A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que
primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome
primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia.
Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas,
vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo
nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S.
Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á
ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo
José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido
progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno,
e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o
priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte,
era já uma gloria nacional.
É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda, para fazer
historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez
de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes
Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor.
Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista
como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello.
Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são,
indiscutivelmente, dois grandes reformadores.
O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional,
animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.
Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que
acontecese.
Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda
convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador
havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.
Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu
na scena politica com o movimento chamado da _regeneração_, palavra que
é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de
Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido.
A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito
abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas;
os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que
devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a
revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração
que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as
cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a
administração publica na grande complexidade dos seus elementos
componentes.
Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco
mais de trinta annos, o desempenhal-a.
O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a
guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.
Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas
politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade
poderosa de um estadista eminente.
O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a
que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de
completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra.
E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração,
creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas,
pareceu dizer-lhe:
--Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a
que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para
que a consolide e complete.
Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e
desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e
cumpril-o.
Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a
existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas
as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza
publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os
outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua
terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do
Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que
recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura
dos principes, mas apenas com a bandeira portugueza por cobertura do
seu feretro.
Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official
dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do
que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro
do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz.
A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação
dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa
deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se
recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do
coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de
um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento
ingenuo e sincero.
Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que
ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão
imponente, tão grandioso elle foi.
Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza
pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não
vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o
povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital.
Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo.
Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica,
que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de
Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito,
o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para
si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de
surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se,
respeitoso e triste, nas ruas por onde o feretro havia de passar,
affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de
Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.
E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára
para o povo.
Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que
trabalham.
Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais
confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava
o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do
campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e
da cultura.
Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para
colher, a demolir o passado para construir o futuro.
Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo
de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e
cultivára.
Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os
outros.
E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.
_Parar é morrer._ Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a
divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.
Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que
n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho
ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do
progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é
imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham
por si mesmos.
Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o
cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos
sacerdotes que tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica.
Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil
boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas
as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas,
eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que
ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.
Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.
* * * * *
Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.
Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de
casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me
se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o
voltarete.--Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou
Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.
Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse
fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de
mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a
minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois
parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.
Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.
--Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.
--Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.
Eu vi-me obrigado a obtemperar:
--Estou ás ordens de v. exas.
Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha
de roda, duas talhas o que désse cartas.
Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre,
vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro
libras incompletas--um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra
occasião.
A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado
desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia
immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.
Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma
grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente
para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por
origem uma confissão ingenua.
--Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]
Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem
eu sei ao certo quanto é.
Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do
jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman
attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do
meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando
os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis.
Nunca esta cifra me esqueceu.
Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei
pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a
eloquencia é de prata, o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito
aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...
Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois _fadistas_
parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu
havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para
mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de
casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas,
vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á
pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na
almofada.--Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma
voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..
E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio,
e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!
No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia
dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.
Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás
vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a
historia, a que achava graça.
* * * * *
De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu.
Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.
Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o
requerimento, e perguntou-me:
--Tem muito empenho n'isto?
--Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.
Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:
--V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores
são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com
a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de
que se está infelicitando irremediavelmente.
Janeiro de 1887.
[7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje
fallecido.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
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