Hoje, quinta feira, dia do _high-life_, abro a minha sala humilde,
ignorada--sala _au rez-de-la-chaussée_, está dito tudo,--para cavaquear
com os meus amigos.
--Já leste um folhetim de Fernão Vaz? perguntou-me um amigo velho.
--Ainda não.
--Pois lê; e deu-me uma folha portuense.
--Isto é _porto_, disse eu.
--Pois enganas-te de meio a meio.
Torno a ler o nome do jornal, soletro-o ao meu amigo, e insisto--é
_porto_,--já te disse.
--Já vejo que tens o paladar estragado, retorquiu-me,--isso não é
_porto_ é _mata ratos_ d'esse que se vende, a toda a hora, na cidade do
burrié e da fava torrada.
Como o tal meu amigo tem uma linguinha de prata, calei-me e li o
folhetim de cabo a rabo ou, como diria o meu mestre de latim, _ab initio
ad finem usque_.
--Que tal?
Eu que queria desviar qualquer conversa desagradavel ao sr. Fernão Vaz,
respondi-lhe: a folha é bem escripta.
--Não te faças Ignez d'horta; que a folha é bem escripta sei
eu--tracta-se do folhetim.--Aposto que não sabes de quem me lembrei,
quando li essa estopada folhetinista? D'Antonio Feliciano de Castilho.
--Ahi vaes tu desenterrar um morto. A que vem Castilho, quando se tracta
d'um folhetim?
--A que vem!? eu t'o digo.--Um dia, certo jornalista fallava, diante
d'esse cego que via mais que todos os videntes, de um litteratiço como
muitos que por ahi enxameiam a cada canto, e, fiel ás leis do elogio
mutuo, dizia todo ancho: Fulano é inquestionavelmente um moço de
merecimento, é o _Janin portuguez_. Castilho, que era dotado d'aquelle
espirito mordaz que todos lhe conheciamos, com um surriso epigrammatico,
volta-se para o tagarella e pespega-lhe com esta nas bochechas: «Tem
razão; fulano é um moço de esperanças, é o _já-nem portuguez_.» Agora
applico: o folhetim de que tanto gostas ou finges gostar, é uma
desinteria palavrosa e nada mais.
Ao ouvir taes cousas, confesso: _vox faucibus haesit_. Tive medo: metti
a viola no sacco e deixei-o fallar.
--O teu homemsinho dá quatro piparotes na grammatica; faz quatro figas
ao senso commum e não te conto nada. Falla-nos em estudos sociologicos,
nos mais elevados problemas das sciencias economicas e da philosophia
politica, atira-nos á cara com Baudrillat, que nunca viu; com Garnier,
que não conhece e passa carta de tolo a tudo que é portuguez.
Vendo que a indignação do meu amigo subia n'um _crescendo_ vertiginoso,
não me atrevi a interrompel-o.
--Gomes Pércheiro, rapaz sympathico e estudioso, cujos sentimentos
patrioticos ninguem póde contestar, que em assumptos sobre emigração
é--um especialista--tem escripto muito e muito bem e ultimamente fez um
drama, ou antes um cauterio para curar a chaga da emigração. Queres
agora saber o que diz o tal folhetinista? «O sr. Pércheiro, porém,
tem-se contentado com o esforço de lançar _alguma luz_ ácerca do que é a
emigração.» Isto não se tolera. Pois um homem que, no dizer do teu
folhetinista, «viu as cousas de perto; _teve occasião de as ver_» (que
novidade! viu porque teve occasião) «e não se tem _cansado_ de nos dizer
o que viu» só lança _alguma luz_? Que me dizes?
--Que tens uma linguinha...
--Eu tenho linguinha?... Ouve: o teu homem, depois de fazer os seus
salamaleques aos redactores do _Diario de Noticias_, á conta do tal
elogio mutuo, sae-se com esta: «Que, diga-se a verdade, o sr. Pércheiro
tem umas certas culpas.» Pois o Pércheiro tem culpa das _concussões
d'auctoridade, cruezas das leis, gritos d'infelizes, infamias de
contractadores de colonos_, de que falla o citado auctor?!
--Mas que tenho eu com isso?
