TRIBUNO POPULAR

Segundo vae referido na secção de livros, o sr. D. A. Gomes Pércheiro,

agente que foi no Pará da _Agencia americana_, publicou um livro, que

tem por titulo--_Questões do Pará_, e teve a bondade de nos offerecer um

exemplar, que muito lhe agradecemos por vir fortalecer as opiniões

sempre aqui manifestadas ácerca dos tristes acontecimentos do Pará.

Abrimol-o e lêmol-o com a anciedade a que nenhum portuguez poderá

furtar-se quando ouve fallar nas questões do Pará, e topa com um livro

dedicado a este deploravel assumpto.

Muito se tem escripto nos jornaes portuguezes, e o que estes não teem

podido referir, conhecem-n'o os que lêem as folhas e correspondencias

brazileiras. Pois tudo isso é nada, em presença do que o sr. Pércheiro

conta no seu livro.

Dos desacatos, assassinatos, roubos, insulto e outras tantas tentativas

praticadas contra os nossos compatriotas sabemos nós e sabe toda a

gente; que á testa d'esta cruzada selvagem se achava um jornal infame,

tambem não era ignorado; que emfim as justiças eram conniventes ou

impotentes contra aquelle estado, via-se pela impunidade dos criminosos,

pela repetição dos crimes e pela emigração dos nossos compatriotas, que

em massa deixavam aquellas paragens, onde á sombra de uma bandeira, que

por antonomasia se diz amiga, se deixava correr desenfreada a mais

infame violação de todas as leis, de todos os deveres e de todas as

praticas de reciproca hospitalidade.

Pois em vista dos factos, dos documentos que se encontram n'este livro,

pasma-se da horrorosa desigualdade com que os portuguezes e seus

assassinos e roubadores são tratados pelas auctoridades e justiças

publicas, sendo victima do rigor demissorio quem assim não procedesse!

Se a desigualdade consistisse no castigo dos portuguezes delinquentes,

de agradecer era, para que o exemplo aproveitasse como lição de que só a

probidade suscita respeito entre estranhos. Mas quasi se chegam a

premiar os crimes commettidos contra portuguezes, vendo-se que havia

cruzada de destruição organisada contra elles, á qual não eram

indifferentes as proprias justiças.

D'aqui deduzimos nós, e como nós em parte o auctor, que da vigilancia

dos nossos governos, da culposa e indesculpavel indifferença do ministro

portuguez na côrte do Brazil, e da quasi connivencia d'esta procede todo

o mal.

É muito recente o procedimento da Allemanha por causa de um subdito seu,

maltratado pelos carlistas, e depois por causa dos acontecimentos de

Guetaria. Pois os crimes praticados pelos paraenses contra os

portuguezes, incitados publicamente por um periodico, são infinitamente

mais do que o preciso para, se houvesse patriotismo n'este paiz, termos

rompido as relações com o imperio brazileiro, se elle não désse as

satisfações indispensaveis, garantindo a segurança dos nossos

compatriotas, e punindo os crimes praticados contra elles.

Mas o ministro de Portugal actualmente no Rio de Janeiro, desde que se

enlaçou com uma poderosa familia brazileira, tornou-se incompativel para

proceder com energia n'estes conflictos.

O auctor era agente no Pará da _Agencia telegraphica americana_;

presenceou os factos, e pelos narrar com fidelidade foi arguida a

_Agencia_ de parcial.

Mas pelos documentos officiaes, que pública, conhece-se que as

auctoridades eram conniventes, e se alguma apparecia com desejos de

fazer justiça, tinha por premio a prompta demissão, ou não encontrava

força para desempenhar os seus deveres, como succedeu com o presidente

dr. Pedro Vicente de Azevedo, e com o chefe de policia Samuel Uchôa.

Dos mesmos documentos officiaes constam declarações dos proprios

assassinos, pelas quaes se vê que as incitações da _Tribuna_ os demoviam

áquelles crimes.

Emfim as cousas chegaram a tal ponto, que um soldado, que assassinou

publicamente um portuguez, esperando-o de dia e dando-lhe um tiro,

apesar de o confessar, e o crime estar provado, foi condemnado a sete

annos de prisão simples, tendo o advogado circumscripto a sua conclusão

a pedir que a pena de morte fosse reduzida a vinte annos de degredo com

trabalhos!

Em 1857 appareceu afogado um portuguez. Querem ver a sentença que deu o

juiz municipal ácerca do desaparecimento do cadaver? Ahi vae:

«Sendo a sentença do infeliz portuguez Antonio, dada por um juiz

superior a todos os juizes, nenhum recurso existe mais; e por nada mais

poder fazer, condemno a todos os que trabalharam no presente processo a

pagar as custas em _Padre Nossos_ e _Ave Marias_ por alma do finado,

entrando n'este numero eu que já rezei o meu; e cabendo o maior numero

ao sub-delegado, e ao escrivão para não processarem os mortos. O

escrivão devolva este ao sub-delegado, deixando traslado no cartorio do

despacho de fl. 4, a 14 verso, e d'esta para ser remettida ao bispo,

quando elles não paguem as custas.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 154 / 176 题