XXI

Vão terminar os soffrimentos de Soares Pereira, e com a noticia

circumstanciada d'elles, por mercê dos esclarecimentos prestados pelo

seu benemerito protector, o livro que contra a emigração de portuguezes

para o Brazil nos propozemos escrever.

Como já dissemos, a pena de morte fora-lhe modificada em cinco annos de

prisão com trabalhos. Deu-se isto em 31 de maio de 1876.

Depois de dez mezes de galés; isto é, em 28 de março de 1877, foi

perdoada a Manuel Soares Pereira esta pena, sendo ao mesmo tempo

_dispensado_ do serviço do exercito!

Vamos transcrever a ultima peça desse processo escandaloso--o protesto

do supposto desertor; e terminaremos esta questão que nos fastidia.

Eis o documento, publicado no setimo avulso de Alves Ferreira--_Ás

nações civilisadas do universo_:

«Diz Manuel Soares Pereira, que tendo sido preso como desertor do 16.º

batalhão de infanteria, em outubro de 1874, condemnado á morte em 26 de

março de 1876, e a cinco annos de galés em 31 de maio do mesmo anno de

1876, sendo perdoada esta pena em 28 de março do corrente anno, fôra

afinal em 31 do mesmo mez dispensado do serviço do exercito;

«Que estando preso e sem meios de se defender, recebera todo o castigo

que lhe quizeram impor, e o fardamento e etapa que lhe quizeram dar;

«Que achando-se actualmente em liberdade, sabia que pelos livros do

mesmo batalhão é credor de certa quantia de fardamento e soldo, e que

não se julgando nunca soldado no Brazil, não pode, em consciencia

receber hoje essa quantia.

«E portanto, se continuarem a julgal-o credor d'ella offerece-a para uma

obra pia, isto é, para o hospicio Pedro II, o qual é no Brazil um asylo

de alienados.

«Reserva, porem, para si o direito, se o tiver, de haver do governo

brazileiro os seus ordenados como enfermeiro, os quaes nunca lhe foram

pagos, pelo que lhe prometeu de bocca o sr. commandante do 14.º batalhão

de voluntarios cachoeiranos.

«Reserva mais o direito que possa ter pela sua dedicação, provada por

irrefutaveis documentos de dedicação, que mostrou nos hospitaes da

Cachoeira, Rio de Janeiro e na esquadra, no dia da batalha naval, e nos

hospitaes e campos de batalha no Paraguay, como enfermeiro voluntario, e

sem contracto.

«Reserva ainda, para si, o direito d'uma indemnisação pelos perjuizos

causados ao seu commercio, pois sendo na occasião em que fora preso,

estabelecido na Baixa Grande, povoação d'esta provincia, perdera todos

os generos do seu commercio, parte do que lhe deviam do mesmo negocio,

tudo causado pela longa prisão que soffrera, e pela noticia que no logar

correra, de ter sido executado n'esta cidade.

«Guarda mais, para si, o direito a uma indemnisação pelos prejuisos

causados na sua saude, em consequencia da fome, maus tratos e pesados

serviços a que o obrigaram.

«Guarda tambem para si o direito a uma indemnisação pela injuria de lhe

botarem o ferrete dos galés, fazel-o n'este estado correr toda a cidade

e parte da provincia, dando-lhe por companheiros assassinos

sentenciados.

«Reserva mais o direito a uma indemnisação pelo que n'esta occasião não

lembra, mas que de direito seja.

«Appella, pois, para os altos poderes do estado, aos quaes apresentará a

sua petição em fórma, logo que suas circumstancias o permittam.»

Hade ter igual resultado ao obtido pela familia dos desgraçados

negociantes portuguezes, assassinados na noite de 6 para 7 de setembro

de 1874, na ilha de Jurupary.

É assim que o governo brazileiro mostra empenho em reunir debaixo do

explendido céu do Cruzeiro, os individuos de todas as nacionalidades,

que queiram alli encontrar patria commum!

* * * * *

Ponhamos ponto final aqui; mas antes d'isto permitta-nos o leitor que

façamos a seguinte declaração, que é ao mesmo tempo um protesto contra a

propaganda dos optimistas--de que somos inimigo figadal do imperio

brazileiro:

Não somos inimigo do Brazil. Nós somos tão amigos d'esta nação, como o

pode ser o medico consciencioso, junto do amigo, gravemente enfermo, a

quem tenta salvar, applicando ao mal os meios que a sciencia

aconselha... não excluindo o energico visicatorio.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 114 / 176 题