Quando sua magestade el-rei no seu discurso por occasião da abertura das
camaras dizia em poucas palavras que o remedio aplicado pelo seu governo
na questão dos insultos e maus tractamentos praticados pelos brazileiros
nas pessoas dos nossos portuguezes fora energico e que o estado de
coisas caminhava para melhor, ficou todo o paiz persuadido que realmente
o governo brazileiro por instancias do nosso tractara energicamente
d'obstar aos maus tratamentos que os nossos patricios recebiam em todo o
paiz, particularmente no Pará.
Infelizmente sua magestade, se não foi illudido pelo governo portuguez,
foi-o de certo pelo governo brazileiro, pois que as perseguições contra
os nossos patricios continuam, e não vemos que o procedimento do governo
tenha evitado tão grande mal.
E não são de pequena importancia os sucessos naquellas longinquas
paragens, pois que os nossos irmãos não só se vêem oprimidos pelos
homens de baixa esphera e pela _ralé_ da sociedade, mas os proprios
tribunaes judiciaes mostram-se benevolos contra os assassinos dos
portuguezes. A justiça, que n'um paiz liberal está sempre superior a
todas as influencias mesquinhas, ali acha-se eivada d'um exclusivismo
condemnavel, perseguindo com o maior rigôr alguns crimes practicados
pelos portuguezes, ao passo que absolve sem o menor escrupulo os
indigenas que matam os nossos patricios.
Não são gratuitas as nossas asserções, pois que no livro do sr.
Pércheiro encontramos os seus documentos justificativos.
O clero debaixo d'uma capa hedionda, que só elle sabe envergar,
manifesta-se inimigo terrivel dos portuguezes; e infelizmente não
succede isso só no baixo, mas no alto clero.
Os tribunaes não são de certo os que menos revelam a sanha contra os
portuguezes. Artigos auctorisados d'alguns jornaes illustrados e que
reconhecem esta grande perseguição manifestam claramente a sua opinião
fazendo o parallelo entre o castigo aplicado aos delinquentes
portuguezes e brazileiros.
E d'este modo emquanto o governo portuguez descança á sombra da sua
_popularidade_ os nossos irmãos são martyrisados no Brazil!
Não fazemos extractos d'este livro, porque se os fizessemos teriamos de
transcrevel-o todo, pois que em cada pagina se exemplificam as nossas
asserções.
Effecttivamente cada facto ali mencionado é um exemplo claro e manifesto
do modo cruel por que os nossos patricios ali estão sendo tractados; e
cada audiencia que tenha em mira julgar um caso qualquer em que o
infeliz portuguez represente, é um novo escandalo de que os proprios
brazileiros illustrados se envergonham.
O sr. Pércheiro fez por tanto ao paiz um grande serviço, patenteando aos
olhos de todos as perseguições que os portuguezes ali soffrem, por culpa
do nosso governo, por culpa do nosso representante n'aquelle selvagem
paiz, e por culpa do governo brazileiro que ou não se sente com força
d'evitar os grandes malles que ainda hoje se repetem como lemos no
_Brazil_, ou não quer acabar de vez com aquella infame montaria.
Chamamos portanto mais uma vez a attenção do nosso governo para uma
questão de tal magnitude, e esperamos que sua magestade el-rei para se
não ver obrigado a repetir as palavras que proferiu no seu primitivo
discurso, mas que infelizmente não foram confirmadas, será o primeiro,
como o primeiro cidadão que é, em acabar de vez com as desgraças por que
estão passando os nossos patricios.
O livro do sr. Pércheiro é, pois um livro importantissimo e de certo fez
um grande serviço a Portugal, publicando-o.
Resta-nos agradecer em nome do paiz os grandes serviços prestados aos
nossos irmãos, e em nome da redacção a preciosa offerta com que aquelle
cavalheiro a acaba de brindar.
(_8 de junho_).
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