Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, sahiu
do Porto apressadamente com a familia, por saber que chegara a Vianna um
seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estação da primavera na
quinta das margens do Lima.
Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta:
«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe contar os seus
dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo das suas cartas é desejo de
quem vai viver na solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o
que fôr. Talvez a sua bondade me não recusasse tal distracção, ainda
mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu
egoismo. Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava
quanto podia, e nenhum accidente da minha vida me fará mudar. Se vir o
caminho da felicidade, siga-o, meu irmão, e não volva a face lá para a
minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu hei de esconder-me com
as suas cartas. Adeus.==«_C. da S._»
Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser
subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo.
Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha razão de
estar triste mais que suas irmans, quando, idas do tumultuoso Porto, se
viram outra vez no ermo, quando as arvores mal sacudido tinham os gelos
do inverno, e começavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem.
O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo sexagenario,
filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo de
divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibataria.
Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de
Gastão, ou coisa assim parecida. O ir elle ao Minho, na primavera
d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que não era movido por desejo de
vêr florido o jardim de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras
aguas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo
medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso,
consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e
bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. João de
Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; e, posto que nunca
se vissem nem correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um
Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem
condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho
fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão economico e
aváro, quanto fôra prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde
resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em
casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem
hospede.
Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se viu alegremente
acolhido nos braços de seu primo, dando a beijar a mão ás cinco formosas
meninas, que lhe chamavam tio D. João.
A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou
admiravelmente suas digestões; as pernas pareciam recaldeadas de aço;
movia-se o remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. A
natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e
doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes
desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas
pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva magîa de dar o
esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario
saudades, e renascido esperanças em novo começar de vida.
Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos, (diz o leitor) em que, a
não ser na salvação de sua alma?
Verão o que d'alli sáe. Hão de maravilhar-se do influxo d'aquelles ares
e aguas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as
cachexias do coração vem muito mais temporans--o que, a meu ver, se deve
ao mau ar e á pessima agua, elementos importantissimos do sangue.
D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós com seu primo Gastão,
disse ao correr do dialogo:
--Olha, primo, o celibato dá aos moços vantagens, que, no velho, são
amargamente descontadas. Mil vezes, nos ultimos vinte annos, me tenho
arrependido de não haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era
rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes:
parecia-me que a belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda
viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a obrigação de
conservar em casa a flor murcha é um pesadelo. Isto é que eu pensava com
a minha libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta
annos. Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta,
precisaria de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das
doces illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que
amara aos trinta, e achei-as mães e avós; algumas que se conservavam
solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus
habitos!--quando assim as vi, ainda cá disse de mim para mim: «olha se
eu tenho casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a
bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos maus principios, primo
Gastão! Aqui tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi á
tentação de casar com uma menina de vinte e cinco annos, filha segunda
da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam com a melhor vontade,
e ella tambem não mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, não
sei como, vou a casa d'um tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e
vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de
setim verde que eu mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em
dia dos seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do
castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume! Ninguem
imagina a dor de um velho ludibriado, se elle ainda conserva coração com
bastante memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua
mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi
ao pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o
tenente de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá estão
felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é como
podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se
a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam lá as
mulheres d'agora tão differentes das do meu tempo! De maneira, meu caro
primo, que a minha decrepitude será triste a mais não poder. Á hora da
morte hei de ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que
aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e
sei que tem o lisongeiro cuidado de perguntarem por mim, todos os dias,
aos medicos. Tenho accumulado os rendimentos por não saber em que
dispendel-os; e tudo isto ha de ir dar áquellas mãos ávidas de meus
sobrinhos, e depois elles é que hão de saber gosar o que eu já não
posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão!
--Isso é assim, primo D. João....--murmurou com doloroso tregeito de
beiços e olhos o pae das cinco meninas solteiras; e proseguiu--O primo,
ainda assim, por causa de uma é injusto com as outras mulheres. As de
hoje são como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D.
João deu com uma das más, podia ter encontrado uma das muitas que ha
boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter já um herdeiro dos
seus vinculos.
--Palavra de cavalheiro!--exclamou com alvoroço D. João--quando penso
que podia ter um herdeiro dos meus vinculos, e arrancar a minha casa das
garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperação por me não ter
casado! Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um herdeiro!
--Pois ainda está em tempo--atalhou Gastão--case-se; não hão de
faltar-lhe noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na
sua parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e
encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos.
D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo,
estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e tartamudeou:
--Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas,
primo Gastão.
--Escolha, primo--disse o pae de Corinna apertando-lhe affectuosamente a
mão.
--Não escolho nem peço nenhuma--tornou o velho--Veja se me tira vinte
annos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que é um anjinho,
mas não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada, primo, nada: para
desgraçado basto eu.
--Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a vontade de minhas filhas,
e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem
disposta a ser sua esposa, o primo D. João não se nega.
--Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que não me nego; pelo
contrario, morrerei de felicidade, porque, além da esposa e da sobrinha,
levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mez e meio de
convivencia a todas as horas.
Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca satisfação dos
dois fidalgos. Em quanto elles praticavam, lia Corinna da Soledade a
decima carta de Antonio d'Azevedo, que dizia assim:
«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio
parte depois de ámanhan de tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas
irmans, e despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer
amargo em me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão de
separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima como retribuição da
angustia com que eu hei de lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os
seus arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto, onde
ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que visão seria
aquella da minha alma, então magoada como se presentisse a saudade de
hoje!
«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas
vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao coração liga
de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos
amigos de quem não escondo um pensamento!
«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de summo
valor de pessoas muito importantes d'aqui para outras do Rio de Janeiro.
A mim não me ha de custar a merecer a bem-querença de todos: levo comigo
a segurança no firme proposito que fiz de não sahir do caminho dos meus
deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de sêl-o em todas as
situações da minha vida. Se esta estrada me não guiar á felicidade sem
remorsos, é que não ha nenhuma.
«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de amigos e
fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos
moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos hão de ir como vão
os annos dos felizes. Verá que a esperança lhe aligeira o tempo, e as
minhas cartas lhe hão de acudir nas más horas da desanimação. Temos Deus
por nós. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com
quanta uncção póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O premio que
Deus me dá é a consciencia de poder assim fallar de mim; e chego a crer
que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me não
sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de
si.
«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos
escravos de suas paixões, que nenhum amor, por mais desmedido que seja,
carece de provar que o é com destinos e excessos censuraveis. É a
primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe
juro, que ainda leve sombra de intenção culposa me não nubelou a limpida
esperança de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lagrimas não sei
se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a
outrem, para se esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no
coração. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de
ser consolado. Os dias prosperos não vem do acaso: são grangeados, como
as searas, a muita fadiga e com muitos intervallos de desalento: a final
a colheita de fructos e de bençãos; o coração ainda novo para saborear
os fructos, e o espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as
bençãos.
«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo animador; mostre-me de cá
sempre a patria á luz da sua alma allumiada de graça divina.
«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as
minhas, por mediação d'elle, todas receberá, e muito longas, para lhe
encurtar as horas, e dar alguma alegria ás minhas noites.
«Corinna, minha querida esposa, não posso continuar. Sejamos dignos um
do outro. Offereço a Deus as lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que
enxugue as suas com as consolações da esperança. Tenha muito animo. A
religião ha de dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a
sua alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito do intimo creio que
entre dois infelizes sem culpa está sempre um bom anjo. Adeus.»