CAPITULO IV

A pastoral do bispo de Braga e a emigração. A Beneficente e a Caixa de

Soccorros de D. Pedro V. Prescripções hygienicas. Considerações do

advogado do consulado no Rio de Janeiro. A commissão da emigração e os

raciocinios estramboticos do auctor do «Brazil» a respeito dos crimes em

Portugal. Os crimes no Brazil. Os nossos raciocinios. Affluencia de

capitaes do Brazil nas praças portuguezas.

I

Mereceram-nos especial attenção alguns pontos contradictorios insertos

na parte quarta do livro o _Brazil_, e que julgámos não dever deixar

passar sem reparo.

Pretendendo o seu auctor apresentar-se como inimigo da emigração

clandestina, não poucas vezes guerreia aquelles que a combatem.

Está n'estes casos o reparo feito á pastoral do bispo de Braga.

Esse documento precioso, em que bem se patenteiam os vastos

conhecimentos do seu auctor sobre o resultado da emigração de

portugueses para o Brazil, devêra ter passado desapercebido ao sr. A.

Carvalho, não só para interesse do imperio, mas porque a analyse

ridicula que lhe faz, dá mais valor, se é possivel, ás asserções no

mesmo contidas.

No documento referido diz-se a verdade, que o sr. Carvalho esconde,

sobre a situação do trabalhador portuguez no Brazil; e não vemos

contradicção no seguinte trecho:

«Seduzidos estes mancebos pelas fallazes esperanças, que arteiros e

assalariados engajadores lhes sabem incutir, pintando-lhes aleivosamente

sua independencia e colossal fortuna, que em pouco tempo pódem

conseguir, empregando seus braços em trabalhos agricolas» etc.

N'este, tampouco:

«... pois que sempre houve engajadores, e ambição de melhoramento de

fortuna, que, com quanto imaginaria e fallivel, não desvia os emigrantes

dos gravissimos perigos» etc.

Ainda n'este:

«Se alguns d'estes (emigrantes) têem a fortuna de não encontrar sua

sepultura n'aquellas mortiferas paragens, e pódem voltar ao seu paiz, de

ordinario vêem mais pobres do que foram, e com suas saudes perdidas,

perpetuamente inuteis e pesados á patria!»

Nem mesmo combinado com o seguinte, aonde parece ter visto a

contradicção:

«E com quanto hajam _alguns conseguido alguma pequena fortuna_, não

equivale nem compensa _a perda de sua saude, nem o sacrificio, e improbo

trabalho_, que os proprios indigenas não podem supportar

constantemente».

Referia-se ao trabalhador, quando o illustre prelado fallava assim.

Mas se lhe juntarmos o seguinte:

«E com quanto muitos portuguezes, bafejados pela fortuna, hajam elevado

seus cabedaes a maior ou menor escalla» etc.; não acharemos ainda

contradicção, se completarmos a transcripção do periodo, que é do theor

seguinte: «... _não é pelo emprego physico de seus braços em trabalhos

agricolas_» etc., que o auctor do _Brazil_ cavilosamente escondeu.

O prelado bracarense não combate a emigração de portuguezes que se

destinam a outros misteres, no que, até certo ponto, estamos de accordo;

porque esses emigrados estão mais ou menos no caso de conhecer as

vantagens que lhes offerecem os paizes novos e faltos de gente

habilitada para exercer o commercio, as artes e até mesmo a litteratura,

sendo esta ultima asserção do bispo a que mais cahiu no goto ao sr.

Augusto de Carvalho, como se se podesse pôr em duvida a sua veracidade.

Pretender chamar emigração expontanea a essa dos trabalhadores, que

todos os dias saem das nossas terras, com destino ao Brazil, é negar a

verdade que todo o historiador deve respeitar. E por isso mesmo que ella

não é expontanea, nem mesmo quando exercida por portuguezes de maior

edade, mas sem as luzes necessarias para conhecer as falsas illusões dos

engajadores, é que nós a guerreamos, importando-se-nos pouco que este

nosso procedimento tambem possa ser tachado de contradictorio.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 47 / 176 题