«Não é, senhores, sem perigos e riscos mui dignos de attenção, que os
emigrantes livres conseguem as fortunas, que o Brazil encerra e guarda
com avarento sobresalto.»
A estas palavras da commissão de emigração, responde o auctor do
_Brazil_:
«Mas de que natureza são esses perigos?» etc.
E prosegue:
«Affirma o relatorio (da commissão de emigração) que _a fortuna teima em
se mostrar adversa aos emigrantes livres que não têem no Brazil
parentes, amigos ou protecção_ (o grifo é do escriptor citado). Isto é
quasi desconhecer o sentimento acrisolado de patriotismo, que distingue
e honra sobremaneira a colonia portugueza no Brazil.»
De maneira que, os trabalhadores portuguezes, fiados nas palavras do
auctor d'estas linhas, e no acrisolado patriotismo dos portuguezes,
residentes no imperio, devem seguir o conselho, _tão salutar_, de deixar
a patria em troca de um paiz que os colloca na contigencia de ir pedir
esmolla ás sociedades de soccorros, instituidas por alguns portuguezes
mais afortunados!
Bem lembrado!
«Entre os emigrantes que formam este grupo, falla a commissão de
emigração, ha uma parte que, não tendo no Brazil parentes, amigos ou
protecção, confiam ao acaso o seu destino. A estes, principalmente, a
fortuna teima em se mostrar adversa. Não tendo uns robustez physica para
trabalhos severos, sendo outros inhabeis para os misteres a que se
dedicam, esses pagam em soffrimentos e miseria a ventura dos mais
felizes.»
O sr. Carvalho, que a tudo mostra ter que dizer, faz ao trecho citado as
seguintes reflexões, que nada adiantam:
«Sentimos que a illustrada commissão não investigasse bem a causa de
taes infortunios (!)......»
E com uma logica de menino de escola continúa:
«... Ninguem por certo os poderá negar. Concorre para isso, umas vezes,
a rapida mudança de clima, _sem cuidado pela differença de estação de um
para outro paiz_;...»
Que cuidados deve ter o colono trabalhador para evitar os males que
podem advir-lhe por causa da rapida mudança do clima?
«... outras, os excessos (?) dos recem-chegados, muitos dos quaes são,
por via de regra, _pouco respeitadores de certas prescripções
hygienicas_;...»
Vejamos o que é preciso fazer o europeu recem-chegado ao Brazil, _para
respeitar certas prescripções hygienicas_:
Não deve expôr-se aos raios do sol; deve procurar boa alimentação,
despresando nos primeiros tempos os fructos indigenas, e procurar ter
boa habitação.
Perguntamos agora, qual é o europeu, nas condições do colono contratado
em Portugal, para trabalhar em terras brazileiras, que póde satisfazer
ás taes prescripções hygienicas?
Vamos provar que nenhum trabalhador que se destina á agricultura póde
deixar de viver miseravelmente em terras brazileiras.
Primeiro que tudo, o trabalhador não póde deixar de expôr-se aos raios
solares; do contrario morrerá de fome, se não tiver contratado o seu
serviço, como acontece a quasi todos os portuguezes; e n'este ultimo
caso, será preso, e em conformidade da lei brazileira de 1837, obrigado
a expôr-se ao sol para satisfazer aos compromissos que se impozera em
seu contracto.
O colono portuguez contractado para trabalhar no Brazil, a razão de
2$000 réis fracos, diarios, o maximo, e dizemos o maximo porque já
demonstramos que em Portugal nunca se fizeram contratos de locação de
serviço tão favoraveis ao colono; não póde, com tão modica quantia obter
boa alimentação, ainda que o colono não tivesse que satisfazer a outras
obrigações, como são o pagamento da passagem e _mais despezas
indispensaveis_[31] a quem tem de fazer uma longa viagem e estar auzente
da patria por illimitado tempo.
Ora, quem não tem meios para alimentar-se regularmente, não póde deixar
de ter má habitação; não póde deixar de comer algumas fructas, no
começo, nocivas á saude dos colonos; não póde, além d'isso, deixar de
vestir mal; e, finalmente, de despresar _certas prescripções
hygienicas_, que nunca foram desprezadas, em tempo, por quem escreve
estas linhas, e que, não obstante, foi atacado da terrivel epidemia a
_febre amarella_.
E continúa o auctor do livro o _Brazil_, nos seus considerandos:
«...... outras, em fim, a cega ambição de alguns infelizes, que
sacrificam todos os commodos (já está demonstrado que não póde ter
commodos o trabalhador do Brazil), saude, e não raro as proprias vidas
(por falta de recursos), para mais depressa accumularem um peculiosinho,
que, quando repatriados, (dolorosa desillusão!) não chega muitas vezes
para occorrer ás despezas, feitas então com o fim de recuperarem a
saude, que perderam fatalmente em trabalhos superiores ás suas forças!»
Completamente de accordo com respeito a este ultimo trecho, que,
satisfeitos, registramos; porque é mais uma contradicção do sr. Augusto
de Carvalho.
Do documento citado por este sr., vamos transcrever mais alguns trechos
em abono das nossas palavras; e preferimos este documento a qualquer
outro, por lhe ter prestado a sua authoridade.
Só sentimos, ainda uma vez o dizemos, que tivesse deixado de o
transcrever na integra, na tal historia:
«As causas a que mais directamente pódem attribuir-se estes desastrosos
effeitos, continua o presidente da _Caixa de Soccorros D. Pedro V_, são,
em relação aos homens que se empregam em trabalhos rudes, a pessima
alimentação, aggravada pelas exigencias do clima, sob o qual o europeu
carece, para sustentar a sua força, _de superior e muito cuidado
alimento_.
«A humidade do solo, origem de sua fecundidade assombrosa, os rigores
tropicaes exercem sobre o europeu influencia tal, _que todos os cuidados
hygienicos são poucos para precaver-se contra similhantes males_.»
Esta é que é a verdade, que o auctor do livro que analisamos escondeu,
por não se achar com forças de repelir accusações tão bem fundamentadas.
[31] A phrase em gripho é a empregada pelos alliciadores, nos
contractos de locação de serviços e com a qual encobrem muitas
extorções feitas aos collonos.