--Não me interrompas; ouve até ao fim.--O aristarco, depois de dizer que
Pércheiro é todo paixão e de lhe dar a entender que tem uma grande
dóse d'amor proprio, falla na _diplomacia do senso real das
cousas_--palavrões que ninguem percebe--e diz: «Vamos ao drama.
Intitula-se os _Aventureiros_, e agrupando... certos caracteres, que
podem dizer-se descolados da lenda sinistra de recrutamento de colonos,
etc.»--Como não assististe á leitura do drama, quero dar-te uma ideia
dos _caracteres descolados_--Um abbade que préga contra a emigração; o
sobrinho que arranca da porta da egreja um annuncio pomposo, convidando
os pobres camponezes a abandonarem a patria e o lar; um celebre
commendador _Manquitó_, typo repugnante que negoceia em escravatura
branca; uma mulher infame que seduz com mentidas promessas inexperientes
donzellas, fazendo-lhes ver um futuro brilhante longe dos seus e da
terra que lhes foi berço, etc. etc.; eis os personagens que preparam o
entrecho do drama, que lhe servem de prologo: chamar a estes personagens
_caracteres descolados_ é caso para estourar de riso!
«Francamente, continúa o crítico, o drama lido pelo sr. Pércheiro,
_excedeu_ a expectativa mais _exigente_. Ha scenas vigorosamente
traçadas, formosos caracteres... tem varios defeitos: está claro.» Não
me dirás porque está claro? perguntou-me o meu amigo.
--Porque vae rompendo a manhã, respondi-lhe eu.
--Não zombes: já ouviste que o drama excedeu a expectativa mais
exigente, pois agora ouve lá esta: «O sr. Pércheiro não é um escriptor
feito e largamente educado pelo estudo, pela leitura e pela experiencia,
nos segredos e exigencias da arte.» Se isto não é um desconchavo, não ha
desconchavos no mundo.
_Simul esse et non esse!_--_To be and not be!_ «Em summa» nota bem, «o
drama é viavel» quer dizer, atura-se «ha-de dar dinheiro... sem ser uma
exploração de escandalos obscenos.» O que aqui vae! Agora vaes ver o
gosto do critico: «Não gosto de dramas de propaganda, porque a paixão da
propaganda vicia e suplanta a verdade do drama.» Se o theatro não é
propaganda; se a rir, ou mesmo a chorar, não se castigam na scena os
costumes, não se infiltra o sentimento do bem e do amor da patria, etc.,
de que serve o theatro?
_Finis coronat opus_ e regista mais esta: «A arte não é tribuna. É altar
ou é throno. Não discute; cria.»
Entendeste? Nem eu.
E, pegando no chapéu, retirou-se aquelle zoilo da gloria critica do sr.
Fernão Vaz e eu fui-me deitar.
(A _Nação_ de 10 de janeiro.)
_Fulano d'Anzoes._
O sr. Fulano d'Anzoes, parece que não comprehendeu a significação do
dito--_diplomacia do senso real das cousas._
Nós lh'o explicamos.
O sr. Fernão Vaz, como o sr. d'Anzoes terá reparado, ama a Deus e ao
démo. O Deus que o sr. Vaz ama é uma _troup_ de... nem nós sabemos como
a havemos de qualifical-a...
No baixo imperio romano houve uns sujeitos que á emitação dos grandes
mestres, tambem faziam em publico, nos saraus _litterarios_, as suas
leituras de coisas, abórtos de rethorica e adjectivos, sem arte, sem
súco algum.
A estes sujeitos chamavam palhaços ou pantomimos da litteratura do
tempo. Na actualidade, em Portugal, tambem ha d'isto. È este o Deus que
o sr. Fernão Vaz adora; porque é este que faz o reclame á
_proficiencia_, á _capacidade_ ou ao _intellecto_ dos proselytos da
_troup_.
O démo somos nós, que nos orgulhamos de não pertencer á tal... tropa; e
ella... a tropa faz-nos a pirraça de nos não querer lá, por causa das
_nossas culpas_ e das _nossas impertinencias_... de que ainda não
começamos a penitenciar-nos nem nos penitenciaremos.
