B. L. Garnier.--Rua do Ouvidor n. 6

1870

INDICE

CAPITULO I

CAPITULO II

CAPITULO III

CAPITULO IV

CAPITULO V

CAPITULO VI

CAPITULO VII

CAPITULO VIII

CAPITULO IX

CAPITULO X

CAPITULO XI

CAPITULO XII

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

I

Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda

victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.

Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma

presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de

talhe, era talvez mais linda que sua companheira.

Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das

compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.

--Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.

--Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta

passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era

desenhado por um roupão cinzento.

O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido

contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão,

recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças,

onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.

--O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento

de impaciencia.

--É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.

Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da

carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum

ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada

pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro

agalloado.

Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento,

e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da

carruagem, murmurou:

--Laura!... Laura!...

E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.

--O que é, Amelia?

--Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.

--Que tem isto? disse Laura sorrindo.

--Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A

quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?

--Volta-lhe as costas!

--Vamos para diante.

--Como quizeres.

Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso

a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e

passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para

contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.

Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes

naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta

fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo

e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de

Amelia.

Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á

direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e

sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento,

recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se

naquella ardente contemplação.

O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros

valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de

aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.

Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na

terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi,

brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes,

fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma

exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar,

um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr

extremo.

O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado,

não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas,

e na magoa que lhe escurecia a fronte.

Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada.

Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma

labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se

impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de

um ligeiro pesadello.

Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação

apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que

frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o

corpo com vivacidade:

--Emfim; ahi vem!

--Felizmente! disse Amelia.

O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de

papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos

envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.

Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo

da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:

--Vamos! vamos!

Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de

apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o

embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo

da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um

instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a

corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na

occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.

Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das

mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel

desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da

victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito

alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com

estas palavras de contrariedade:

--Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!

Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os

parallelepipedos.

Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um

moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua

pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do

Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que

não tinha usurpado o titulo.

O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e

percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se

dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não

visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o

aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.

Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto

de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são

apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a

monotonia das relações habituaes.

Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a

rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno,

como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem

pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de

fazendas; talvez tivesse ahi feito compras.

Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta

que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no

bolso e seguir seu caminho.

A Pata da Gazella: romance brasileiro. · 第 6 / 23 题