Já viram os leitores, que, comnosco estavam interessados na questão: o
presidente, os jornaes de todos os partidos, exceptuando a
_Constituição_ e a _Tribuna_, o corpo commercial e por ultimo, os
officiaes da _Sagres_, que expediram pela agencia americana para o
_Diario Popular_, o seguinte telegramma que não chegou ao seu destino, e
para cuja publicação estamos auctorisado:
«(27-11-74.) _Diario Popular._--Lisboa. _Tribuna_ insolentissima.
Officiaes _Sagres_ prohibidos ir terra. Humilhantissima posição.
Providencias immediatas.--_Maia._»
O seguinte despacho fôra expedido por nós em 28 de novembro:
«_Constituição_ responde ao _Jornal Official_, refutando. Opina
publicação _Tribuna_, mudando linguagem. _Gran-Pará_ acompanha _Jornal
Official_.»
E, effectivamcnte, a _Tribuna_ acceitou os conselhos da
_Constituição_!...
Eis como o deputado, Wilkens de Mattos, esclarece a questão, no _Diario
de Belem_ de 2 d'agosto de 1874.
E preferimos esta á nossa opinião, porque em summa...somos portuguez!
Falle o sr. Mattos:
«O estylo é o homem, e os artigos da _Constituição_ photographam
fielmente a indole de seus redactores.
«Provocado por ella de um modo improprio de cavalheiros, insultado em
uma linguagem que só se depara nos vocabularios dos homens da mais
infeliz camada da sociedade, corri á imprensa para lançar de sobre mim a
responsabilidade que a _Constituição_ me emprestava, e para externar
minha opinião a respeito da questão, que tanto tem agitado e prejudicado
a sociedade paraense, e levantado grande celeuma contra nós no
extrangeiro. Era um dever imprescindivel, a quem, como eu, presa sua
terra natal, respeita a opinião publica e quer manter um caracter
illibado; mas a _Constituição_ por motivos que me são estranhos,
surprehendeu-me mais uma vez com a sua linguagem, que me furto ao
desprazer de qualificar. Ninguem, que não esteja dominado de um odio
brutal e de prevenções irracionaes, deixará de lastimar a linguaguem de
que, a meu respeito, fez uso o jornal, que se diz orgão do partido
conservador d'esta provincia, jornal que foi creado tambem para
regenerar a imprensa paraense, cuja linguagem, classificada de polluta,
elle tanto censurou e condemnou no começo de sua estrêa.
«A _Constituição_ pensou que me abateria e me faria recolher ao
silencio, ou provocaria de minha parte represalias na mesma phraseologia
com que me aggredio. Enganou-se. Os seus insultos servirão para provar
contra ella, que não occulta o seu rancor, o seu espirito abocanhador
sempre que tem de derigir-se a quem _ousa_ decahir de suas graças.
«A _Constituição_ mente assim ao seu programma, compromette o seu
presente e cava a ruina de seu futuro.
«Devia ella manter-se em terreno decente, usar de linguagem intelligente
e circumspecta, propria de cavalheiros, ainda mesmo combatendo seus
adversarios politicos, ou aquelles que, sendo conservadores, não
concordam com a sua politica. Se a _Constituição_ não respeita as
opiniões de seus adversarios ou divergentes, se ella não a procura
vencer por meio da intelligencia, empregando a linguagem comedida e
decente, como quer ser tratada e considerada?
«Não pense que o insulto lhe dará nunca ganho de causa. Esse meio é
reprovado nas sociedades cultas, e só lhe pode attrahir o despreso.
«Lastimo, pois, mais uma vez a trilha errada que procurou a
_Constituição_, e apesar de gravemente offendido por ella, faço cordeaes
votos para que seja a sua redacção mais feliz nas suas inspirações, afim
de não prejudicar a sociedade em que milita.
«A _Constituição_ sabe bellamente, que na camara temporaria, de que
tenho a honra de fazer parte, nunca se tratou de discutir os males que a
propaganda e lingoagem da _Tribuna_ teem causado a esta provincia. Se
alí se tivesse tratado d'isso, póde estar a _Constituição_ certa, de que
externaria eu com toda a franqueza a mesma opinião, que já externei pela
imprensa, no meu ultimo artigo. Esperaria, é verdade, e unicamente por
um rasgo de cortesia, que os meus collegas, representantes do Pará,
primeiro se manifestassem a respeito; mas quer elles o fizessem, quer
não, não ficaria occulto nas dobras do silencio, muitas vezes
conveniente áquelle que não tem a coragem de seus actos, e que prefere
jogar em perpetuo carnaval.
