soubesse...
--Ai!--suspirou Rozenda pondo a mão no lado esquerdo do peito--Ainda
aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda não sou
senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu,
quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:--amar outro
até esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que
nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...
--Não é tanto assim, mana...--emendou Euphemia.--Já depois andaste muito
apaixonada pelo conego Antunes, pois não andaste?
--Gostei d'elle--respondeu Rozenda langorosamente requebrada.--Não
desgostei... mas amar de paixão foi só uma vez... Ai! o Peixoto! o
Peixoto! não sei que feitiços me fez!...
Concentrou-se largo espaço com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou
por fim com abrupta cólera:
--Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me
arranjasse uma pensão já que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica
dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi
despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na
minha pretenção, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que
tornem para cá!...
Não pareça caricatura a vaidosa precaução com que a snr.ª Picôa se
resguarda ou finge acautelar-se das tentaçoens, escarmentada por varios
casos funestos. As decepçoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe,
se ella esconjurar os embellécos de um major reformado que protestou
induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como
se viu, não tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda,
quando lhe punge na lembrança a imagem do capitão da carta--aquelle
Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do coração.
D. Rozenda não pôde ainda atravessar despercebida a corrupção do seculo.
Tem quarenta e sete annos remoçados pelas madeixas postiças que lhe
inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e
garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa;
mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam já florecido
em 1834, e não mostravam desesperado empenho em ser citadas como
exemplares de castidade. Favorecida pela magrêza que, no lapso de trinta
annos, desilludira os enfeitiçados de sua elegancia, desde o seu defunto
Alves até ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava _anhelo_,
até ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda
estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que
muitas damas ainda viçosas perderam logo que os tecidos espessos
refegaram e descahiram placidamente.
Lisboa, como todas as capitaes das naçoens que tem civilisação, gaz e
ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos
prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez,
d'aquelle preceito colonisador com que Moysés justifica Rozenda e as
outras philogynias dadas ás contemplaçoens geneticas.
Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar
dos nervos, é triste condão das mulheres provincianas.
As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o berço dos
filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu coração, bafejaram-lh'o
nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de
uma noite desvelada á cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor
ou desdem perderam a doçura ou o agro,--já a ninguem enlouquecem de
jubilo ou desesperação: é um sorrir para filhos e para Deus que lh'os
ha-de manter e guiar. Isto é formoso e santo; mas as mães assim
envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; não lhes
esmalta a vida uma restea do sol da alma, não as desperta o alvoroço de
sonho apaixonado, nem a esperança lhes enxuga nas palpebras cerradas uma
lagrima de saudade. Ninguem as vê, ninguem as ama; porque, na voluntaria
abdicação da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graças das
vidas que estremece, ha uma glacial repulsão que não deixa aquecer em
peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, são uns como que
baluartes sagrados. Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulação,
muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo
fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que
attribue a sua honra á benção da alma digna do céo.
Ó Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisação á das provincias, se lá
houvesse duas d'estas mulheres, além d'uma que é decerto a esposa do
leitor!
VI
O SANTO CORAÇÃO DE FILHA
Tu lanças de ti tres raios:
Belleza, innocencia, aurora.
GUILH. BRAGA, Heras e Violetas.
Acudiu pressurosa Rozenda ao chamamento de D. Maria; e, para logo
mostrar á conspicua menina que lhe percebera as figuras do estylo,
entrou exclamando ridentissima:
--Com o amor não se brinca, minha querida menina. Quando o coração
empurra, a cabeça vae para diante. A gente, por mais que faça, não
resiste ao que tem de ser. E máo é que nos amem; que nós, frageis por
natureza, mais hoje, mais amanhan, amamos quem nos ama, não acha?
