Continua Alves Ferreira a dar conta dos pormenores a respeito do seu
protegido, no terceiro avulso _Ás nações civilisadas do universo_,
datado de 10 de maio de 1876:
«Foi tirado em uma padiola das horriveis masmôrras da fortaleza do
Barbalho, em estado grave de saude, e conduzido para o hospital militar,
o honrado negociante portuguez Manuel Soares Pereira.
«Hoje em companhia do sr. dr. José Barbosa Nunes Pereira, redactor do
_Jornal do Commercio_ que se publica n'esta cidade, visitamos,
escoltados por um alferes e varias praças, este infeliz estrangeiro,
havendo bastante difficuldade para conseguirmos este fim.
«Qual será o motivo da molestia?...
«Será o pessimo _ar_ que tem respirado nas horriveis masmorras que lhe
tem feito correr!...
«Serão _pezados serviços_ a que tenham obrigado o desgraçado?...
«Serão os tratos que lhe possam ter dado?...
«Será dos _alimentos_?
«Será _tambem_ de alguma _bebida alcoolica_, que lhe dessem em
_demasiada quantidade_?...
«Ah! posteridade... posteridade, como julgarás esta questão?...
«Perante a fria historia, quem será réu n'este malfadado proccesso?...»
O Brazil: é preciso repetir o anathema em quanto houver folego de vida.
Não ha conveniencias que possam obscurecer a verdade terrivel.
Continua Alves Ferreira:
«Hoje vesitei o infeliz negociante estrangeiro Manuel Soares Pereira
n'uma das horriveis masmorras da fortaleza do Barbalho. Perguntei o que
se havia passado ultimamente com o desgraçado, e este respondeu-me o
seguinte:
«Tendo-me conduzido d'aqui em uma padiola para o hospital militar,
estive ali sempre, de sentinella ao lado! não me mexia que não fosse
presentido por ella.
«Um dia, na occasião em que mudavam a sentinella, disse um cabo a nova
sentinella: «Vê lá; este homem vai morrer no sabbado de alleluia, se
elle fugir vaes tu em seu lugar.
«No hospital não me quiseram dar medicamentos, e, como o mal não
cessasse, pedi ao sr. doutor que me mandasse dar um purgante, o qual me
foi dado no outro dia, e no mesmo dia em que o tomei, quando estava
produzindo os seus effeitos, fui expellido do mesmo hospital e devolvido
para esta prisão....
«Aqui, n'esta prizão, não me dão alimento de qualidade alguma, nem eu
tenho dinheiro para o comprar; se não tenho morrido á fome, devo-o á
verdadeira caridade, que me tem valido n'esta desgraça.
«Meu negocio evaporou-se, não possuo um real: n'estes dezoito mezes de
prizão tudo se perdeu; não só o que era meu, como o de meus credores,
que de tão boa bontade de mim se confiaram: elles sabem porém, que eu
não sou velhaco, que se lhes não paguei a culpa não foi minha, foi da
desgraça que tanto me tem perseguido.»
«Será verdade, meu Deus, que queiram matar o homem desgraçado á
fome?....
«Será esta a sentença imposta pelo conselho de guerra?....
«No caso affirmativo, poderiam pol-a em execução antes que subisse ao
tribunal superior!...
«Haverá tal pena no codigo ou lei militar do Brazil?...
«E vós nações civilisadas, tereis esta penna em vossos codigos?....
«Dever-se-ha esperar que a caridade publica sustente aquelle a quem as
auctoridades do paiz chamam soldado e como tal o tem preso?....
«Será soldado aquelle que nunca jurou bandeira?....
«Poderá o governo brazileiro engajar subditos de outra nação para fazer
a guerra a uma terceira, sem licença previa do governo do paiz do qual
queira engajar tropa?....
«Será cidadão brazileiro, o estrangeiro que nunca se naturalizou no
paiz?....
«Se o homem não podesse perante a lei soffrer as penas que lhe tem sido
impostas, quem serão os responsaveis pelos horriveis trabalhos por que
tem passado este desgraçado estrangeiro e pelos perjuizos que na saude e
propriedade tem soffrido?....
«Infeliz estrangeiro!... que sorte desgraçada te esperava na terra da
Santa Cruz?!....
«A vós, almas caridosas de qualquer parte do mundo, pede um boccadinho
de pão, para não morrer de fome, o desgraçado portuguez preso nas
masmorras da fortaleza do Barbalho!»
As esmolas vieram minorar um pouco os soffrimentos do desgraçado; mas
este apello á caridade publica não soára bem aos ouvidos da
officialidade que condemnára o desgraçado á morte!