O CARRASCO
DE
Victor Hugo José Alves
O CARRASCO
DE
Victor Hugo José Alves
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Os cantaré un estraño cuento
que no le avreis oydo tal en
toda vuestra vida.
M. CERVANTES--_Novellas_.
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE Lello & Irmão, editores
1902.
_Porto--Imprensa Moderna._
I
A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA
Il y a ici quelque chose... une fleur... cherchez!
SAINT-BEUVE, Portraits des Femmes.
Á volta de uma mesa do _café Martinho_, em Lisboa, estavam, por 1857,
cinco ou seis sujeitos saturados de politica. Estava tambem eu em
principio de _saturação_--palavra pedida de emprestimo á chimica para
bem materialisar a idéa do corpo abeberado d'aquelle civico enthusiasmo
que salva as nações... nos botequins.
N'aquella noite, os meus interlocutores eram todos mais ou menos
republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsycose, porque
sentia dentro do seu ventre os figados de Robespierre; e outro, que
arredondava musicamente os periodos corrosivos, revelava-nos, com
modestia parelha do talento, que sentia coriscar-lhe no craneo o
cérebro de Mirabeau;--coriscos, se o eram, todos para dentro; que do
fogo, que lhe faiscava da fronte, não havia que receiar combustão em
armazem de sulphureto de carbonio.
Os outros não me lembra quem tinham dentro de suas pessoas.
Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira de defuntos
historicos, suspeitei ser eu a paragem de dois pedaços transmigrados, um
de Falstaff, outro de Sancho, por me sentir rasamente lerdo á beira
d'aquellas pessoas trabalhadas por crudelissimas almas de torna-viagem.
Suppunha Gerard de Nerval, que Méry, pela admiravel intuição que tinha
das coisas da India, devia ser a metempsycose d'um mouni do Indostão na
pelle d'um marselhez; ora eu, se é licita a comparação ambiciosa, á
vista da sisuda pachorra com que assistia aos projectos regicidas
d'aquelles cavalleiros andêjos, devo presumir que ha em mim o que quer
que seja do pagem do cavalleiro triste, antes de intontecido pelas
lisonjas dos ilheos que o degeneraram.
Havia ali um que esmurraçava o marmore das mesas, protestando que os
thronos seriam aluidos, quando a lava, escandecente no seio da
Liberdade, irrompesse, resfolegando para si os monarchas, e revessando
para fóra, com o novo baptismo de fogo, uns evangelhos novos.
O meu terror foi grande. Encarei n'aquelles homens exterminadores, e
agourei-lhes mentalmente que morreriam justiçados para descanço do
genero humano, e particularmente dos possuidores de inscripçoens e
outros fundos.
Agora é de saber que todos aquelles regicidas, hoje em dia, vampirisam
as veias desangradas do paiz, pisam alcatifas do paço, e fumam, nos
aposentos dos camaristas, charutos da munificencia real, pelos quaes se
lhes vaporaram os figados de Robespierre, o encephalo de Mirabeau, e
toda a mais peçonha que lhes petrolisava as entranhas, tirante a do
estomago, que ainda é corrosiva, como sempre.
Revertendo aos assumptos debatidos n'aquella roda de trogloditas, cujas
caras a lavareda do ponche azulejava terrificamente, dizia um que os
monarchas lusitanos, em seculos de bons costumes e fé viva, procreavam
filhos illegitimos.
Esta noticia fez-me calafrios.
Em confirmação da these, individuou o sujeito, com prodigiosa retentiva,
os filhos bastardos de cada soberano, e não sómente os abonados pelos
chronistas, senão outros muitos denunciados pela tradição, e sonegados
pelos historiadores em preito a insignes familias.
Occasionou-se-me então o ensejo de observar que o senhor D. Miguel de
Bragança, bem que malsinado de frasqueiro e muito dado a damarias, não
deixára filhos illegitimos reconhecidos, ou sequer suspeitos: d'onde eu
inferia que a calumnia superfluamente lhe encarecêra os vicios, não
querendo imputar-lhe sómente á descultura do espirito e aos ruins
companheiros da mocidade os funestos casos do seu reinado.
Redarguiu de prompto o malsim das reaes progenituras que o snr. D.
Miguel podia ser menos fecundo que seus avós, sem ser mais casto que D.
Diniz; e acrescentou que affirmava a existencia de filhos do principe
proscripto, e me desculpava da ignorancia por eu ser da provincia, e
desconhecer as entranhas tuberculosas da côrte.
Estimulado por este dizer oriental e therapeutico, pedi que me dissessem
quem eram os notorios filhos do snr. D. Miguel Maria do Patrocinio.