Mas por que, pertencendo Fernão á tal _troup_, nos diz que o nosso drama
_escedeu a espectativa mais exigente_? Pela mesma razão que diz que não
_somos litterato_, que o nosso drama _tem defeitos_, que elle é
_viavel_, (assim como quem não quer a cousa) e que elle finalmente, _ha
de dar dinheiro_, assim como poude dar... a _Filha da senhora Angot_ e
quejandos.
Chama-se a isto acender uma vela a Deus e outra ao démo, ou mais
claro:--chama-se a isto a _diplomacia do senso real das cousas_!
Nós desculpamos o sr. Fernão Vaz. Não se cria popularidade impunemente.
Fallar assim do nosso drama e a proposito d'elle (sic) dirigir dois ou
trez salamaleques ao seu amigo Eduardo, que por causa de uma tola
popularidade embirra com as _Questões do Pará_, _Coisas Brazileiras_,
_Commendador e Barão_, _Questão dos Chouriços_ ou _photographias
politicas_ e outras obras que custam dinheiro e que o tal coisa costuma
receber e não pagar com uma simples cortezia jornalistica, assim como
embirra com os pobres _Aventureiros_; fallar assim, repetimos, perante a
_troup_ dos _réclames_ e de mais a mais n'um jornal, cujos fundadores
vivem, mais ou menos, interessados no commercio da escravatura branca, é
conveniente, é contemporisar com a cousa, e quem não contemporisar hoje
em dia não apanha popularidade e não fica sabendo o que
seja--_diplomacia do senso real das cousas_.
O sr. Fulano d'Anzoes faz uma offensa ao sr. Fernão Vaz, quando lhe põe
em duvida a vastidão dos seus conhecimentos economicos e o seu contacto
com Baudrillat e outros economistas, não esquecendo Montesquieu, Say,
Smith, Otho e... e Garnier, tudo lá de fóra. É injusto, porque o dono do
pseudonimo Fernão Vaz está em contacto com a commissão de economistas,
nomeada ha pouco pelo sr. Carlos Bento... cá de dentro!
Punhamos ponto final na questão, tratada da nossa parte com
simplicidade, isto é, pobresinha de estylo, de rethoricas e de
adejectivos; mas antes d'isso façamos uma pergunta ao sr. Vaz, sobre o
que entende elle por _theatro altar_ e _theatro tribuna_? isto é, qual a
conveniencia de um e a inconveniencia do outro, no templo, que pode
admittir uma e outra cousa, sem prejuiso da arte?
Os homens que _estudam_ lá fóra, e que, com a _sua sciencia_ desejam
resolver este problema complexo, não fixam as suas largas vistas n'uma
sociedade que desconhecem, por exemplo, na nossa. Estudam o meio em que
vivem e por elle _fazem_ obra. Victor Hugo leva ao _altar_ do theatro o
seu Ruy Blaz, para que o adorem; e Alexandre Dumas filho manda a sua
Margarida Gauthier para a _tribuna_ do theatro prégar ás turbas a
regeneração da mulher.
Ambos estes _vultos da sciencia_ podiam ter dito:
Victor Hugo:--o publico francez tem escollas em abundancia, onde aprende
a ler, para depois vir cá fóra beber a moral nos milhares de livros que
nós escrevemos. O theatro deve ser _altar_ e não _tribuna_. Dumas
replicaria:--a instrucção não chegou ainda onde devia chegar; mas ainda
que chegasse, o livro não convence tanto como a tribuna (esteja ella
aonde estiver), isto é, como a palavra fallada. Assim pois regeneremos a
sociedade no theatro, façamos do theatro _tribuna_.
O sr. Fernão Vaz _estudou_ o meio em que vive ou _estudou_ o meio em que
vivem Hugo, Dumas e outros?
Se estudou o nosso meio encontra uma sociedade que não sabe cousa
alguma, por que não sabe ler, e a quem não sabe ler diz-se-lhe _por
todas as fórmas, com a palavra fallada_, o que é necessario que ella
aprenda; isto emquanto a nossa sociedade não souber o A B C e mais
alguma cousa. É verdade que ainda depois encontrará a opinião dos mais
sensatos, dos _mestres_, a dizer sempre:--_o theatro deve ser tribuna_.
Mas nós não queremos tal exclusivismo: assim pois, que o theatro _seja
templo_ onde haja _tribuna_ e _altar_.