II

Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume,

quatro da tarde.

Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a

visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite

antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente

commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social;

todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão,

distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no

bolso do paletot.

Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do

carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a

curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel

si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado

uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão

arrastava.... Ia dizer a _aza_, mas isso seria anachronismo; dizia-se no

tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se _arrastar

a juba_; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é

enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.

Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que

Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque,

lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o

que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de

senhora; mas não fizera grande reparo.

Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu

aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o

objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou

um exame consciencioso.

Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e

sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de

ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob

a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e

torquez.

Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva

delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os

debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na

pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e

muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua

primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante

uso.

Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor

aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as

obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella

peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro

escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa

minima circumstancia.

Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste

mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de

quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando

o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva

graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão,

como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas.

Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita;

fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma;

perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A

botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda,

que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr,

ondas suaves.

O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o

fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de

essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura

exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira

através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa.

De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez

estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão

aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não

podia ter um numero maior do que o de seus annos, _vinte nove_!

--Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado.

Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou

docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da

concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns

instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o

semblante de Horacio.

--É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes

evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna:

no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o

animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a

tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se

rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda

nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época

da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a

arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos

e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se

geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se

inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que,

depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o

velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse

cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude.

Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as

mãos.

--A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não

está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao

meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella

attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o

quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para

desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que

ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina,

aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de

levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto

cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino

gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a

ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a

larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o

ventre, este com a aza.

Horacio sorriu.

--Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola

apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão

descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu

sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa,

como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a

mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando

germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento

de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o

andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é

o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do

anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é,

finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor,

do amor unico ambiente do coração!

Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que

lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio,

que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de

leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e

muito crespo.

--Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher;

não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu

naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um

arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida,

embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de

côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra

que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é

sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que

parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.

Horacio voltou a botina.

--Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de

cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que

amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que

me arrebata, que me enlouquece?...

Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina,

inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era

essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?

--Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente

Horacio, sentindo a realidade da situação.

Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa

gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A

lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava;

mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração.

Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem!

Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem

o reconhecesse.

--Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu

adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?

O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe

tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das

bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.

De repente ergueu-se d'um impeto:

--Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se

prometteu o imperio da Asia.

A Pata da Gazella: romance brasileiro. · 第 7 / 23 题