parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica
dito, com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo
buraco, o encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho
de cêra branca, collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde
lhe dê o sol, e assim como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e
subindo até desapparecer. Quem quizer que este mesmo ovo lhe sirva para
mais vezes, ate-o a um cordel na ponta de uma lança, e que seja o cordel
tão comprido como ella, ficando a lança no chão. Com uma linha atarão o
ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde lhe dê o sol, e quando
aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, até o tirarem,
emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr
desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim
vae cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não
quebrar.
Segredo 51.º
Para queimar um lenço e ficar são
Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o
diante dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o
lenço por duas pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e
como fôr inflammando andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto
á vista dos circumstantes e logo o sacudiremos e apertaremos entre as
mãos para que se apague o lume; tornando-o a estender o mostraremos aos
circumstantes tão são como era antes de se lhe botar fogo.
Segredo 52.º
Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor
cara com menos custo
Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos
dão notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar
que calçam pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que pede o
pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que
usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas
desgraças se seguem d'aqui.
Segredo 53.º
Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca
sem prejuizo algum
Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será
feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer;
esta mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa,
apertada a manga junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos
circumstantes, mostrar-lh'a, parecerá o braço estar passado pelo collo
da mão.
Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo
que se aperte e alargue.
Segredo 54.º
Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que
estão em papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem
Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa
a outra.
Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o
sumo que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não
corra tanto, se faz tinta vermelha bastantemente.
Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que
nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde.
Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio.
Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro.
E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a
herva da côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito
se fará.
E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por
estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em
ourina fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se
poderão lêr.
Segredo 55.º
Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade
de pannos
Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que
não fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as
nodoas, cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se
ponha sobre a nodoa uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue
o papel ao panno, e posto a enxugar até o barro estar bem secco, logo se
esfrega, e tirando-se-lhe o papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é
bom principalmente para panno de côr; é bom lavar em agua de pescada.
E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por
cima do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um
quarto de hora e lavando a nodoa, logo se tirará.
Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão
trigo, e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si.
Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem
quente se tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar
onde está a cêra, e assim logo sahirá e o panno ficará limpo.
Segredo 56.º
Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar
Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar
dôce, tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze
quatro ou cinco arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça,
bem justa, atando o pote por um cordel, se botará o dito pote no mar,
mansamente, para que a pedra não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas
o tirarão, tirando a rolha ao pote, acharão dentro d'elle uma canada de
agua dôce como a da fonte; a razão por que a pedra se mette é para que o
pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a virtude que se pretende.
Segredo 57.º
Das regiões do ar e da terra
Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce,
necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz
dôce, e do ar a que ella sobe.
Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a
região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro
leguas, dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira
que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do sol que dão na
terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas e meia
para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e
n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A
segunda região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que
as aves subindo a ella não se poderão ter nem respirar no principio
d'esta região, estão em deposito as aguas que chovem, que sobem do mar
vapores da terra, aguas sobem, até ao meio da dita região, congelam-se
em neve, e se mais acima forem, congelam-se em pedra, assim como esta
primeira e segunda região occupam para o alto oito leguas e meia, as
mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous terços occupa a
terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e pela
parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se
fazem todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte
em tres regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella,
proval-o-hemos por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia
ou superficie de um globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu
diametro, ou peso diametro de uma cousa, vir em conhecimento da
superficie d'ella guardando a regra seguinte.
Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um
setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por
conseguinte sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo,
o que vier á partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de
diametro, nos dão sete palmos de circumferencia, pois temos sabido assim
pelas dimensões geometricas, como das experiencias de homens do mar
ter a terra em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de
tres, dizendo se vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de
diametro, seis mil e trezentas de circumferencia da terra quantas nos
darão de diametro, virá a partição de duas mil e quatro leguas e meia,
assim diremos ter a terra de grosso, duas mil quatro leguas e meia que
partidas pelo meio vem duas mil duas leguas e um quarto de legua, tanto
ha da superficie ao centro da terra, que é o meio de toda a grossura.
Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a
primeira das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um
quarto, ou posto que a terra em si seja summamente fria, secca e pesada,
esta primeira região é temperada pela razão que temos dado da impressão
que fazem os raios do sol n'ella, n'esta região se criam as exhalações
que com a força do sol chamadas para cima se acertam de cahir por terra,
pela resistencia que lhe põem ao cair, causa para ella tremer que é
haver em algumas ilhas e outras partes tanta calidade na terra que no
verão com a força do sol abrem grandes concavidades, as quaes vindo o
inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar.
