor os olhos humidos--Isto póde explicar a estreiteza

das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas d'esta

casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a

minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros

livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!

--Perfeitamente, Antoninho!--disse Corinna.

Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que

ficara arrumando n'outro sobrado os bahus.

--Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos--disse elle,

rindo--Tu já sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos,

segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de

posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar

espavorida!

Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antonio fez

pé atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente

trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a

cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas

encadernações de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as

cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do

estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo

d'esta sala estava um quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias

de muito valor e gosto.

--É o vosso quarto, meus irmãos--disse Joaquim--Ao lado tendes outro:

será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos

rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos á casa a largura que

precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre

architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um

pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não

podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, está em pé; tens que

farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens

lá essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha

destruido o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.

Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o

outro braço, apertou Corinna ao peito.

Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora

em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, ou á margem

do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças!

Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se

deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus

peccados!

Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na

quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua

infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de

saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.

Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo

lhe désse azas, não cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha

viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito

da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito,

pendurada no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo

Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia,

excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos

talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou

Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das

meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se

do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe:

--Meu caro commendador!

--Vossa excellencia está enganado!--disse o attonito Azevedo--Eu sou,

salvo a pequena differença de alguns cabellos brancos, o Antonio de

Azevedo de 1844.

Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e

disse:

--Aqui tem! É o meu presente de noivado.

--Muito agradecido a vossa excellencia--disse Antonio

d'Azevedo--Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que

tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro

filho.

--Mas eu quero que a use--tornou o sogro.

--Na minha aldeia?--perguntou o genro.

--Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gosar a vida e a riqueza

que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcellos. Não é

assim menina?

--Respeito muito a vontade de meu pae--disse Corinna com submissão--mas

a nossa casa é em Barcellos, e as minhas flores estão lá por aquelles

matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e á qual eu tenho

escrupulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan

partiremos.

Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma reconhecida, e deu

um beijo na face de sua mulher.

Estrellas Propícias · 第 31 / 34 题