Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras
vezes com vaga tristeza--que é talvez o estado mais doloroso da
alma--desejado a morte?
Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque
sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma
certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de
adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido,
que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais
tranquillo do que este...
Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não
tenha desejado a morte uma vez sequer.
A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os
outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.
Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se na terra.
Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que
se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de
a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...
Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que
fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha
da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os
quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.
Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella
passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito
das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o
seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu
caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a
sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...
Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia,
n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa
da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade
dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos
somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda
feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se
chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais
quanto mais rapida é.
Estavamos, não sei quantos--poucos eram--no club da Ericeira. Jogava-se
o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae
Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado,
e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma
senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a
musica, com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom,
entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada
atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som
aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento.
De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota,
longe, muito longe de Lisboa--essa grande cidade ruidosa, que dizem ser
feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso,
mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga
recordação...
Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a
funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das
mãos, a mala de couro na outra.
O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.
É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde
ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.
Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa
longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser
construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.
O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas
de jornaes--progressistas, regeneradores, republicanos--e algumas
cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma
verdadeira alluvião.
E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o
outro:
--V. ex.ª hoje não tem nada.
--Aqui estão os seus jornaes.
--V. ex.ª tem só uma carta.
--Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª
Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia
profundamente dolorosa e inesperada:
--Morreu o Aguiar!
--Quem? O que?!
--Morreu o Aguiar!
--O Antonio Augusto?!
--Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...
E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal,
procurando os pormenores, lendo e dizendo:
--De repente... de uma _angina pectoris_... ainda ante-hontem saiu...
bem disposto... tinha jantado no _restaurant Rosa Araujo_ com o Luciano
Cordeiro e com outro.
Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta
surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se
Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes
o referiam.
Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára,
da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára.
Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha
visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de
valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram
d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar
fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado
para domingo.
Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da
morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo
pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas,
resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:
--Um homem serio...
--Um homem de talento...
--Um homem de saber...
--Um bom caracter...
--Um homem digno...
Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia
quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao
encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de
saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!
Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram,
porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que
humilhar-se deante dos mortos.
Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a
Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua
posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e
o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que
tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os
golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias
antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor
da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se
deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo
tranquillamente o seu charuto:
--Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.
Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua
consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem
manchas e sem remorsos.
Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso.
Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem
representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece
do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos sabem mais ou menos
quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que
preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.
Eu gosto mais d'estes ultimos.
1887.
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