O que citamos do livro _Brazil_ não é sufficiente para dar maiores
proporções á nossa humilde critica. O seu auctor não levou a palma da
victoria a outros apologistas do imperio americano. Nós já lemos cousas
mais attrahentes ou seductoras, e, por isso mesmo, mais romanticas, que
é o que convem para illudir os emigrados.
As palavras que vamos transcrever deviam necessariamente surtir melhor
effeito.
Eil-as:
«Do Novo Mundo, tantos seculos escondido, e de tantos sabios calumniado
(sic), onde não chegaram Hannon com as suas navegações, Hercules Lybico
com as suas columnas, nem Hercules Thebano com as suas emprezas, é a
melhor porção o Brazil; vastissima região, fertilissimo terreno, em cuja
superficie tudo são fructos, em cujo centro tudo são thesouros, em cujas
montanhas e costas tudo são aromas; tributando os seus campos o seu mais
util alimento, as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos os mais
suaves balsamos, e os seus mares o ambar mais selecto: admiravel paiz a
todas as luzes rico, onde prodigamente profusa a natureza, se
desentranha nas ferteis producções, que em opulencia da monarchia, e
beneficio do mundo apura a arte, brotando as suas cannas espremido
nectar, e dando as suas fructas sazonada ambrozia, de que foram mentida
sombra o licôr, e vianda, que aos seus falsos deuses attribuiu a culta
gentilidade.
«Em nenhuma outra região se mostra o ceu mais sereno, nem madruga mais
bella a aurora: o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios tão
dourados (nem é tão quente!) nem os reflexos nocturnos tão brilhantes;
as estrellas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os
horisontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros: as aguas
ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos
aqueductos, são as mais puras: é emfim o Brazil terreal paraiso
descuberto, onde tem nascimento e curso os maiores rios; domina
salutifero clima (sic); influem benignos astros, e respiram auras
suavissimas, que o fazem fertil e povoado de innumeraveis habitantes,
posto que por ficar debaixo da Torrida Zona, o desacreditassem, e dessem
por inhabitavel Aristoteles, Plinio, e Cicero, e com gentios os padres
da igreja santo Agostinho, e Beda, que a terem experiencia d'este feliz
orbe, seria famoso assumpto das suas elevadas pennas, aonde a minha
receia voar, posto que o amor da patria me dê azas, e a sua grandeza me
dilate a esfera.»[24]
Aconselhamos aos alliciadores a conveniencia de mandarem acrescentar as
palavras que ahi deixamos transcriptas nos cartazes que costumam affixar
nos troncos dos carvalhos dispersos pela natureza nas proximidades das
vivendas dos nossos proletarios do norte. Os capitães dos barcos
conseguirão assim mais facilmente o _lastro_ desejado!...
Condemnamos o estylo empregado nos trechos citados de um e outro
escriptor, ambos com pretenções a historiadores, porque esse estylo,
segundo Lamartine, «é a magica de que o homem se serve, muitas vezes com
feliz successo, para fazer admittir paradoxos como verdades e sophismas
como excellentes raciocinios.»
A imparcialidade da historia, dizia o referido escriptor, não é como a
do espelho que reflecte os objectos; é a do juiz que vê, escuta e julga.
Para que ella mereça este nome, é-lhe mister uma consciencia. A narração
vivificada pela imaginação, reflectida e julgada pela sabedoria, eis a
historia.
Quem não sabe escrever a historia assim, deve quebrar a penna antes de
profanal-a.
Mas aos agentes do Brazil, convem desvirtuar tudo, convencidos como
estão, de que podem chegar mais facilmente a seus fins--o interesse
particular.
Que lhes importa a elles a historia?...
É moda hoje erigirem-se estatuas aos pygmeos da actualidade! E que
importa que a posteridade, que costuma erigil-as aos verdadeiros heroes,
venha derrubal-as para cima dos tumulos da ignominia? que se afundam as
estatuas na lama em que vegetavam os miseros animalucos, transformados,
n'um momento de delirio, de hypocritas em Catões?
Podereis acaso, mumias lodosas, fazer fallar o pó a que infallivelmente
estarão reduzidos os vossos pergaminhos e as vossas lucubrações?
Não, que a verdadeira historia, quando se demora um pouco para dar
realce a qualquer vulto digno, se alguma vez lança mão d'esses pygmeus,
é para os esmagar!
O governo do Brazil deu o passo errado de libertar os escravos antes de
criar as leis, que regulassem o trabalho no imperio.
Devia, como já o dissemos em outro logar, ter educado os naturaes a
desempenhar o papel, que outr'ora representava o trabalhador africano.
Ninguem melhor do que o indigena podia substituir o escravo; mas a lei
que libertára este mostrou ao mundo a inutilidade d'aquelle. É o que
hoje estamos vendo. A agricultura definha de dia para dia, á maneira que
o antigo trabalhador se liberta; e o Brazil abre os braços suplices aos
europeus, para que o livrem do abysmo em que pouco a pouco se vae
precipitando. Por isso os seus homens d'estado lançam mão de qualquer
meio, sem previamente lhe conhecer a utilidade. Similhante ao naufrago,
em pleno oceano, a vaga que ha de matal-o, se lhe afigura a taboa da
salvação. Não se contenta com a fama das riquezas ephemeras, fama que em
todas as épocas assombrou o mundo. Destaca agentes para Portugal, onde
as vozes descompassadas dos engajadores não pódem formar écho além das
nossas fronteiras. Gasta fabulosas sommas, com esses engajadores que em
troco, fazem transportar para o Brazil algumas centenas de braços, que,
afinal, não compensam as despezas feitas; porque, além do numero de
colonos ser limitadissimo; o europeu, uma vez chegado ás margens d'esse
paiz de fadas, convertido no que realmente é--cemiterio do
proletario--vê-se na impossibidade de empregar as suas já quebrantadas
forças, por effeito do clima, no serviço arduo de arrotear aquellas
terras, que por todos espalha o desanimo e a morte. E os homens do
Brazil dormem á sombra dos combates illustres da guerra do Paraguay,
esperando, sem duvida, que do ceu lhe cáia o orvalho vivificador,
promettido pelo auctor do livro que analysamos!
[24]_America Portugueza_--Rocha Pitta.