O sujeito interrogado nomeou cinco ou seis pessoas de ambos os sexos,
umas que eu conhecia de vista, e outras dos appellidos heraldicos dos
seus progenitores legaes.
Feita a resenha, um dos circumstantes ajuntou:
--Ainda te falta uma.
--Quem é?--acudiu o outro.
--A luveira da Rua Nova da Palma.
--É verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida
vergontea d'um tronco roído e verminoso. Hei de mostrar-lhe a vossê a
luveira, a dôce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que saíu de
uma crysalida paludosa. Quer?
--Com a mais ardente curiosidade--respondi.
--Ámanhã.
No dia seguinte, o pontual amigo levou-me á Rua Nova da Palma, e ahi
entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria.
A dentro do balcão estava sentada a costurar uma senhora, singelamente
vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podéra cobiçar.
Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu já ia prevenido de que ella
não podia contar menos de vinte e sete; e, se o não fosse, desde logo,
em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam,
se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel.
José Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria José. Ella
recebeu o cumprimento com agraciado rosto, e correspondeu á minha
cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras...
maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.--letras, que, longe
de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois
bancos.
Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances,
pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentação; e tambem
observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, não se
parecia extremamente com os avós--dessimilhança, porém, que não fazia
implicancia á magestade da sua origem.
Não duvidei, por tanto, que D. Maria José em verdade houvesse a prosapia
realenga que lhe attribuiam; antes me quiz parecer que o seu porte
altivo sem soberba, e um certo natural nada commum, sem laivo de
artificio, estavam inculcando uma senhora de fidalga condição.
--Aqui tem uma filha do snr. D. Miguel de Bragança--disse o meu amigo
com urbana e grave seriedade, mais do que eu esperava de tamanho
republicano; e ajuntou logo, coherente com os seus principios:--N'esta
honrada posição é que eu unicamente respeito os descendentes dos reis.
No sublime abatimento do trabalho é que as pessoas, nascidas para a
ociosidade principesca e devoradora das nações se me figuram regeneradas
para a humanidade laboriosa, e repostas pela mão do Christo na plana da
egualdade a que elle chamou todos os filhos de Deus. Deante d'esta
operaria, sinto o reverente enthusiasmo que os abjectos sentiriam se a
vissem a roçagar nos pavimentos vellosos da Ajuda o manto de princeza.
D. Maria abaixou ligeiramente a cabeça, depois de haver relançado os
olhos com suave magestade ao rosto do seu admirador. E eu, que tinha
entrado com animo indisposto para tão solemne colloquio, compenetrei-me
de involuntaria sisudeza e compostura como se ali estivesse uma princeza
de lista civil, uma genuina vergontea das senhoras Dona Carlota de
Bourbon e Dona Maria de Saboya.
Como sou de natureza bastante monarchica, e fui creado com o bom leite
do antigo amor portuguez aos seus reis, grande foi o enleio em que me
vi, rosto a rosto de tão egregia dama!
Com quanto acatamento e cortezania pude, enviei-lhe umas tartamudas
palavras significativas de respeitosa vassallagem. E ella, sem
descompor-se do seu palaciano aprumo, proferiu estas vozes:
--Contento-me com ser respeitada como costumam sêl-o as mulheres que
vivem decorosamente. Algumas vezes tenho sido alvo de motejos por
ser filha de um principe desafortunado; mas ainda não fui escarnecida
por quem pudesse reprehender os actos da minha vida. O ter nascido
grande não deve desmerecer-me pela resignação com que me sujeito á
humildade da minha posição.
E, levantando-se, foi vender um peito de camisa a uma mulher que lhe
chamava «Dona Mariquinhas».
Pouco depois entrou na loja um rapaz, asseiado a primôr, mui fragrante
de cosmeticos, e todo elle uma bonita caçoula a recender perfumes de
mocidade. O meu amigo apertou-lhe a mão, chamando-lhe Raul Baldaque, e
acotovelou-me. Não percebi o intento espirituoso do cotovelo de José
Parada.
O paralta encarou-me do alto da sua importancia, arregaçando a face
direita para prender no olho correspondente um vidro. N'aquelle olhar
preponderante, o sujeito parecia querer-me annunciar que era o filho
unico do famoso capitalista conde de Baldaque, chegado da America, seis
annos antes.
Sahimos os dous sem haver dispendido no estabelecimento mais que o ouro
puro das nossas phrases. Eu ainda quiz comprar duas camisas e um par de
luvas verde-gaio; mas acanhei-me de mercadejar com tamanha senhora,
receiando desafinar da linguagem aulica e tom de côrte em que não fui de
todo bajoujo.