D. Maria José, fitando os explendidos olhos na illuminada e tregeitosa
cara da snr.ª Picôa, quedou-se pasmada sem perceber nem responder. A
mulher anhelada do capitão da carta, attribuindo a pudor o silencio
espantadiço da menina, continuou gesticulando como creatura de ralé, que
não houvesse sido polida pelo deputado Elias e pelo conego Antunes:
--Não se acanhe, que eu bem sei o que é um coração de donzella. Já por
lá passei; e, pudesse eu voltar aos dezoito, que escolheria onde
quizesse e me fizesse conta. Eu sempre gostei dos homens sabios; mas,
como não amei senão o meu Alves, fiquei sem saber o que é a satisfação
de estar uma senhora constantemente a ser adorada de um poeta. O meu
defunto não era tolo; mas tambem d'isto de sciencias e escrever nas
folhas não sabia nada. E, veja o que são as coisas, o meu Victor Hugo
sahiu esperto como a menina vê e o sabe apreciar melhor que eu! Dizia-me
a este respeito o deputado Elias, que foi meu hospede--a menina bem se
lembra d'aquelle deputado baixo e gordo--pois dizia-me elle, muito
admirado do talento de Victor, que o menino havia de vir a ser em
Portugal uma coisa grande. E eu por amor disso, não me poupei a
despezas: mandei-lhe ensinar tudo quanto ha... Ainda bem que elle achou
uma senhora que lhe soube dar a devida estimação!... Ha muitas meninas
em Lisboa que namoram asnos--perdoe-me a expressão que não é muito
civilisada. O que ellas querem é chelpa, e marido seja lá como fôr. São
raras as que sabem apreciar a poesia e os dotes de um rapaz fino. Graças
a Deus que o meu Victor Hugo amou quem é digna delle! Cheguei ao que
tanto desejava... Vou ter uma filha que me ha de dar netos muito
lindos... Se não fosse ser ella quem é, eu não queria ainda ser avó...
D. Rozenda cascalhava umas casquinadas com o mais desgracioso e tolo
artificio, quando D. Maria perguntou serenamente:
--Então o snr. Victor vae casar?
--Se vae casar!--acudiu Rozenda estupefacta--Pergunta-me isso a menina?
--Sim, minha senhora... Pois não acaba de me dizer que seu filho
encontrou uma menina que o sabe apreciar!?
--Ora essa!--tornou a mãe do poeta, avincando o sobrôlho--ou a senhora
está a desfructar-me, ou estou doida varrida! Pois a menina não me
escreveu uma carta...
--Sim, escrevi, pedindo-lhe o favor de aqui chegar...
--Para me contar os seus anhelos...
--É verdade, para lhe contar que sou feliz com a certeza de que posso
ser util a meu pae, que recebe esmolas dos portuguezes... envergonhados
de estar um principe portuguez mendigando o pão estrangeiro...
--Ah!--atalhou Rozenda, prolongando a exclamação á medida do seu azedume
mal disfarçado--Então, pelos modos, a menina quer dar o seu dinheiro ao
snr. D. Miguel?!
--Com a melhor vontade e o mais inteiro contentamento. Nunca me senti
feliz como hoje. Imagino que cada pessoa deve receber dos thesouros do
céo egual porção de bens da alma, de alegrias puras. A uns sorri a
fortuna em gosos de cada dia; a outros, em meio de muitos annos lutuosos
que passaram e de outros escurissimos que hão de vir, abre-se-lhes o céo
em subitas torrentes de felicidade, que trazem comsigo em uma hora todos
os jubilos de longa vida satisfeita.
D. Rozenda abria a bocca a vêr se percebia, emquanto D. Maria de
Portugal continuava:
--Foi Deus comigo liberal e justiceiro, dando-me esta occasião de poder
mandar a um rei sem throno, e a um principe portuguez sem tecto que o
cubra nos paços dos reis seus avós, recursos que devem ser valiosos para
o indigente que os pede; e confio que elle os receba sem pejo porque
lh'os manda uma filha.
--Então a menina--repisou D. Rozenda em tom reprehensivo--quer dar o que
tem e ficar pobre!?... Estou passada! Que tenciona fazer depois, não me
dirá? Sim... pergunta a minha curiosidade, depois que der as suas
inscripçoens e a sua casa, para onde vae?
--Eu ainda lhe não expliquei todo o meu pensamento...
--A snr.ª D. Maria José tem o coração de uma pomba;--proseguiu a snr.ª
Picôa, desdenhando a interrupção explicativa--mas ha de dar-me licença
que eu lhe diga que não tem juizo para regular a sua vida... Coração
toda a gente o tem; mas cabeça... isso é raro.
--Eu lhe respondo, snr.ª D. Rozenda--insistiu reportadamente a filha do
snr. D. Miguel, soffreando a redea aos instinctos soberbos que por
natureza e raça lhe deviam beliscar o pundonor.--A minha tenção não é
mandar a meu pae tudo quanto possuo. Elle mesmo receberia com desprazer,
se o não recusasse, o beneficio de uma mulher que depois da sua
imprudente liberalidade, se expozesse aos aviltamentos que marêam a
pobreza, e a não deixam mostrar-se á luz a que as senhoras opulentas
costumam alumiar as suas virtudes. Repito, minha senhora, não dou ao
snr. D Miguel tudo que possuo; mas decerto lhe darei tudo que me sobra.
