É um livro ousado, atrevido, abertamente, francamente verdadeiro, como
não estamos costumados a ler muitos na nossa terra. As cousas mais
graves e melindrosas dizem-se ali sem reticencias equivocas, sem rodeios
covardes: os factos são narrados na sua cruel nudez, as pessoas
apontadas com desusada e corajosa valentia.
Em todo o livro respira-se a franqueza rude dos tempos primitivos. Nem
mesmo os caracteres mais abjectos são ligeiramente mascarados. O sr.
Pércheiro não os deixa adivinhar, mostra-os, com toda a energia, com
toda a vehemencia, e ao mesmo tempo com toda a confiança e sangue frio
que dá a consciencia da verdade. Muitos censurar-lhe-hão a excessiva
franqueza em nome d'um _savoirvivre_ que se baseia no proloquio--«nem
todas as verdades se dizem.»--Que nunca o intrepido auctor d'esse livro
se arrependa de as ter dito. É condição humana o procurar a verdade, e
dever de todos o dizel-a. Além d'isso as verdades enunciadas pelo sr.
Pércheiro, proveitosas para todos, só para elle poderão ser nocivas.
Honra pois ao amor da verdade que vence o egoismo, á coragem que supéra
o interesse individual á indignação que esquece as conveniencias
triviaes. O livro do sr. Gomes Pércheiro é o maior protesto contra a
alliciação exploradora dos engajadores, é o mais efficaz antidoto á
febre da emigração que arranca quotidianamente a Portugal milhares dos
seus mais robustos filhos, para se estiolarem miseravelmente nas terras
doentias e quasi selvagens do norte do Brazil. Tem esse protesto a
eloquencia grandiosa dos factos e da verdade. Mostre-se bem ao homem que
vae deixar a sua patria para no sólo brazileiro ir consumir a sua vida,
o thesouro precioso da sua actividade, os annos floridos da sua
adolescencia, em busca de riquezas maravilhosas que lhe sorriem em
sonhos; o que é a terra para onde vae; o que soffrem lá os seus irmãos;
o modo porque são reconhecidos e pagos os seus trabalhos sem treguas, a
sua dedicação sem limites.
Os martyres catholicos acabaram no dia em que a sciencia arrancou do
espirito moderno as crenças do maravilhoso, que ali se aninhavam nas
trevas da ignorancia, com todo o brilho seductor dos contos de fadas.
Tirem do espirito do emigrante a miragem fascinadora que d'essas
ardentes plagas os chama pela boca dos alliciadores; façam-lhes vêr em
toda a sua verdade, em que se resume o paraizo que de longe tão seductor
é; que a emigração para o Brazil terminará immediatamente e os milhares
de braços que para ali vão cavar a terra que muitas vezes lhes é
sepultura, empregar-se-hão na cultura do nosso fertil sólo, ou irão
explorar outro sólo, tanto mais rico que o Brazil, mais hospitaleiro e
civilisado do que elle, que é nosso, e que por nós tão descurado está:
os terrenos de Africa. Ha de ferir muitas susceptibilidades, levantar
muitos odios o livro _Questões do Pará_.
Bem o sabia o seu auctor, e mais gloria lhe cabe sabendo-o, não ter
recuado. Vendo de perto a tempestade, vivendo no meio d'aquelles
tumultos continuos, que tantas vezes teem feito correr o sangue
portuguez, sem que as auctoridades brazileiras tenham força, energia, ou
vontade para obstar áquelles crimes quasi quotidianos. Soldado d'essa
campanha cruenta, que no Pará os portuguezes teem a toda a hora de
sustentar, contra o indigena selvagem assalariado pelos tribunos
ignobeis, que erguem n'aquellas paragens a esfarrapada bandeira da
reacção, o sr. Gomes Pércheiro viu, sentiu e soffreu todas as infamias
que aponta, todas as abjecções que castiga, n'um estylo incorrecto ás
vezes mas sempre vigoroso, fustigante como o chicote, lacinante como o
bistori. Foi mais do que espectador, foi actor tambem n'essa terrivel
tragedia.
As _Questões do Pará_ são paginas cruamente verdadeiras á historia do
Brazil. Talvez o sr. Pércheiro se deixe ás vezes levar pelo justo rancor
que lhe despertaram os crimes que presenceou, a indolencia que viu da
parte dos governos em os prevenir, prejudicando assim um pouco a
imparcialidade do historiador. Talvez a serenidade do narrador seja ás
vezes supplantada pela vehemencia do pamphletario. Não lh'o podemos,
porém, censurar, ao vermos que essa vehemencia nasce da indignação santa
contra os implacaveis inimigos dos nossos desgraçados compatriotas, que
nas terras do Pará morrem assassinados covardemente, vilmente, por um
bando de selvagens postos ao serviço do egoismo, da ignorancia, da
malvadez e da reacção.
O livro do sr. Pércheiro é de salutar lição para aquelles que no canto
placido e benefico da sua patria, se sentirem aguilhoados pela febre da
ambição de thesouros imaginarios; é de santo conforto para aquelles que
empenhando a vida nas luctas sanguinolentas de que o Pará tem sido
theatro, ouvem a voz energica de uma consciencia sã, bradando
eloquentemente o pró da sua causa, combatendo energicamente, até ás
ultimas trincheiras os seus terriveis inimigos.
Nas _Questões do Pará_, arrancam-se muitas mascaras, põem-se a nu muitas
chagas, desvedam-se muitas infamias que até hoje estavam envoltas nas
mais amplas trevas. É grande pois o serviço por esse livro prestado, e
nós que acima de tudo prezamos a verdade, a sinceridade e a justiça,
aguardando o seguimento das _Questões do Pará_ que o sr. Pércheiro nos
promette, louvamol-o hoje pela corajosa franqueza do seu livro, livro
que ha de ficar como documento interessante, curioso, e mesmo
indispensavel para a historia da emigração portugueza para o Brazil no
meiado do seculo XIX, e que mais que é um bom livro, é uma boa acção.
_Gervasio Lobato._
(_25 de junho._)
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