O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. João de
Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista
angustia.
Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real,
trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima,
havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.
Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do
antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu
direito á successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo não deu pezo
ás consideraveis provas de habilitação do contendor. De mais a mais,
como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o
pleito decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o processo
os termos de appellação para as superiores instancias. Gastão tinha
parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuçados, que
protegeram o réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou
alguns annos trancado no desembargo do paço, até que o emigrado voltou.
Os primeiros annos, que seguiram a restauração, foram tumultuosos e
favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se
diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o
fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho
natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o
processo se perdesse.
Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado
com uma carta de perfilhação concedida por D. João VI no Rio de Janeiro,
para onde Fernão de Athaide, pae do habilitando, fôra com o rei em 1807.
Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae,
tanto a elle, como a sua mãe, portugueza de origem, que fallecera no Rio
de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a
isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo
Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado
Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e
vinculados.
Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successão
de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos
principaes lettrados, quando Gastão de Noronha os consultou: diziam que
os bens vinculados não podiam ir ao filho natural, nem a declaração do
velho á ultima hora da vida podia esbulhar da successão a legitima
descendencia.
Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herança:
achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que
tinham dado por boa e legitima a espoliação.
Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que sua prima
tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente
commercio de café, herdado de sua mãe, que morrera abastada, e universal
herdeira de seu marido.
Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de visitar as
capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por
necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o
pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem
para o Rio de Janeiro.
Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da
causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle cogitava no melhor
modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. João. Sahiu o fidalgo
para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis.
Voltou a casa mais firme na resolução de segurar a futura subsistencia
da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastança
daria para viverem todos largamente.
Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos a historia
do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel
pobreza da familia e a precisão de ella se sacrificar á decencia de seus
paes e suas irmans, casando com o tio D. João, por ser das cinco a
menina que elle preferia, posto que se não despedisse de casar com uma
das outras.
--E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. João?--perguntou
Corinna.
--Ainda as não consultei; eu é que desejo que sejas tu.
--As boas intenções de meu pae são providenciar ao futuro de nossa
familia por meio d'este casamento?
--Sim, minha filha.
--Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a esse bom intento.
--Porque?--atalhou o pae entre pasmado e colerico.
--Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. João.
Não me recuso, meu pae: faça vossa excellencia o que quizer.
--Ora!--tornou o pae modificado em sua ira--Não morres, não, filha. Isso
é o que te parece agora; tu verás que todos te ajudaremos a levar a
cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e está
na cova. As escripturas hão de ser feitas de modo que, ainda mesmo que
tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima.
--O pae não quer acreditar-me...--atalhou, soluçante, Corinna.
--Acreditar o quê?
--Que me mato, se Deus me não levar para si.
--Sei o que é isso...--tornou Gastão escarlate de ira--É o homemzinho de
Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. Não tem
duvida: tu te arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os
vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando quizeres um vestido, e
não haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como
te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos.
Disse, e sahiu enfurecido.
A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta
menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes á
brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a
quietação, que parecia uma invencivel preguiça. Bem que estranhasse
tanto como as outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a
primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio,
que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao
palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de
juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá das cinzas do coração do
velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada
n'um tapete, D. João tinha sempre certa a palestra com aquella
pachorrenta sobrinha.
Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. João, e a
rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe
entrasse pelo sabugo. Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das
unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou
tambem graça aos chistes da filha e aos esgares do primo.
--Ahi está o nosso D. João--disse elle--gosando um dos milhares de
prazeres da vida domestica. Quando era moço, e requestava damas, sentiu
alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. João?
--Já estive a pensar n'isso, primo Gastão; mas o diacho da Emma não me
deixa pensar em nada se não em guardar os dedos da implacavel tesoura
d'esta linda parca... Olhe que já me quiz cortar a ponta do nariz, a
traquina, que só não tem preguiça para cortar narizes... e corações.
Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina
desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo
Corinna, a rir sem saber de quê. D. João cuidou que ella se desmanchava
assim, á conta da ultima e novissima careta que elle fizera.
Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha perguntou ao primo
se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo:
--Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser Corinna, de boa
vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada
e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em
quanto as outras me estão sempre a convidar a passeios, e querem que eu
salte portellos e vallados como ellas, senão fazem-me apupadas as
doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a
verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste não serve para velho,
que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me
quizer, aqui estou.
Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella
quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. João.
--O papá está a mangar comigo!--disse ella rindo.
Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu
tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não fingidos de
atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusação
de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era já
supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a
promessa de satisfazer os desejos de seu pae.
Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!
Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho desenvolveu de
repente um pudor senil de muita graça! Estava, como noiva que se peja de
apparecer ao noivo, na sala onde o papá a manda chamar, a fim de, em
presença de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres.
Esquivava-se D. João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz,
córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoçar corações
mumificados!
Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem
ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas até ao
extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a
salvadora da familia. Pensava já Gastão no processo de defraudar a filha
mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos
estavam tão arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava
esperanças de vencimento.
Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio
apostolico residente em Lisboa concedeu.
Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro
genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes
arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo
sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a
noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de
Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se
não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se
sósinha n'este valle de lagrimas.
Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde
iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao pae, e
facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de
uma prima de sua mãe.
A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleição, e
continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas
visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimação da
menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para
Lisboa, andavam alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera
da partida, com não menos alvoroço, para entrar no mosteiro de Santa
Anna.
Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que o
desafogado coração se gosaria livre, livre para ir-se além-mar, nas
longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno
moço que lhe acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova de seu
esperançado amor.
Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e
convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para
acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do designado, D.
João de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa,
que n'esse dia era lauta e muito concorrida.
Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o
salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia
tem sacerdotes e martyres.
Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não
obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir
com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito
do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o
paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso
para quem sabe o que é amar!
Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João
pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e,
dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande
porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.
Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor
juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e
pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um
remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando
chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia.
D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas.
Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta.
O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de
parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto
que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.
Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se
quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos
damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do
moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a
D. João que recebesse as bençãos nupciaes.
O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi
desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção.
Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á
segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu
vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se
approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras.
Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e
lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina
foi tremendo.
--Dá-lhe a mão--disse-lhe o pae ao ouvido.
Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.
O abbade, instado por Gastão, disse:
--Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima
esposa a senhora D....
O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.
Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.
--Vai-se embora, abbade?!--perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção.
--Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma--disse o padre--O
homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria
canonicamente nullo, fidalgo!
Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem
que D. João tinha expirado.