Contou-me, depois, José Parada que D. Maria José de Portugal, a luveira,
havia sido requestada, para casamento, de homens não só abastados, mas
tambem fidalgos da raça cavalleirosa e da industrial, e até--o que mais
importa--de litteratos.
--Não duvide vossê--proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a
incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento,
quando são de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende
acolchetar-se na alma d'uma mulher.--Não duvide--insistiu Parada.--Eu
não faço romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude
em quanto a não palpo e lhe não sacudo a poeira dos preconceitos; mas se
chego a convencer-me, o systema de duvidar não póde tanto comigo, que,
por amor de seita, hesite em crer que ha princezas não refesteladas em
almadraques de setim, princezas que não disputam ás nações pobres a
enxerga dos desherdados, para quem o dormir é a consolação da fome.
D'este phraseado bem é de perceber que o meu interlocutor não erguia mão
de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso
sedicioso.
Não inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria
José de Portugal; quanto, porém, aos concorrentes litteratos, desejei,
por affecto á classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se
aparentarem tão affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o
meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um
redactor do _Jardim das Damas_, charadista historico dos almanaks de
Castilho. D. Maria José havia recusado as mãos d'estes litteratos pobres
assim como já tinha recusado os pés d'alguns capitalistas.
E acrescentou José Parada:
--Um homem que morre por ella é aquelle Raul que lá ficou na loja. Ali
tem vossê um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura é
correcta, não acha? Dá jantares, e empresta dinheiro aos convivas
insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres,
que o amam, são tantas como as abelhas á volta d'um favo que tem dentro
a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que
mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga
delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhões do conde
de Baldaque. Não é isto, em tempos de infame positivismo, um caso
assombroso?
E concluiu emphaticamente:
--Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avós aforados, não se
desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com
a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, não é de espantar que a
obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a
sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe
que desprézo o prejuiso das distincções, posto que procedo de avós
honrados no serviço da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos
alam o espirito ao de cima das idéas villissimas d'esta quadra de
chatins, eu me curvo então, repassado da religiosa reverencia, e
comprehendo que a nobreza das indoles não é phantasmagoria obsoleta;
será antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a
sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinação
explendida dos milhões.
--_Puff!_--disse eu entre mim--ou mais exactamente, disseram dentro de
mim o pedaço do Falstaff ao pedaço do Sancho.
Aquelle _puff_, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer
dizer: «Bem me fio eu em ti e n'ella!»
II
PERFIL DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES
Personne de servile condition et de race servile.
AMYOT, ALCIB., Vers. de Plut.
Tudo quanto este homem arengou me pareceu acertado.
A luveira não se me delia da idéa.
Ao outro dia fui lá, resolvido a derrear bastante o estylo, de feição
que me não ficasse canhestro comprar, nem a D. Maria José de Portugal
vender, seis collarinhos. Por onde, a toda a luz se mostra com que
innocentes intençoens lá fui.
N'este proposito mercantil, entrei; mas, feita a cortezia, não pude
aparrar a linguagem ao raso de um freguez de collarinhos.
Não se póde. Um homem capaz de aconsoantar uma quintilha, não sabe
regatear com damas camisolas de flanella. O que logo lembra, em
presença da filha de um principe, se ella é bonita, e os amores lhe
esvoaçam á volta da regia fronte, é a mandóra dos provençaes, o
enamorado Macias, as trovas suspiradas no harpejar do bandolim, á
barbacan do castello, ou mais dentro, se é possivel.
Assim foi que nossos decimos avós, se eram menestreis e cytharistas,
procederam com as filhas e açafatas dos reis, não contando com as
portuguezas, tirante as inspiradoras de D. João da Silva[1] e
de Bernardim Ribeiro--que as restantes princezas saíram todas muito
descaroadas de poetas, de theorbas e cytharas, bem que a musica foi
sempre bemquista dos nossos monarchas, desde D. Pedro I, que tangia
trombeta bastarda, até D. João IV, que tocava tudo, compunha motetes, e
escrevia livros ácerca da musica. E, se D. João V não exercitava
pessoalmente a formosa prenda, folgava de ouvir retroar os cento e
quinze badalos do carrilhão de Mafra, que comprou por mil e trezentos
contos de reis. Depois, encontramos o snr. D. João VI cantando psalmos
entre os seus frades; e, hoje em dia, o snr. D. Luiz I, basso
primoroso, revive os saraus melicos da sala da Ajuda, como elles foram
em Queluz, quando, na orchestra real, regida por David Peres, se viam as
loiras infantas de Bragança tocando rebeca.