«Não ha consideração alguma que me inhiba de manifestar-me com a isenção
d'espirito e com a franqueza a que tem direito os mais caros interesses
desta abençoada terra em que tive o berço, e de suas relações com uma
nação amiga, da qual descendem os brazileiros, e com a qual se acham
estreitamente ligados pelos laços mais estimaveis.
«Os augustos chefes das duas nações são parentes mui proximos. Portugal
exercita com o Brazil avultado commercio; envia-nos os seus productos em
troca dos nossos. A mesma religião, a mesma lingua; os mesmos costumes.
Porque hesitar diante da propaganda que nos faz passar como um povo que
vae perdendo a civilisação e ensaia actos barbarescos? Não vejo rasão.
«A _Constituição_ convida-me a declinar os nomes dos seus redactores que
cultivam relações pessoaes e exercem influencia sobre o proprietario da
_Tribuna_. Para que esse convite?
«A _Constituição_, de certo, não quererá que eu me constitua delator.
Nunca o conseguirá. Deve ella ter consciencia de que eu estou de posse
de muitos de seus segredos, e deve fazer-me a justiça de crêr-me incapaz
de fazer publico uso d'aquillo que outr'ora me foi informado. Negar é um
impossivel, que alguns de seus actuaes redactores fizeram publicar na
_Tribuna_ escriptos seus. Alludo apenas a esta circumstancia, porque não
ha quem a ignore.
.........................................................................
«Não é em um artigo escripto ao correr da pena, que o deverei fazer.
«Não tenho embaraço algum a pronunciar-me clara, sincera e
positivamente, não só contra a propaganda da _Tribuna_, mas ainda e
sobretudo contra a linguagem de que tem sido victimas muitos dos
subditos de S. M. Fidelissima, que são honrados negociantes e ricos
proprietarios n'esta capital; propaganda e linguagem que teem mareado o
bello conceito que já gosavamos, nós os paraenses, na Europa e nos
Estados-Unidos.
«Eu que caminho para o ultimo quartel da vida, que não estou atado ao
orçamento da provincia, que nada pretendo d'ella, que tenho procurado
servir ao paiz com o zelo e capacidade, que Deus me concede, lastimo do
fundo do coração, que ainda haja paraense que não queira reconhecer o
immenso mal moral, economico e politico, que será aggravado de dia em
dia, causado á provincia pelas doutrinas erroneas, e linguagem
condemnaveis do _obscurantismo_, do inimigo da paz e socego das
familias, e do progresso desta estrella, cujo brilho se procura
embaciar! Lamento isto do fundo d'alma.
«Meus sinceros parabens á _Constituição_ pela _lisongeira e expontanea_
defeza que a _Tribuna_ lhe faz em seu ultimo numero.
«Não leve ella (_a Constituição_) a mal que eu lhe diga: quem póde o
mais, póde o menos.
«Quem teve forças para obter que a _Tribuna_ moderasse a sua linguagem,
poderia, se tivesse querido, conseguir ou tolerar, que esse periodico
deixasse de apparecer, ainda que fosse temporariamente.
«Não veja n'isto uma insinuação, ha franqueza, e firme convicção.
«Desde que a _Constituição_ aberrando do seu programma primordial, acha
prazer em jogar-me doestos e injurias, devo declarar-lhe: que não sei
esgrimir com _mascarados_, nem usar de armas que infamam a quem as
emprega.
«Na arena em que o homem educado deve sempre encontrar-se, no uso do
raciocinio, na applicação honesta dos factos, respeitando-se a verdade,
não hesitarei em encarar a _Constituição_; mas, diante do insulto e do
trato indigno de cavalheiros, não me encontrará.
«Fica ao seu sabor escolher; prosiga, porem, como quizer, que, de uma
vez para sempre deve convencer-se, que não responderei ás injurias nem
aos insultos: porque quem insulta á sombra de anonymo é só digno de
despreso.»
«_Wilkens de Mattos._»
Depois d'isto digam os optimistas que somos pessimista systematico
contra as cousas brazileiras.