Tres actrizes

Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e

parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão

meio sagrada, meio profana--a de ter visto passar no palco de um theatro

um cherubim de azas brancas e cabello loiro.

Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua

historia vulgar no amor--como as outras. Mas vel-a era o mesmo que

divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.

Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze

branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os

lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e

muito leve...

Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o

espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um _coupé_ que a

conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam

a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.

Vi-a representar no Porto a _Cora_ e recitar a _Stella matutina_, de

Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa

com a _Visão dos tempos_.

Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do

poeta:

Eu sou a filha d'Eva

Gerada em outro amor!

Caíndo a dôr me eleva...

Senhor, Senhor, Senhor!

Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz,

vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta

divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa

mulher, destinada a

... servir de falla

Á dôr que emmudeceu

seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.

A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto

todo o seu velho repertorio, a _Joanna a doida_, a _Mulher que deita

cartas_, a _Medea_.

Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e

Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso

magestoso--como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe

pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára

no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza

dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para

a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem

theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um

manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.

Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os

estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de

fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.

Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte na festa senão

como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não

afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da

difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda

ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela,

vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da _linda Emilia_, como

ainda então se dizia, era executado pela orchestra.

A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta

que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista

Pires.

Ahi vae a lettra do himno:

O robusto leão da victoria

De teus pés lambe a terra em redor;

Tua vida é um archivo de gloria,

O teu nome um augusto esplendor.

Para ti nunca findam as palmas,

Nem os bravos que fazem tremer;

E do ouro de lei d'estas almas

Só tu podes um throno fazer.

Nós que vemos os lumes ardentes

Onde Deus escondel-os nos quiz,

Vimos hoje dizer-te frementes:

«És sublime, és sublime, ó actriz!»

Arde o peito em delirio o mais puro,

Cada olhar ao teu nome reluz;

Has de ser immortal no futuro,

Que este fogo é baptismo de luz.

Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 43 / 68 题