A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para
baixo n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do
ouro e mais metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos
a modo de arvores, assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda
região.
A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e
segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é
summamente pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma, no
intimo interior da qual está o inferno de que Deus nos livre.
Segredo 58.º
De dous medicamentos que se usam entre os rusticos
Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose
um bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se
abafam para suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar
o mal.
O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para
mostrar ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um
xarope e em lugar d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este
remedio continuam oito dias, e é com este mesmo remedio que se lhe vão
embora as maleitas.
Segredo 59.º
Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de
jogar pelo cheiro
Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo
faremos pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e
defronte de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos cartas,
perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de
quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando
cada uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que
cartas são, assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto
que nos venha alguma das que nos tem pedido a pessoa a que temos
communicado o segredo, porá o pé sobre o nosso, assim poremos aquella
carta de parte e iremos continuando até tirar todas as pedidas, da mesma
sorte que acima fica dito e quem estiver fazendo este segredo
acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se está fazendo
por baixo da meza.
Segredo 60.º
Virtudes do jacintho
O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o
melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve
contra as febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes.
Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e
aviva o engenho.
Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos.
Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e
não soffre representações de fantasmas, nem visões.
Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte
pegada á ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha
tantos, que sae a agua e corre por cima d'elles.
Segredo 61.º
Virtudes das pedras da andorinha
Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha
se acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra
vermelha, cujas virtudes são as seguintes.
Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será
molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca.
Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma
pedrinha branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue.
Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a
pedra da aguia.
Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua
por espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal
da gotta, e ainda a febre se a tiver.
Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se
livrará de muitas doenças.
Segredo 62.º
Virtudes da pelle que a cobra costuma despir
A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã;
e se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a
si, até o tirar fóra.
Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta
pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E
saibam, que os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades:
porém, ha de se queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries,
que é de 12 de março até 26 de abril.
Segredo 63.º
Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber
Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber,
façam uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique
coberta de agua, e toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o
sal e ficará doce. O mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha
nova de barro com tanto que tenha a bocca bem tapada.
Segredo 64.º
Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne
Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum
reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os
genitaes, diz, que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria.
Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no
homem; e na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso.
O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia
para reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca
grandemente os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo
do orjavão bebido causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete
dias. Escreve Dioscorides, que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou
o sumo de suas folhas posto nos genitaes, desterra a appetencia de actos
venereos. Michael Escoto diz com muito fundamento que todas as cousas
agras, frias e azedas se accomodam bem com a castidade, conservando-a: e
pelo contrario as cousas doces, quentes e odoriferas, a destroem, e
estragam de todo. Porém fallando espiritual e catholicamente, o que mais
conserva, e defende a castidade é o jejum, a disciplina e a oração
frequente e com muita devoção.
Segredo 65.º
Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas,
as casas sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos
Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que
fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e
esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique
lavada com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O
primeiro será que o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que
não se crearão n'elle persevejos, como tenho bem experimentado.
Segredo 66.º
Contra pulgas
Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de
solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem
varrido, e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas
isto se ha de fazer duas vezes na semana.
Segredo 67.º
Contra moscas
Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara,
lhe lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros,
aonde cheguem as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em
provando ficam mortas. O mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e
desfeito em agoa e posto em algumas vasilhas pela casa; mas vigiem que
não chegue cão ou galinha a provar, porque ficarão mortos.
Segredo 68.º
Contra mosquitos
Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo
cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual
estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os
mosquitos ao rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca
d'isto; mui notaveis e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os
auctores que o dizem.
Segredo 69.º
Contra ratos
Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de
duas cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle
um pouco de sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva
affugentará os outros: ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil,
e é atar ao pescoço do rato um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui
vivo, com o que fará fugir os outros; e assim ficarão livres d'estes
inimigos caseiros, poupando gastos e molestias. Outro segredo melhor e
mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por peneira o misturarão com
queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham em diversas partes
da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da iguaria
andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais
depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se
torna em massa, e é segredo sem perigo.
