VIII.

O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. João de

Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista

angustia.

Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real,

trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima,

havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa.

Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do

antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu

direito á successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo não deu pezo

ás consideraveis provas de habilitação do contendor. De mais a mais,

como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o

pleito decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o processo

os termos de appellação para as superiores instancias. Gastão tinha

parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuçados, que

protegeram o réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou

alguns annos trancado no desembargo do paço, até que o emigrado voltou.

Os primeiros annos, que seguiram a restauração, foram tumultuosos e

favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se

diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o

fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho

natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o

processo se perdesse.

Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado

com uma carta de perfilhação concedida por D. João VI no Rio de Janeiro,

para onde Fernão de Athaide, pae do habilitando, fôra com o rei em 1807.

Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae,

tanto a elle, como a sua mãe, portugueza de origem, que fallecera no Rio

de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a

isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo

Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado

Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e

vinculados.

Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successão

de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos

principaes lettrados, quando Gastão de Noronha os consultou: diziam que

os bens vinculados não podiam ir ao filho natural, nem a declaração do

velho á ultima hora da vida podia esbulhar da successão a legitima

descendencia.

Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herança:

achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que

tinham dado por boa e legitima a espoliação.

Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que sua prima

tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente

commercio de café, herdado de sua mãe, que morrera abastada, e universal

herdeira de seu marido.

Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de visitar as

capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por

necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o

pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem

para o Rio de Janeiro.

Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da

causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle cogitava no melhor

modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. João. Sahiu o fidalgo

para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis.

Voltou a casa mais firme na resolução de segurar a futura subsistencia

da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastança

daria para viverem todos largamente.

Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos a historia

do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel

pobreza da familia e a precisão de ella se sacrificar á decencia de seus

paes e suas irmans, casando com o tio D. João, por ser das cinco a

menina que elle preferia, posto que se não despedisse de casar com uma

das outras.

--E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. João?--perguntou

Corinna.

--Ainda as não consultei; eu é que desejo que sejas tu.

--As boas intenções de meu pae são providenciar ao futuro de nossa

familia por meio d'este casamento?

--Sim, minha filha.

--Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a esse bom intento.

--Porque?--atalhou o pae entre pasmado e colerico.

--Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. João.

Não me recuso, meu pae: faça vossa excellencia o que quizer.

--Ora!--tornou o pae modificado em sua ira--Não morres, não, filha. Isso

é o que te parece agora; tu verás que todos te ajudaremos a levar a

cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e está

na cova. As escripturas hão de ser feitas de modo que, ainda mesmo que

tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima.

--O pae não quer acreditar-me...--atalhou, soluçante, Corinna.

--Acreditar o quê?

--Que me mato, se Deus me não levar para si.

--Sei o que é isso...--tornou Gastão escarlate de ira--É o homemzinho de

Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. Não tem

duvida: tu te arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os

vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando quizeres um vestido, e

não haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como

te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos.

Disse, e sahiu enfurecido.

A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta

menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes á

brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a

quietação, que parecia uma invencivel preguiça. Bem que estranhasse

tanto como as outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a

primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio,

que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao

palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de

juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá das cinzas do coração do

velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada

n'um tapete, D. João tinha sempre certa a palestra com aquella

pachorrenta sobrinha.

Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. João, e a

rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe

entrasse pelo sabugo. Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das

unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou

tambem graça aos chistes da filha e aos esgares do primo.

--Ahi está o nosso D. João--disse elle--gosando um dos milhares de

prazeres da vida domestica. Quando era moço, e requestava damas, sentiu

alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. João?

--Já estive a pensar n'isso, primo Gastão; mas o diacho da Emma não me

deixa pensar em nada se não em guardar os dedos da implacavel tesoura

d'esta linda parca... Olhe que já me quiz cortar a ponta do nariz, a

traquina, que só não tem preguiça para cortar narizes... e corações.

Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina

desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo

Corinna, a rir sem saber de quê. D. João cuidou que ella se desmanchava

assim, á conta da ultima e novissima careta que elle fizera.

Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha perguntou ao primo

se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo:

--Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser Corinna, de boa

vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada

e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em

quanto as outras me estão sempre a convidar a passeios, e querem que eu

salte portellos e vallados como ellas, senão fazem-me apupadas as

doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a

verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste não serve para velho,

que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me

quizer, aqui estou.

Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella

quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. João.

--O papá está a mangar comigo!--disse ella rindo.

Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu

tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não fingidos de

atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusação

de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era já

supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a

promessa de satisfazer os desejos de seu pae.

Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura!

Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho desenvolveu de

repente um pudor senil de muita graça! Estava, como noiva que se peja de

apparecer ao noivo, na sala onde o papá a manda chamar, a fim de, em

presença de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres.

Esquivava-se D. João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz,

córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoçar corações

mumificados!

Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem

ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas até ao

extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a

salvadora da familia. Pensava já Gastão no processo de defraudar a filha

mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos

estavam tão arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava

esperanças de vencimento.

Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio

apostolico residente em Lisboa concedeu.

Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro

genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes

arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo

sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a

noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de

Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se

não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se

sósinha n'este valle de lagrimas.

Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde

iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao pae, e

facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de

uma prima de sua mãe.

A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleição, e

continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas

visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimação da

menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para

Lisboa, andavam alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera

da partida, com não menos alvoroço, para entrar no mosteiro de Santa

Anna.

Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que o

desafogado coração se gosaria livre, livre para ir-se além-mar, nas

longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno

moço que lhe acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova de seu

esperançado amor.

Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e

convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para

acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do designado, D.

João de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa,

que n'esse dia era lauta e muito concorrida.

Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o

salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia

tem sacerdotes e martyres.

Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não

obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir

com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito

do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o

paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso

para quem sabe o que é amar!

Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João

pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e,

dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande

porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo.

Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor

juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e

pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um

remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando

chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia.

D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas.

Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta.

O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de

parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto

que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas.

Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se

quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos

damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do

moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a

D. João que recebesse as bençãos nupciaes.

O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi

desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção.

Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á

segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu

vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se

approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras.

Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e

lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina

foi tremendo.

--Dá-lhe a mão--disse-lhe o pae ao ouvido.

Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia.

O abbade, instado por Gastão, disse:

--Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima

esposa a senhora D....

O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos.

Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos.

--Vai-se embora, abbade?!--perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção.

--Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma--disse o padre--O

homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria

canonicamente nullo, fidalgo!

Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem

que D. João tinha expirado.

Estrellas Propícias · 第 16 / 34 题