Côro

Para a fronte onde o genio rebenta

É pequena a corda dos reis;

Ha no mundo uma só que lhe assenta:

A corôa dos nobres laureis.

Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé

sobre as cadeiras ou pendurados dos camarotes de terceira ordem,

por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.

Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente,

bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem

aos nossos artistas com applausos de amigos e _bouquets_ que se vão

buscar ao palco para tornar a atiral-os.

N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia

caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da

scena, estava profundamente commovida.

Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos

para um album ou para uma festa theatral.

Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da

Academia do Porto compuzeram em honra da _linda Emilia_ dois e tres

epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os,

reproduziram-n'os no album da grande actriz.

Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns

alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram

recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.

Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava

primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta

do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive

vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite

de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle

haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de

estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.

Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por

Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre

favorito dos poetas novos.

Darei uma pequena amostra:

Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!

Póde um peito conter oceanos de luz!

Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,

Como o braço de Deus, cria mundos a flux...

Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos

Um phantasma de fogo e acorda pensativo!

Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,

E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...

E então é tanto o ardor a incendiar a mente,

Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;

Um descobre um Principio, um outro um Continente,

O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...

Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos

professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na

Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12]

Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados

no seio da terra.

Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle

compôz:

Curvamo-nos tambem... É Deus que passa

Occulto nos monarchas do proscenio!

É o seu braço de luz que, em fogo, traça

N'aquellas sombras o caminho ao genio.

Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:

Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,

Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,

Sente, mas não traduz;

Mulher ou anjo, realidade ou sonho,

Teu genio admiro, como admiro o Etna!

O mar... a noite... a luz!...

Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que

devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.

Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam

chamar-lhe em 1863 _mulher ou anjo_.

Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça, _O meia

azul_, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a

velhice: duas enfermidades.

O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de

declamação e caracterisação.

E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:

Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

O que restava do sonho era apenas a realidade...

Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das

Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.

Este dissera a Emilia das Neves:

Agora que aos teus pés, mais uma vez,

As rosas vem cobrir a tua estrada,

Acceita esta homenagem não comprada,

Mas filha do caracter portuguez!

Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio

dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos

poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se

estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.

Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia _Judith_.

Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me

nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella

degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas

de guerreiro.

Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria

ardido n'aquella noite.

Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela

estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou

com mais enthusiasmo do que archotes.

Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos _hoteis_ da

Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio

como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações

estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas

pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.

Emilia das Neves, abafada n'uma _capeline_ branca, recebia da janella do

_hotel_ as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de

Macpherson; para o caso pouco importa.

Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada,

assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom

dinheiro.

Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno:

Para a fronte onde o genio rebenta

É pequena a corôa dos reis;

Ha no mundo uma só que lhe assenta:

A corôa dos nobres laureis.

E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro

verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida

ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé.

E eu era então um d'elles.

Isto foi em 1863.

Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da _bella Emilia_, o alvo d'aquella

ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em

versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles

a cantaram.

O tempo é um demolidor terrivel?

Gertrudes... Gertrudes não sei de que--toda a gente dizia apenas a

_Gertrudes_--pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e

bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema

planetario.

Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as

segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação

sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.

E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de _grande dame_, o seu

bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na

scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada

pela morte.

Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de

que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e

dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos

bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as

noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou

menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma

tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do

publico.

Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez

passar no theatro de D. Maria.

Acabára de realisar-se em Paris a _première_ de _Mr. Alphonse_ de Dumas

Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me

de traduzir a peça em tres dias.

Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi

justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um

amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.

D. Maria pôde finalmente dar a peça--por tal signal que em beneficio de

Brazão.

Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma

porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os

bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me

esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando

inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:

--Vai-te d'aqui, meu estupor.

Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu

longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por

todos os cantos a Gertrudes.

Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.

Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.

Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella

tinham estado em scena, disse-me:

--Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou.

Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia

ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e

com mau gosto, o original de Dumas.

E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um

tom sentencioso, disse:

--Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a

gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao

publico.

E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.

Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E

aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das

Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos

depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.»

[12] Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente

ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

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Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 44 / 68 题