Revertamo-nos, em boa hora, ao conto.
Estava a dama lendo a _Nação_. Depoz cortezmente a gazeta para me
attender. Pedi-lhe que por minha causa não interrompesse leitura tão
lenimentosa para as dores do seu filial coração. D. Maria José,
penhorada por estas suaves expressoens, fitou-me brandamente e murmurou:
--Mal sabe......
--O quê, minha senhora?
--Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas
inuteis, que fariam até sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes......
Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram então em
plangentes melodias de coisas, de que não tomei apontamento; porém, taes
e tão insinuantes lh'as influí no animo, que vinguei merecer-lhe
confiança e desafôgo de sentimentos circumspectamente abafados.
Esta confiança, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir,
interpoladamente, revelaçoens que vou compendiar, de mistura com
esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura.
D. Maria José havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o
snr. D. Miguel de Bragança, rei n'aquelle anno. Sua mãe tinha sido D.
Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza,
nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de régia plana por
bastardia, como ao diante se dirá. Vivêra D. Maria em companhia de sua
mãe, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, até á edade dos quinze
annos. Lembrava-se de sua mãe ter carruagem brazonada, librés, e
relaçoens de grande posição na aristocracia; e, em meio d'esta
disfarçada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de
dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante.
Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas depós outras;
que a sege foi vendida; que os convivas rarearam á mesa; que os hospedes
da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa
desbalisada de sua mãe, senão duas senhoras de baixa origem que a não
desampararam até á morte.
Lembrava-se tambem de que sua mãe, nos derradeiros annos da vida, abrira
um hotel; e, n'essa posição decahida, morrêra.
A morte de sua mãe não sabia ella dizer se foi natural, se violenta.
Conjecturava, porém, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um
frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese
confirmada pelo caso de sua mãe, na véspera do dia em que se finou, lhe
haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe não podia legar outro
patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a
elevassem sobranceira ás primeiras senhoras de Portugal.
Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel--cartas que ella me não
mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo
melindre.
Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orphã,
que então vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os,
passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram
aos funeraes de sua mãe.
Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaçoens de
sua casa, participando-lhes que estava orphã. Contava ella que cada
palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella
mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um
agiota de raça judaica e humilde extracção que devia, não sabia ella
como, a sua prosperidade á mãe, de quem havia sido escudeiro, mordomo,
ou coisa assim.
Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a
deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante
mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a não podiam
alimentar e vestir sem sacrificio.
Aos desoito annos, D. Maria José alcançara notaveis conhecimentos
litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e
accommodadas ao seu sexo.
N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando á filha
de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripçoens e um
predio pequeno na rua Nova da Palma.
Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a
casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a
tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem
consolaçoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua mãe, e a
penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas.
N'aquella doentia compleição havia que receiar quebra de juizo por
excesso de sensibilidade, ou morte prematura.
Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe
da filiação. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico
e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda
assim, forcejaram debalde por vêl-a.
D. Maria José, ao abrir da manhã, em dias santificados, ia á missa
d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso sairía da cama
para vêr a propria Semiramis. Á casa da Rua Nova da Palma entravam
apenas as duas amigas de sua mãe, conhecidas pelas Picôas, e presumidas
descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porém, estas
duas irmãs, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada
das Picôas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua mãe ama
sêcca dos fidalguinhos.
Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda
e Euphemia asseveraram--por lh'o haver affirmado a mãe com tal qual
competencia, ao que é de suppôr--que o pae d'ellas não era o ferrador;
mas sim um monsenhor parente da casa. Não me recordo bem se diziam
monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este
livro, se alguma vez a verdade gretar, é involuntariamente. Assim que
me pruem escrupulos, coço-os com a rectificação. Escrever para a
posteridade é assim.
Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos já
pennugentos de buço a casa de D. Maria José; e uma d'ellas, D. Rozenda
Picôa, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevão Galhardo, levava
comsigo um filho já barbaçudo que dizia ser litterato-politico, e se
chamava Victor.
Este sujeito é quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes
espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e tão a miudo e encarecidamente
o fazia que sobrava rasão a desconfiar que elle, amando honestamente D.
Maria, queria subir pelo estribo do avô ao cavallo branco do timbre
ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao _banco de pinchar_, para
não ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, mãe
d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber á princeza que
as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o
hymeneu de Victor e Maria.
É certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira
repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a
desaffronta além do silencio.
Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu
no Chiado, com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao
nome o sobrenome _Hugo_, crendo que o chamar-se _Victor_ era
predestinação que o fizera sahir já republicano da pia: e d'ahi o
assanhar-se contra os monarchas, á imitação d'aquella sublime vêspa que
zunia estrophes demagogas em Gersey.
Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de
javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem,
nas prosas d'elle, as testas coroadas não eram tratadas com mais
caridade que a syntaxe.
No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do
rapaz, diziam que não admirava raivasse tanto contra os nobres quem era
filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos não haviam pagado os
remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos não haviam pago as
ferraduras.
Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forçou a
mãe a declarar pelos prélos que seu defunto marido não havia sido
sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; já por ser
verdade, já porque ninguem podia desfazer na palavra da snr.ª Picôa,
quanto á mercadoria do snr. João José Alves, seu marido. Pelo que
respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em attenção ás
cinzas do dom abbade de bernardos.
Manteve-se o politico, não obstante, socialista e orador de assemblêas
populares até 1854. N'este anno, porém, ahi por maio, quando as arvores
florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos
ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo
José Alves invadido d'amor.
Se não amaria! Era maio portuguez, sasão de paraizo terreal, em que a
todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na
primavera.
Notou-se então no paiz, e particularmente desde o Chiado até ao Rocio,
que o Hugo da travessa do Estevão Galhardo gorgeava umas endeixas
passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que
trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que
dissera em dous versos:
Eu hei-de avassallar os reis ao genio,
E pol-os histriões sobre um proscenio,
E... etc.
Elle, que escrevêra aquillo, vinha agora offertando a uma
_mulher-rainha_ a monarchia da sua alma, á similhança de Filinto
Elysio que offerecêra a sua em dous versos de um soneto salobro como
infusão de chicorea:
Nise gentil, que até á sepultura
Terás d'esta minh'al_ma a mona_rchia...
(Não podia deixar de ter a drastica _mamona_ o verso).
Por algum tempo, o filho de Rozenda conciliou a mansidão de bardo
amoriscado com as fumaças de publicista revolucionario; mas, por 1855,
encontra-o a historia litteraria e politica da Europa a desviar-se
notavelmente da vereda do Hugo, que lhe havia de ser bussola entre o
Marrare-das-Sete Portas e o templo da memoria, se elle antes não pudesse
trocar o nicho perpetuo do Pantheon por um logar vitalicio de aspirante
de alfandega de raia sêcca.
Este genio, cujas guedelhas serpejavam, revoltas e besuntadas, como
idéas a espumejarem-lhe do cerebro á feição do muco esverdinhado que
esvurma das fauces de um chacal, revirou-se com effeito, perguntando ao
governo se era decoroso que a um filho do snr. D. João VI--a um rei
vencido e exul, se roubasse perversamente o seu patrimonio.
«Á casa do infantado, ao pão do proscripto, que lhes fizestes, ladrões?»
bradava Victor Hugo José Alves no seu periodico socialista.
E acrescentava:
«Roubastes o throno, desterrando o principe espoliado, como em
encruzilhada da Calabria. Não vos bastava a usurpação de um titulo?
«Roubastes o altar, expulsando os seus ministros mendigos. Não quizestes
que sobrevivesse no cenobio um só homem de bem que testimunhasse os
vossos latrocinios!
«Salteadores!
«Á barra!
«Aos tribunaes! aos tribunaes!»
N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que
o da Lucrecia de Collatino.
O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o
martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de
gloriosos ferros, e nas custas.
É o que elle queria.
Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios
antigos tinham os cem bois: _hecaton_, cem: _boûs_, boi. (Lardo de
erudição que não fecha as portas da academia a ninguem). Queria a
hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora até ao Limoeiro, para depois,
nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no coração de D. Maria. O
carcere sorria-lhe como um templo em que, velando as armas, sairía
de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotára,
apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do pão
barato.
Declarou-se. Ousou remetter directamente á neta dos Braganças o
manifesto nem sempre humilde das suas aspirações. Estabeleceu confrontos
de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor.
Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a
alliança do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um
duque de Bragança. Bem é de vêr que o filho de Rozenda ousava
equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se
producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistér e a ama sêcca dos
condes de Povolide.
E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o
fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal
solicitavam á competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados,
uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo José Alves,
a medir-se com as graças plasticas do garboso môço de quem um principe
prussiano escrevera isto:... «O marquez de Loulé, com os vestidos dos
grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham, ou o
bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse
portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha
enlouquecido tantas cabeças femininas...»[2]
Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor
cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida
fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos ás plantas do
rei legitimo, pudesse exclamar: «Pae, e senhor!»
