Questões do Pará

Com este titulo acaba o sr. Gomes Pércheiro de publicar um livro, que

hade ser lido com soffreguidão em Portugal e no Brazil. Chegado

recentemente do Pará, onde esteve envolto na lucta que ali se trava, o

sr. Gomes Pércheiro conhece perfeitamente a historia das questões, que

trazem acceso o animo dos paraenses. Delegado de uma agencia

telegraphica, tinha, por obrigação de officio, de investigar os

successos, de lhes averiguar as causas, de penetrar emfim nos segredos

d'essa guerra cruenta e infame que um grupo de brazileiros está movendo

aos portuguezes que vão ás terras de Santa Cruz procurar hospitalidade e

trabalho.

As suas revelações não pódem portanto deixar de ser curiosas, e nós

lemos o livro com o maior interesse. Empenhados ha muito n'uma lucta

energica contra os propagandistas da nacionalisação do commercio, tendo

seguido ha dois annos as peripecias da guerra movida no Pará aos

portuguezes, muitas vezes lamentámos não conhecer os fios secretos dos

tramas, cujas manifestações exteriores de longe presenciavamos e

condemnavamos. Era tão desnatural aquella guerra, eram tão oppostas aos

principios hoje admittidos geralmente em todo o mundo civilisado as

idéas apresentadas pela _Tribuna_, que muitas vezes procurámos ler nas

entre linhas do ignobil pasquim uma indicação que nos revelasse qual era

o motor secreto da sua propaganda, quaes os verdadeiros intuitos d'essa

cruzada absurda e ridicula.

O livro do sr. Pércheiro conduz-nos aos bastidores d'esse theatro, onde

infelizmente não se representa só a farça em que Arlequino e Pulcinella

e Pantalon são Marcellino Nery, João Cancio e Romualdo, onde tambem se

representa a tragedia de Jurupary, onde o sangue inunda o tablado, onde

scenas de deploravel selvajeria espantam quem das praias do velho mundo

contempla ao longe esse estranho e imprevisto espectaculo.

No livro do sr. Pércheiro fructo de rapida e febril improvisação,

sente-se ainda todo o ardor do combate, o vigoroso resentimento de quem

não conta só infortunios e aggravos alheios, mas que sabe tambem por

experiencia propria quanto doem a calumnia e o insulto, vibrados por

quem devia acolher o estrangeiro que trabalha com a hospitalidade que

hoje em parte nenhuma se lhe recusa. O sr. Pércheiro foi effectivamente

uma das victimas da _Tribuna_. Contra elle teve sempre engatilhados o

orgão dos nacionalisadores os seus mais torpes improperios. O seu nome

era um dos que voltavam em todos os numeros do jornal de Marcelino Nery

lardeados de injurias. Deve honrar-se com isso o sr. Pércheiro; uma

verrina da _Tribuna_ vale mais do que trinta attestados de bom

procedimento moral, civil e religioso.

Historiando as questões do Pará, o sr. Pércheiro, se não póde evitar que

o seu livro cheire a polvora, por assim dizermos, se não póde cohibir

violencias de estylo, que a sua situação amplamente desculpa, mostra

comtudo o desejo de ser imparcial, e verdadeiro, porque esteia a cada

passo a sua narrativa em documentos que a comprovam, e os capitulos

puramente historicos do livro quasi que se compõem de extractos dos

jornaes paraenses, onde podemos seguir, dia a dia, o desenvolvimento dos

successos.

Nos capitulos em que trata de analysar a situação dos portugueses e a

attitude dos brazileiros, é certo que por mais de uma vez se sentem as

represalias de um espirito ulcerado pelas injustiças de que foi victima,

as coleras de uma alma patriotica offendida no que ella tem de mais

caro, o bom nome, o pundonor e os brios da sua terra natal. Os

jornalistas insultadores que escrevem á solta no Pará não atacam esta ou

aquella parte da população portugueza, aggridem collectivamente o nosso

paiz, no seu presente, no seu passado, nas suas instituições, no seu

caracter nacional.

Difficil seria portanto a um escriptor portuguez, que esteve no Pará

envolto na lucta e que recebeu em cheio esses insultos vibrados á sua

patria, responder com a moderação á violencia, e pagar os vituperios a

Portugal com os louvores ao Brazil. A propria injustiça era desculpavel,

e comtudo o sr. Pércheiro procura não ser injusto. Não sabemos o que

haverá de exageração apaixonada no que o sr. Pércheiro diz da educação

dos brazileiros.

Nós não desejamos acompanhal-o a esse terreno, nós que sempre procurámos

marcar bem a distincção entre a população brazileira, generosa,

fraternal para nós, ainda que nem sempre isenta de antigos preconceitos,

da tribu de insultadores e de assassinos que formam a escoria do Brazil,

e que não pódem com justiça ser considerados como os representes de um

nobre paiz.

Mas ainda que admittamos que haja n'esses capitulos a apaixonada

exaggeração, que é ainda como que um echo da pugna a todo o transe, em

que o sr. Pércheiro esteve envolto, não podemos deixar de reconhecer que

ha ali revelações que teem um grande cunho de verdade, e que explicam

muitos factos que aliás seriam incomprehensiveis. O odio aos portuguezes

é tradicional no Pará. Ha mestres que o incutem no animo das crianças.

Ha familias que o legam aos seus filhos como um deposito sagrado, e

assim se inocula no animo das gerações novas um sentimento absurdo e

vil, que prepara os leitores fanaticos da _Tribuna_, e os assassinos de

Jurupary.

Em resumo o livro do sr. Pércheiro respira todo o ardor da lucta,

sente-se n'elle impresso o cunho dos resentimentos, ouve-se ainda o echo

das violencias do combate, mas é no fim de tudo um livro fluentemente

escripto, e que não póde deixar de ser consultado por todos os que

desejarem conhecer a historia d'essas deploraveis questões, que tem sido

fataes aos nossos compatriotas, fataes tambem á prosperidade do Brazil.

São por assim dizer as memorias de um combatente, que foi testemunha

occular, testemunha bem informada dos factos que narra, e que em

Portugal só são muito perfuntoriamente conhecidos.

Se essas revelações impedirem muitos dos nossos compatriotas de ir

procurar fortuna em tão inhospito paiz, terá o sr. Pércheiro prestado a

Portugal e aos portuguezes um verdadeiro serviço.

_Pinheiro Chagas._

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Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 157 / 176 题