Eu vivo com pouco. A minha amiga sabe que os meus alimentos e vestidos
não requerem grandes despezas; mas, ainda que eu estivesse habituada
ás pomposas superfluidades da dispensa e da guarda-roupa, corrigiria as
loucas demasias, logo que soubesse que meu pae pedia aos homens de quem
foi rei os sobejos da minha mesa e do meu toucador.
--Mas...--interrompeu D. Rozenda com ar de quem entendêra.
--Deixe-me dizer o resto, e depois ouvil-a-hei com prazer, minha
senhora. Tenho esta casa e nove contos de reis em inscripçoens. A casa
não a dou por ora, mas dal-a-hei tambem, se meu pae carecer do valor
d'ella, e irei servir, se com o meu abatimento e baixesa puder obstar a
que o aviltem. O producto das inscripçoens quero enviar-lh'o, excepto a
quantia precisa para eu abrir n'esta casa um estabelecimento de luvas.
--Luveira!--bradou D. Rozenda persignando-se e exprimindo pausadamente
as palavras da cartilha--Luveira! a filha do snr. D. Miguel! Ó céos, que
escuto! Que dirá sua mãe no outro mundo se a vir a fazer luvas!
--Minha mãe, se me vê do outro mundo, ha-de abençoar-me--respondeu
placidamente D. Maria José.--Não ha trabalho deshonroso, nem ociosidade
honrada, snr.ª D. Rozenda!... Que dirá minha mãe no outro mundo, disse a
senhora! Pois eu não sei a vida de minha infeliz mãe nos seus ultimos
annos! Não a conheci apparentemente rica? Não vi sahirem da cocheira
a carruagem e os cavallos penhorados? Esqueci eu já que minha mãe teve
um hotel, e que nem ahi, em tão obscura e humilde paragem, a desfortuna
deixou de a perseguir? Que mais brasoens tem a hospedaria que a loja de
luvas?
--Faz differença...--explicou D. Rozenda em desaffronta do seu hotel na
travessa do Estevão Galhardo--faz muita differença, muitissima! A dona
d'um hotel está nas suas salas, no seu escriptorio, tem criados que
servem, e dispensam de tratar cara a cara com os hospedes, percebe? A
menina bem sabe que eu nunca admitti á minha mesa, senão o deputado
Elias, que depois foi ministro, e o conego Antunes, que depois foi
bispo. Eram dois cavalheiros que me tratavam com o maior respeito, e
nunca me disseram a menor desattenção n'um tempo em que eu não deixava
de ser galantinha. Ora, agora, uma luveira é outra coisa. Tem de estar
ao balcão á espera de quem vem. Entra um, entra outro, chalaça d'aqui,
chalaça d'acolá, faz lá idéa?! E, quando se tem a cara da menina,
imagina lá os atrevimentos que lhe hão de dizer os rapazes, ainda que
saibam que a menina é filha de quem é? Hoje em dia, não se respeita
senão o dinheiro... Luveira! a snr.ª D. Maria José de Portugal
luveira! Sabe que mais? A menina leu tanto que tresleu! Essa sua idéa
faz-me lembrar o theatro onde apparecem passagens que não acontecem
n'este mundo. Se leu em novellas algum caso d'esses, mande as novellas e
mais quem as fez ao diabo, que não fica rico com o presente. Os romances
são patranhas que perturbam as cabeças do sexo sem pratica do mundo,
como bem dizia o conego Antunes. Emfim, minha senhora, o dinheiro é seu,
póde atiral-o á rua, se quizer; mas eu, para desaggravar a minha
consciencia de escrupulos, declaro-lhe que faz grande asneira, e perdôe
a expressão, que não é muito civilisada.
E como D. Maria permanecesse largo tempo silenciosa, folheando
distrahidamente um livro, D. Rozenda colligiu que a mudez era
perplexidade, e talvez uma saudavel reconsideração, devida ao acêrto de
suas razoens. Vaidosa pois do triumpho, ganhou fôlego e proseguiu:
--Quer a menina fazer bem a seu pae? Dê tempo ao tempo. Arranje-se
primeiro. Case com quem saiba augmentar a sua fortuna, e depois reparta
do que lhe sobejar; mas de feitio que os seus filhos não fiquem a pedir,
por causa de serem netos d'uma pessoa real. Pois não é assim? Se a
senhora D. Maria der o que tem, e se puzer a vender luvas, cuida que
acha pessoa de teres que a queira para esposa, apesar de ser muito
linda? Não ha de faltar quem a queira; mas a felicidade, que lhe ha de
vir d'esses pretendentes, Deus m'a desvie da porta pela sua divina
misericordia...