«Para servir-vos, braço ás armas feito;
Para cantar-vos, mente ás musas dada.»
Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as
mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos.
III
D. ROZENDA
Dizem que disse assim.
BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moça.
D. Maria José de Portugal, bem que muito grata ao denôdo civico do
litterato, não entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem
pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de
regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar á razão de 800 reis a
publicistas de maior pôlpa.
Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela
mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem
aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as
mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam, por isso, nas
borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;--que não
podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino,
principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripção,
usurpadora do throno, não podéra usurpar direitos sobre a alma de uma
filha que o respeitava e adorava. _Etc._
Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz
que as paixões amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista.
Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chiméras de castas,
combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a
procedencia visigothica de seu avô D. Guterres Pelayo, e o parentesco
ainda não safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragança
e os condes de Povolide.
Maria não replicou, retransida de espanto. Sua mãe havia-lhe dito que as
duas irmãs estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide,
e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os
seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o
parentesco de Victor Hugo José Alves com a casa real.
Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D.
Guterres Pelayo, perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor
motivasse aquella abstracção.
A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera
coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razão alterada.
Pediu explicaçoens a sobresaltada mãe.
Hesitou algum tempo D. Maria José; mas, obrigada pelas instancias,
mostrou a carta.
O carão da viuva, já enfiado de susto, ganhou côres quando viu, no
contheudo da epistola, o infundado medo da menina.
--Ai! não se assuste, snr.ª D. Maria José...--disse Rozenda velhaqueando
certo pudor no tregeito das maxillas--Meu filho está muito em seu
juizo... Elle diz a verdade...
--Como?--tornou D. Maria José espantada--Pois a snr.ª D. Rozenda é
parenta da casa real?!
--Sou, sim, minha senhora--volveu a filha do ferrador, baixando os olhos
com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da
mãe. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esôphago, e rolando os olhos
na direcção do céo, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae:
--Perdoae-me, minha santa mãe, se offendo a vossa memoria!
E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma,
continuou:
--Minha mãe era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde
tinha já estado tambem minha avó, que era sobrinha de uma ama de leite
que creou um filho da freira d'el-rei D. João V, a qual freira se
chamava por signal a Garça, e o menino chamava-se Antoninho. Não sabia
d'estes amores do rei com a Freira, snr.ª D. Maria?
--Ouvi contar...--respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta
fraqueza do seu quarto avô.
--Talvez não saiba uma coisa que minha bisavó contou a minha mãe... E
era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saía de lá até á
portaria debaixo do pallio com a abbadeça atraz e mais a communidade.
--Não me conte similhante desatino, que isso é calumnia!--acudiu a neta
do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.--Affligem-me...--tornou D.
Maria molestamente nervosa--Affligem-me essas funestas e deturpadas
paginas da historia de minha familia.
--Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora--observou ethnographicamente
D. Rozenda Picôa.--As freiras tinham enguiços que enfeitiçavam toda a
fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha--perdôe-me
a expressão, que não é muito civilisada. E então o snr. D. João V? Isso
era um ratão! Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de
differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha
avó que os poz todos ao serviço da egreja, fazendo-os inquisidores, e
arcebispo um d'elles, chamado o _Flor da Murtha_. E os amores que elle
teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte...
--Acabe com isso, snr.ª D. Rozenda!--interrompeu D. Maria José offendida
pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de
S. Roque.
--Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha
contando, minha mãe foi educada em Odivellas com uma freira muito
pronóstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o
prégador da casa real, o padre José Agostinho de Macedo, muito amigo do
seu paezinho. Ora minha mãe casou com um sujeito que ella imaginava
cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que
namoravam as freiras; e, só depois que casou, é que soube que elle era
estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a
embaçadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo
rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pôr
casa e sege em Lisboa! Emfim, não havia remedio a dar-lhe. Resignou-se
com a sua sorte, e foi viver ás Picôas no palacio onde estava o
impostor do homem. Minha mãe era tão querida das fidalgas que até a
levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da
casa e de fóra perseguiam-na de dôr de ilharga, perdôe-me a expressão,
que não é muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido
andava á gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As
mulheres não são santas, não é verdade, menina? Minha mãe era uma
perola! Ai! que anjo do céo aquelle! Já não nas ha d'aquella raça!
Resistiu ás tentaçoens, passante de dois annos; mas, por fim, o coração
desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se!
Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dôr, e continuou:
--Depois d'aquella desgraça, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da
egreja, que morreu d'apoplexia, na véspera mesmo de um sabbado em que
tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irmã
Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herança em harmonia com o
nosso nascimento.
Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas
espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com
suspirosas intercadencias:
--Minha pobre mãezinha morreu de saudades de meu pae... sim, de meu
pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu
primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de
bambochata. Achei-me sósinha com minha irman, tidas e havidas na baixa
conta de criadas de nossas primas. Esta posição não se dava com a
nobreza do meu sangue. Quiz vêr se me admittiam como criada ordinaria do
paço. A mãezinha de v. ex.ª, que tinha então muito valimento, e nós
conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do céo, a
passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por nós; mas não havia
logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse
a côrte, fôsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste
comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em
sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra logração como a que levou minha
mãe que Deus haja! Ora oiça, menina. O meu esposo, desde que os
chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de
Christo, não quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos
caixeiros, que nos roubaram; e, á volta e meia, foi-se tudo, e aqui
fiquei eu viuva, na flôr da edade, com o meu Victor no berço, e... quer
saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas
cacetadas que meu marido dizem que dera nas eleições!
D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o
lenço, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido
semblante:
--Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e
bonita, sem amparo de alguem, senão da snr.ª D. Marianna de Portugal,
sua mãezinha, que nos valeu em grandes apêrtos...
--Não esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...--atalhou D.
Maria José--Está bom, está bom, conversemos n'outra coisa...
--Tudo isto que eu disse--volveu a viuva do pedreiro-livre--veio a
proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avós são
parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle é meu
filho como de facto é, ninguem póde duvidar que nobreza não nos falta...
assim nós tivessemos dinheiro, não acha?--E ajuntou sorrindo e
festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:--Socegue,
menina, socegue que meu filho não está doudo nem para lá caminha. O que
elle aqui diz na carta é verdade pura, e bem certa estou que foi a
paixão que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano
e nunca se lhe importou com os avós; pelo contrario, quando eu lhe
contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e até uma vez
lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fôsse
fidalga por ser muito burra.
D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim
tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propôr
francamente o enlace com o filho.
Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu
por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso:
--Ella não quer casar com o nosso Victor... tu verás... Enfeita-se para
o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu não
venha a pôr-lhe a calva á mostra... O folheto ainda ali está na gaveta...
--Ó mulher!--accudiu Euphemia--não me falles no folheto, que já foi a
causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram
é falso... Não mettas a tua alma no inferno! Deixa-a lá casar com quem
ella quizer.
Ora este folheto...
A seu tempo.
IV
O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO
Da vara de Epicuro idoneo porco.
HORACIO, Epist., Liv. 1.
E o litterato, como a filha do infante lhe não contradissesse a linhagem
realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o coração ardente, pediu
explicaçoens á mãe, que lh'as deu, senão lisonjeiras, inoffensivas do
seu orgulho.
Era muito para lastimas vêr aquelle rapaz tão soberbo dos desaforados
brazoens que lhe procediam da deshonestidade da avó! Tolejando chimeras
da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que,
mezes antes, desvelára em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe
trepar aos hombros sordidos para de lá ser visto. E ahi, no atascadeiro
da escumalha social, era elle mais nauseativo, porque toda a gente
limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.
Operou-se, todavia, notavel mudança no genio e costumes de Victor Hugo,
restituido á liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo
absolutista acarearam-no ao seu gremio, ás suas assemblêas clandestinas,
ás suas novenas secretas, e á sua maçonaria, se tal nome quadra á ordem
de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se
_Fuas Roupinho_--nome de guerra.
Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva
gratidão, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas
distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam
cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse
aurora de esperança na longa noite da sua saudade filial.
Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que
melindrosamente escrutasse o coração de D. Maria José, não se via lá.
Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos,
prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confiára-se aos lances do
acaso, ás transformaçoens do tempo, á versatilidade femeal, e, em fim, a
um imprevisto rapto de amor, não raro em peitos sensiveis das senhoras.
Outra coisa agora.
Não é vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas
novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em
substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima
dynamisação de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto
cuida que elles não comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo
systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas
brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.
Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas
phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de
se alimentarem.
Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me hão de malsinar
de immortalisador de bagatellas com egual razão da que apódam Camoens
por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de não se
ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas
feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem não saber que a pimenta, o
cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o
patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razão explicativa, está para
Victor Hugo José Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da
Praça da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.
