Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
E rio-me tambem;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar--vê tu que insania!
Que tambem sou alguem.
Alguem que veio ao mundo sem familia,
Um producto do acaso, um paria, um misero,
Um engeitado emfim,
Um sêr sem protecção das leis canonicas,
Filho sem pae no assento do baptismo,
Mas um sêr, inda assim.
Levantou-me da estrada do infortunio
Um homem que entendeu que um filho espurio
Tem jus a protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o lodo dos hospicios
Uma alma em embryão.
Este homem deu-me a força do seu braço,
Legou-me em vida o seu honrado nome...
Vestiu quem era nu,
Depois, quando me viu robusto e forte,
Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,
Trabalha agora tu.»
Luctei, passei curvado sobre os livros
A mais florida quadra dos meus dias
Sereno a trabalhar;
Estudei, progredi, illuminei-me
E um dia para entrar em novas luctas,
Pude emfim descançar.
É que eu vi as premissas da victoria,
O applauso espontaneo dos estranhos
Incitar-me a seguir,
É que eu via deante dos meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
A estrada do porvir.
Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
Ao amor de meus paes,
Á força de vontade, á intelligencia,
Á sociedade pouco, ás leis bem menos...
E a ti não devo mais.
E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?
E és tu que vens fallar-me nas riquezas
Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
Por tudo quanto é teu.
És louca!... Sabes lá que orgulho é este
Do homem que a si só deve o que vale
E que espera valer?
Ha lá brazões illustres que equilibrem
Estes louros viçosos d'um triumpho
Que soubemos mercer?
És louca! Sabes lá como eu sou rico,
Rico de muita honra e muita esp'rança
E muito coração?
És louca! Mostra a escravos as riquezas,
Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,
Sou bastante christão.
E quem te disse a ti que eu te invejava
Esse ouro, que é teu unico prestigio
E o nome a teus avós?
Orgulhosa!... pois julgas decidido
Qual seja, n'esta lucta de vaidades,
O mais nobre de nós?
Pois julgas que ser nobre é mero acaso,
Uma questão de berço ou de destino,
Uma questão de paes?
Não vês que se a nobreza fosse heranca,
Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,
Seriamos eguaes?
E não somos, bem vês, porque a nobreza
Não se lega, conquista-a a intelligencia,
O talento, as acções;
Ora eu, se me permittes a vaidade,
Colloco um pouco abaixo dos meus louros
Todos os teus brazões.
Devolvo-te portanto os teus insultos
E a suspeita de te adorar os risos,
Que nunca mendiguei;
Se és bella e tens orgulhos de rainha,
Mulher, entende bem, eu sou poeta,
Tenho orgulhos de rei.
Que é esta a nossa força; n'estes tempos
Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro
Para nos insultar,
É modestia a orçar pela baixeza
Não fazermos sentir aos maus e aos futeis
Quem devem respeitar.
Não me compares, pois, a horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro...
Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por thesouros a minha intelligencia
E a honra por brazão.
Nós, os homens que andamos procurando
Á luz do coração por este mundo
Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento
E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,
Bem vês, como ninguem.
Em 1867 publicou o poemeto _Abençoada esmola_, que considero inferior á
maior parte das composições incluidas nas _Alvoradas_.
A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito
prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na _Abençoada
esmola_ a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado
a prosaicas occupações.
E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na
mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para
illudir-se. A este respeito discutimos n'uma serie de cartas
publicadas no _Jornal do Porto_ desde dezembro de 1871 a março de 1872.
A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos
antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada
por Alexandre da Conceição n'um folhetim do _Nacional_. Quando a questão
rompeu no _Jornal do Porto_, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se,
mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo
favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da
Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião,
especialmente em politica.
Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que
militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com
nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia
conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era
resoluto na expansão das suas convicções.
Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com
Camillo Castello Branco, a proposito do _Euzebio Macario, historia
natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes_.
Na _dedicatoria_ declarava Camillo o intento que o demovera a escrever
essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor
de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um
romance com todos os _tics_ do estylo realista. Respondi temerariamente
que sim.»
O _Euzebio Macario_ foi a justificação d'esta affirmativa, d'este
compromisso espontaneamente tomado.
Camillo, o inexcedivel romantico do _Amor de perdição_, provou o seu
pulso de escriptor realista no _Euzebio Macario_ e, depois, na _Corja_.
Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da
litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto,
processos que lhe desnervassem o braço.
Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu
tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e
em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo,
fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu
deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco.
Cuidou ver apenas no _Euzebio Macario_ a pretensão _de lançar o ridiculo
sobre a escola realista_.
D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões
pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto
de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do
afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.
O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve
trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um
polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos
que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no
combate.
Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado
triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo
da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios
do seu contendor.
Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no _Café Marrare_,
n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.
O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o,
commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente
capacitado de que nenhum dos dois guardou duradouro resentimento
d'essa cruel peleja.
... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo,
irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos
olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as
alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da
Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o
envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella
alma ardente, mas fidalga.
E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo,
sem pae e creio que... sem pão.
[16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde
(1882) compilados no livro a que deu o titulo de _Notas, ensaios de
critica e de litteratura._--_Nota da 2.ª edição._
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