--Está bom!--cortou D. Maria José, com enfado e sobranceria.
--Não se zangue, minha senhora... O que eu lhe digo é o que sua mãezinha
lhe diria...
--Não offenda a memoria de minha mãe, que foi uma desgraçada digna de
respeito.
A viuva do mercador de couros sorriu então com um tão brutal esgar de
bocca e olhos que fez transluzir no semblante de D. Maria a raiva de
ver-se affrontada por aquelle tregeitar de beiços que lhe pareceram
estar escarnecendo a memoria de sua mãe.
--De que se ri a senhora?--perguntou desabridamente.
--De que me rio? Pois a gente não ha de rir-se, quando ouve
dispauterios? Em que offendi a memoria de sua mãe? Essa é boa! Então
dizer eu á filha do snr. D. Miguel e da snr.ª D. Marianna Rolim de
Portugal que não se faça luveira, é offender a memoria de sua mãe! Ora,
minha senhora, não nos entendemos! A menina é sabia, lê livros e casos
romanticos; e eu cá, a respeito de livros, basta-me a experiencia
que não é máo livro, e o mundo que não tem pouco que ler... Emfim, minha
menina, estou ás ordens de V. Ex.ª, e hei de amal-a sempre como filha,
tanto me faz que seja luveira como rainha. Prometti a sua mãe, quando a
fui encontrar nas agonias da morte, que, emquanto eu fosse viva, a
menina, não passaria precisoens. E, se as não passou porque teve quem
lhe désse uma mezada, tambem as não passaria, se nada tivesse de seu.
Deus permitta que não; mas, se alguma, vez a snr.ª D. Maria José chegar
á pobreza, ha de achar-me tão sincera amiga como fui e sou.
A menina, commovida e repêza da altivez, com que interrogára a amiga de
sua mãe e sua gasalhosa hospedeira em annos perigosos, abraçou-a,
pediu-lhe desculpa, e ao mesmo tempo protestou, soluçando, que não
deixaria de soccorrer seu desvalido pae.
--Faz bem, faz bem, menina!--obtemperou Rozenda sensibilisada e, ao
mesmo tempo, previdente.--Se seu pae voltasse ao throno...
--Nunca mais!--murmurou D. Maria com os braços pendidos e os dedos
entrelaçados--nunca mais!
--Por que não?!--replicou a mãe do vidente, que assoprava á pira do fogo
sacro no escriptorio da _Nação_.--Tenha esperanças, menina! Meu
filho diz que o snr. seu pae ha de vir, e ha de ser elle mesmo, o meu
Victor, quem o ha de pôr no throno!
--O snr. Victor é poeta...--volveu D. Maria, sorrindo
melancolicamente.--Cuida que as phrases inspiradas pela justiça fulminam
as iniquidades dos homens. Engana-o a miragem do genio, que se julga
omnipotente. Os raios do talento não são como os do céo que vão direitos
aos durissimos brilhantes e os pulverisam. A sociedade sabe e a
experiencia mostra que os coriscos, arremessados contra os poderosos,
apagam-se quando o resplendor do ouro os deslumbra...
--Sempre é muito esperta!--interrompeu D. Rozenda ingenuamente
admirada--A gente esquece-se a ouvil-a, minha senhora! Quantas vezes o
deputado Elias me disse que a menina havia de ser uma grande capacidade!
O meu Victor Hugo diz tambem que a snr.ª D. Maria José, se quizer, póde
idear novellas. Porque não dá a menina alguma coisa á luz? Escreva um
romance de amores...
--De amores!...--obstou, sorrindo, D. Maria--como hei de eu escrever do
que não entendo?
--Não entende!?... Boa vae ella! O amor não tem nada que entender.
Quem ensinou os passarinhos a amar? não me dirá? A natureza tanto ensina
os animaes como a gente. A menina, se não sabe, é porque não quer.
--Não posso, nem penso em tal. O amor só entra em coraçoens abertos ao
contentamento. Alma em trevas não attrahe raios de luz tão intensos. O
amor é como o sol que decerto não brilhará neste recinto, se eu
conservar as janellas fechadas d'uma noite a outra noite.