Não me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o coração, e com o
outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle
se nos estadêa vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos
restaurantes da capital. Não era elle assim quando esbombardeava contra
o altar e o throno. Parecia querer então inculcar que se vestia na
«feira da ladra» e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras
humanas atirára os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a
carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas
hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito
ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devéras lhe doia
desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este
requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio.
A sua alimentação predominante era alface, espinafre, e a fava em grande
cópia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era
elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio ás funcçoens do
intellecto. Em compensação, comia á tripa fôrra pescadinhas marmotas
em razão de abundar no peixe o phósphoro que é grande parte na
estructura do cerebêllo.
Afóra as indicaçoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por
intuitos de ordem assás psycologica e social. Como o seu proposito fôsse
caldear e refundir o genero humano, recuando-o á simplicidade dos
costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do
_fillet-aux-trouffes_ á bolota crua, affrontando com selvatica
heroicidade os appetites, as cubiças, as fomes, as tantalisaçoens que
separam Apicio de Epicuro.
Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado.
Da cabeça revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionára,
estourava-lhe a idéa com umas fulguraçoens indicativas de excesso de
phósphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor ás praxes
triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira--como elle
dizia--manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos _ad odium_
contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones
da logica--coisas crassas e sandias--asseverava elle que tinham sido
ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio
da orelheira afeijoada.
Além da injuria que Victor Hugo José Alves irrogava á grammatica, aos
frades e ás vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de
phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e
bois que semanalmente eram espostejados nos paços, depois de haverem
atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas
brigantinas. O disparate da censura faria rir á desgarrada os ouvintes,
se a cara do orador não estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto é para
sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraçoens
acendidas pela superabundancia do phósphoro. Segundo elle, a sanguinea
lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros
do sangue enriquecido pelas carnes esmoídas nos vinhos seculares.
Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista
civil. Era então o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e
assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim
admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da
felicidade do povo, tinha visto uma visão de sete vaccas magras
escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror não seria
escorreito, se elle depois não acrescentasse que as vaccas magras
eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia!
Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena
cossada, e do phósphoro dos safios e caçoens.
Como se fez por fóra a transfiguração que mal pode explicar-se pelo
reviramento do espirito?
A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da
abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a
luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do
Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre
tudo, a nutrição--quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda?
O chamar-se _Fuas Roupinho_ politicamente, o afivelar a espora de
cavalleiro da Ala, não nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas
contra sarracenos, se apossasse christãmente do thesouro de algum rei
mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para
arraçoarem no presepio o futuro continuador da _Besta esfolada_, tambem
não é racional, attendendo á pleiada de talentos que lá reluzem com
habilidade para mais.
Então que era?
V
O CORAÇÃO DE D. ROZENDA
_Agnosco veteris vestigia flammæ._
Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa.
VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23.
Estava um dia D. Maria José de Portugal lendo a _Nação_, e de subito as
lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma
invocação aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais
compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho
de D. João VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do
visconde de Arlincourt, não tivera em Roma com que comprar o leite para
o almoço.
Da concentração lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes
de alegria desacostumada, exclamando de golpe:
--Como é bom ser rica!
E, feita breve pausa, acrescentou já menos expansiva:
--Rica!... eu não sou rica!... mas em comparação de meu pae, tão pobre,
tão infeliz, tenho muito!
Em seguida, escreveu a D. Rozenda Picôa, annunciando-lhe _a primeira
radiação de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar
os seus anhelos_.
A mãe de Victor, lendo a carta, disse alvoroçada á irman:
--Tenho nora!
--Tens nora? exclamou Euphemia--Então diz-t'o? ella quer?
--Não se explica bem; mas eu já lhe entendo o palavriado. Ouve lá, mana.
E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para
emfim interpretar complexamente que D. Maria José de Portugal se achára
de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava
_anhelos_.
--Essa palavra _anhelos_--observou D. Euphemia, arregaçando o beiço de
baixo, com o dedo indicador--parece-me que é isso mesmo que tu dizes,
mana Rozenda... Não te lembras... ora pucha pela memoria... não te
lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel de lanceiros
quando ficaste viuva? Chamava-te _meu anhelo_.
--Não era o furriel--corrigiu Rozenda.--Quem me chamava seu _anhelo_ era
o Peixoto.
--O capitão da carta? Tens razão; era esse... Pois dizes bem; o que ella
quer dizer é isso. Anhelo é amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me
estou a recordar de não sei quem que me dizia que eu era os seus
anhelos, ou anhelitos... Não sei se era aquelle tenente de marinha que
nos deu de almoçar na barcaça dos banhos, se era o Januario da rua dos
Fanqueiros...
E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom: