«_Diario de Belem_:
«_A corveta Sagres._--Esta corveta da marinha de guerra portugueza,
amanheceu hontem fundeada em nosso porto. Trouxe de Lisboa por S.
Vicente 13 dias de viagem.
«É do porte de 813 toneladas, da força de 300 cavallos, monta 6 peças e
traz 138 praças de guarnição.
«É commandada pelo sr. capitão tenente Francisco Teixeira da Silva, um
dos ornamentos da marinha portugueza, e vem estacionar em nosso porto
com o fim de proteger os seus compatriotas, aqui expostos ao furor de
uma horda de canibaes.»
«Ora, será a colonia portugallega tão bruta, não haverá no meio d'ella,
ao menos um portugallego, que tenha um pouco de senso, para vêr
n'aquellas palavras a mais negra irrisão?
«Ora digam-nos agora, portugallegos, não será uma grande caçoada, uma
negra irrisão, chamarem a vossa corveta _Sagres_:--_gentil_, _elegante_,
_protectora etc._, _etc._?
«Safa! que ser-se cego assim já é demais, e fazer-se tanto assim dos
outros tolos é abusar-se muito!
«Pobres portugallegos!
«Ficae certos, que nós somos vossos inimigos, havemos contra vós queimar
até o ultimo cartucho, e derramar até a ultima pinga de sangue, porque
nos fazeis todo o mal possivel; mas não vos illudimos, de vizeira alçada
fallamos a linguagem da franqueza e do positivismo, não nos encobrimos
com o manto infame da hypocrisia e falsidade sómente para vos sugar os
cobres, como esses miseraveis especuladores do _Diario de Belem_,
_Gram-Pará_ e _Liberal do Pará_.
«Ficae certos, que quando chegar a hora tremenda da revolução, estes
vossos _amigos_ de hoje serão os vossos mais cruentos inimigos, para que
elles não sejam victimas da indignação de seus proprios patricios.
Elles, os vossos _amigos_ hão de querer rehabilitar-se perante o povo
brazileiro, e para isso mais depressa que nós vos mandarão _cear com
Belzebuth_!
«Esperem, esperem e verão como os factos e os tempos se encarregarão de
corroborar estas nossas opiniões.
«Crêde-nos que, quando cahir entre nós o raio flammejante da revolução é
para fazer uma unica e nobre divisão: de um lado--brazileiros, do outro
lado--portugallegos.»
No mesmo numero, a proposito de um baile no _Cassino_:
«_Sympathicas leitoras._--Na carencia de divertimentos, festas e
prazeres bateu-vos á porta a festa do glorioso prelado de Sebaste, S.
Braz, o milagroso advogado das molestias da garganta.
«Bailes não houve... Alto lá, musa: olha que já me fizeste pregar uma
mentira ás benignas leitoras!
«É verdade que eu bem podia vender este _peixinho_ ás minhas delicadas
leitoras, porque eu não vi nenhuma nos salões do _Cassino_, mas em
descargo de minha consciencia e respeito ás minhas caras leitoras, não
quero, não posso, não devo mentir.
«Portanto, houve no sabbado baile no _Cassino_; baile, que os seus
maiores _dilectantis_ esperavam ser de... _grande gala_, pois para isso
foi convidada toda a officialidade da _Sagres_.
«Mas oh! bellas leitoras, grandissimo _fiasco_! Só vi alli meia duzia de
moças e outro tanto de moços brazileiros que retiraram-se logo, onde
entre elles veiu-se escorregando o vosso chronista, porque a _coisa_ não
cheirava lá muito bem.
«Gostei, leitoras, gostei de não vos ver alli n'aquelles agallegados
salões do _Cassino_.
«Pois não! Quem mais dignos de dançar comvosco se não os vossos
patricios, creaturas de corpos leves e ageitados, limpos e aceiados?
«Haveis trocal-os pelos corpos dos portuguezes immundos, insupportaveis
e pezados como um cêpo?
«Ora essa é o que faltava!
«Arranjem-se p'ra lá... como poderem, comtanto que as nossas amaveis
leitoras não estão resolvidas a dançar um _fado_ em lugar d'uma polka, e
aguentarem com esses alarves desenfreados.
«E depois de termos os brilhantes salões do _Club Militar_, o que irão
fazer as queridas e patrioticas leitoras nos agallegados salões do
_Cassino_?
«Quem é que troca ouro por couro?
«Gostei, leitoras, crêde-me que vós me enchestes as medidas, gostei de
ver a prova de patriotismo que déstes não comparecendo no lusitano baile
do _Cassino_. Os portuguezes quando vos pódem metter as botas não vos
guardam deferencia--é bastante sêrdes brazileiras para elles vos
calumniarem. Compenetrae-vos d'isto e procedei sempre como agora, que o
vosso chronista agradecido e _cahido_ vos beijará respeitosamente as
setinosas mãos.»
Este artigo é demasiadamente comico, para dever merecer os nossos
reparos; comtudo acceitamos a prova de patriotismo das leitoras de
_setinosas mãos_!