--Ora deixe lá...--redarguiu em excellente prosa a quinhoeira do lyrismo
do deputado Elias.--A snr.ª D. Maria José ha de pagar o tributo como as
outras: se não fôr Sancho, será Martinho. O que a menina faz é o que eu
tenho feito desde que enviuvei: não quer amar; isso lá percebo eu. Bem
importunada tenho eu sido por pretendentes ás segundas nupcias, tantos
como a praga dos gafanhotos do Egypto! Resisti e hei de resistir, porque
jurei eterna fidelidade até á morte ao meu defunto Alves, apesar de elle
me deixar pobre, sacrificando-me á politica cabralista. Lá se elle fosse
esperto como o filho, ainda valia a pena deixar o negocio pela politica;
mas, Deus o tenha á sua vista, aquelle perdeu-se por ser um toleirão! O
meu Victor Hugo sahiu ao avô cá pelo meu lado, que dizem que era
muito sabio meu pae de Povolide. Todos me dizem que o rapaz ainda pode
ser ministro. Eu não engulo carapêtas; mas, quando me lembro que o meu
hospede Elias chegou a ministro, sendo elle bom homem, mas muito
tapadinho, diga-se a verdade, não me admira nada que meu filho, cedo ou
tarde, venha a subir ao governo. Se o snr. D. Miguel viesse, a menina
pedia-lhe que désse uma pasta ao meu filho, não pedia?
--As mulheres, minha senhora, quer sejam princezas, quer sejam luveiras,
não devem intrometter-se nos negocios do estado. Se meu pae tornasse a
Portugal, dir-lhe-hia eu que o snr. Victor soffreu vinte dias de carcere
por amor d'elle.
--E o mais que elle soffrerá ainda...--ampliou D. Rozenda.--Acho-o tão
incanzinado no partido realista, que, qualquer hora, estoura trovoada
peior, que a outra. Os fidalgos trazem-no nas palminhas, e eu vejo-me
atrapalhada para o vestir com mais luxo, porque elle vae a todas as
casas principaes, e não me falla senão na senhora marqueza d'Abrantes,
na senhora condessa de Pombeiro, de Redondo, da Figueira, Barbacenas,
Pancas, etc. E bem vê a menina que quem gira nesta roda fina não se
ha de ir vestir ao Nunes Algibebe por dez ou doze pintos. Deus sabe com
que linhas cada qual se coze...
--Peço-lhe, minha amiga, que disponha do que é meu--disse a menina
apertando-lhe a mão.
--Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, cá me irei remindo,
como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado
Victor, sabe o que era?--isto.
E, apontando-lhe ao coração, trejeitava com os olhos mui derramados e um
pender de cabeça languescida--coisas e modos que muitas vezes deviam ter
eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.
--Tem de mim o snr. Victor--disse solemnemente D. Maria--o mais que
posso offerecer a um irmão.--E logo, norteando a palestra n'outro
rumo:--Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu
filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis,
que é o que posso liquidar das inscripçoens, tirando para mim o
necessario para manter a minha lojinha de luvas.
--Ella cá torna com a mania! Então não muda de idéa?
--Não.
O tom imperioso e sêcco da resposta fechou o debate.
D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe
informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro.
No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaçoens, entregou a D.
Rozenda os seus papeis legalisados para a venda.
VII
OS TRES CONTOS DE REIS
Por entre o labio torpe e podres dentes,
D'aquelle abysmo esqualido, que póde
Sahir que não tresande!?
GOETH., Fausto Segundo--côro.
E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V--cidadão portuguez, que
morreu honrado e sinceramente carpido.
Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da
sciencia lhe crestaram o viço da juventude.
O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e
rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas,
introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os
gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento.
E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como
quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens
sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de
soberanias extemporaneas.
Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas,
demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de
mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto
snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já
bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o
principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos
mestres, revelou predilecção impertinente.
Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não
montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso
povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela
sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se
lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz
do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de
Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo
principe o indeclinavel calix em que sua mãe lhe legara--para
saudades e exemplo--o travo de suas lagrimas.
Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e
jerarchia.
Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da
vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que
esvoaçava ás regioens sombrias da _Divina Comedia_--semsaboria
immortal!--ou se librava nas nevoas de Macpherson,--immortal semsaboria!
O ar do paço tresandava ás prêas que os escaravêlhos rolavam pelas
alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caçoletas
encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia
o principe sincero extremar entre respeito e adulação, e entre silencio
estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o
reinado de seu tio-avô, bosquejassem o caracter dos validos que o
derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada
cortezão, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente
vestidos com as librés de 1857.