Portugal é um paiz pobre, dizem os que advogam a emigração para o
Brazil; tem braços a mais, razão natural da procura de novos
territorios, acrescentam ainda.
Mas isto é um sophisma. Quem diz isto, quer esconder a verdade, a
princípal causa da emigração portugueza para o Brazil e que nunca nos
cansaremos de repetir--a ambição inconsciente dos emigrantes.
Portugal é pobre? A Portugal sobejam braços?
Comparemos Portugal á Belgica e á Hollanda, e vejamos se fallam verdade
os alliciadores do imperio americano.
Dizem os geographos, que em geral não são muito favoraveis nas
appreciações que fazem ao nosso paiz:
«_Belgica_....................... O solo, esteril nas provincias de
Liege e de Limbourg; é muito fertil nas Flandres e no Hainaut e bem
cultivadas.»
Nada mais com respeito ao solo.
«_Hollanda_....................... A Hollanda abunda sobre tudo em
pastagens; cultiva-se com successo o trigo, o linho, a ruiva, o tabaco,
fructas; a agricultura e a horticultura attingiram alli um alto grau de
perfeição. O clima é brusco e humido; os habitantes das proximidades das
lagoas (Polders) e das ilhas, estão expostos ás febres endemicas;
entretanto o frio dos invernos e os ventos de éste, modificam a
insalubridade do ar.»[11]
Vemos de notavel, apenas, que a agricultura e a horticultura attingiram
alli o alto grau de perfeição, que não póde desfazer as nebrinas
tristonhas do seu clima, nem tão pouco arredar para longe as febres que
assolam grande parte dos habitantes da Hollanda.
Para comparar veja-se o que diz o mesmo auctor com respeito a Portugal:
«A temperatura é d'um calor importuno, _mais elevado_ que em Hespanha; o
solo é muito fertil (_très-fertil_), _mas geralmente mal cultivado_.
Produz os famosos vinhos do Porto, Setubal, Carcavellos, etc.;
azeitonas, figos, laranjas e outros fructos exquisitos; mel, cera,
kermes. Aqui se encontra tambem as minas de ouro, prata, ferro, chumbo,
estanho, antimonio, sal (marinho), carvão de pedra, turquezas e outras
pedras preciosas, aguas mineraes e thermaes. Gado grosso, pouco; mas
bastantes carneiros e excellentes muares.»
Abramos um parenthesis:
Assim como deixamos passar a appreciação justissima de que o nosso solo
_está mal cultivado_, não deixaremos passar a affirmativa do illustre
geographo, quando diz que a temperatura do nosso clima _é mais elevada_
do que o da Hespanha. Esta não é a verdade. Se o calor que entre nós se
supporta no estio é importuno--_accablant_--, na Hespanha não o é menos,
se não superior. A experiencia de todos os dias ahi está corroborando
esta asserção.
Fechemos o parenthesis, e prosigamos.
A culpa de estar o nosso solo--_très-fertil_--mal cultivado, não é de
quem emigra, mas de quem, possuindo todos os meios de evitar o mal, não
tem tomado a iniciativa de o cultivar:--é dos maus governos que tem tido
a nação.
Vejamos agora, comparando ainda Portugal ás tres nações citadas, se lhe
sobejam braços.
Portugal mede uma superficie de 576 kilometros, do sul ao norte, sobre
168 de oeste a leste, ou 96.768 kilometros quadrados, que, divididos por
4 milhões de habitantes, dá para cada um--24,192 metros quadrados.
A Hollanda mede 240 kilometros sobre 230, ou 55.200 kilometros
quadrados. A sua população é de 3 e meio milhões; dando por
consequencia, 15,771 metros quadrados para cada habitante.
A Belgica mede 270 por 200, ou 54.000 kilometros quadrados, que
divididos por 4 e meio milhões de habitantes, dá para cada um 12 metros
quadrados.
Por estes simples calculos se conclue, que, para Portugal estar a par da
Hollanda devia ter uma população de mais de 6 milhões de habitantes, e
mais de 8 para estar a par da Belgica!
Se os governos d'este paiz, que, nos seus excessos de patriotismo,
tentam explorar a mina dos nossos certões envios d'Africa, olhassem para
as minas que possuimos no continente, a emigração seria annulada em
pouco tempo.
O governo que estabelecesse 20 colonias de 500 trabalhadores cada uma,
entreteria na faina do trabalho agricola uns 10:000 trabalhadores,
numero igual á população que emigrou para o Brazil em 1876.
Por este systema contribuiria igualmente para a divisão proporcional da
população portugueza, medida extremamente importante, cuja densidade em
algumas provincias é de 164 habitantes para cada kilometro quadrado, em
quanto que em outras partes do reino não passa de 12!
[11] Buillet, _Dictionaire de l'Histoire et geographie_.