Segredo 70.º
Para fazer durar o azeite da candêa
Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas
castas d'ellas) queimal-a-hão, e da cinza farão decoada; e pondo
esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas candêas,
conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e o
sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não
tanto como o sal da giesta.
Segredo 71.º
Para fazer augmentar o azeite das candêas
Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro
onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido
primeiro, e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo
se poderão servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos
seguindo a mesma ordem com proporção dos materiaes.
Segredo 72.º
Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo
No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois
de espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro
arrateis de perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom
cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou
trinta dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e
odorifero; e proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos.
Segredo 73.º
Para multiplicar a cera
Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as
gemas, meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com
outra arroba de cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique
derretido e bem misturado; e ficará tudo convertido em cera mui
amarella, para se fazer d'ella toda a obra que quizerem.
Segredo 74.º
Para saber se o vinho tem agua ou não
Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas
talhadas de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o
vinho puro; mas se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está
aguado. Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa bem
lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver
agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de
vinho uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a
agua, se a tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e
molhando-a com elle, vinho, se tiver agua logo se desfará a cal; e se
estiver puro, se apertará mais. Outra. Lançarão um pouco de vinho em
azeite que esteja bem quente, e se tiver agua, espirrará e saltará, o
que não hade acontecer se fôr puro.
Segredo 75.º
Para se não embebedar
Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas
assados, e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam
verças com vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que
bebam mais do ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é
o que eu uso ha sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca
bebi vinho, e acho tanto regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria
que vejo na mais explendida meza: e oxalá se praticára isto que digo,
que o vinho se havia de vender na botica e usar por medicina. Se alguem
reconhecer o descredito, que causa o vicio de destemperança no beber, e
quizer livrar-se de se embebedar e aborrecel-o de todo, note o que
escreve Plinio, e é que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um
cantaro de vinho, e que depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos
que se costumam embebedar, e virão a aborrecer o vinho de todo; porque
causa um raro tedio e aversão. Para o mesmo serve a bretonica feita em
pó e bebida.
Segredo 76.º
Para tirar a agua do vinho
Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma
vasilha de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o
vinho se irá coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver
agua, ficará a vasilha completamente vazia.
Segredo 77.º
Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca
destapada para baixo, se não entorne
Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um
cubosinho ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre
a garrafa ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, e
por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão
virando a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão
a agua da neve e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido;
e assim se deixará estar até que de todo se desfaça, sem mover a
garrafa: e farão o mesmo terceira vez, e tirará a agua congelada ou o
vinho que estiver na garrafa. E isto se póde fazer na força do verão, e
parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e pondo a garrafa com a
bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. Como
experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma
cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira,
arcebispo de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe
mandou outra garrafa cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha.
Segredo 78.º
Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco
Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de
encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu
fiz a experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos
encarnados, com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa.
Segredo 79.º
Curioso e de entretenimento
Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e
muito bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e
ver-se-ha, tanto que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos
pela meza. O mesmo verão que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e
bem tapada com um torno que atoche bem, lançada em agua quente, porque
tanto que o azougue aquecer, fará saltar a avelã.
Segredo 80.º
Garrafa ou redoma
Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa,
aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e
verão subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e
para que o esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha,
e não ha de parar até que encha de todo, e é provado.
Segredo 81.º
Do ovo e da sanguexuga
Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte
que fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe
mettam uma sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão
uma tigella de agua e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga
do instincto natural conhece e sente o rumor da agua, vae seguindo
aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem não sabe o segredo fica
confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser de paul e de
umas que ha mui negras e grossas.
Segredo 82.º
Raro do ovo e da linha
Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do
borralho que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo
se assa e não se queima a linha nem se quebra, e é provado.
Segredo 83.º
Incrivel para quem o não viu nem provou
Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um
pedaço de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e
deitar-lhe-hão azeite, e pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá
fervendo o azeite sem que o papel se queime e frigindo o peixe ou ovos,
é provado.
Segredo 84.º
De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela
Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão
duas covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra
enxofre em pó; e se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do
salitre, se ha de apagar, e no mesmo instante chegarão o pavio da vela
que fica fumegando, á outra bocca do enxofre, se accenderá e é provado;
mas hão de tocar o pavio no salitre e no enxofre.
Segredo 85.º
Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza,
e para o fazer saltar e fugir