O ORACULO
DO
PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO
OU O
Verdadeiro modo de aprender no passado
a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro
POR
BENTO SERRANO
ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,
_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita
gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_
OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:
Parte primeira--O ORACULO DA NOITE
Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS
Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS
Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES
Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS
Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA
Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS
PORTO
LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
55, Largo dos Loyos, 56
1883
PARTE TERCEIRA
O ORACULO DOS SEGREDOS
OU
Collecção de muitos segredos uteis a todas as pessoas, e para a cura
radical de muitas molestias conhecidas e desconhecidas
PORTO
LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
55, Largo dos Loyos, 56
1883
Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16.
O ORACULO DOS SEGREDOS
Segredo 1.º
Tirado do livro de S. Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um
homem ao ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal
algum.
Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos
pés e outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes,
principiando por um e acabando por outros:
1.º homem--Aqui cheira a corpo morto.
2.º--Pezado como um chumbo.
3.º--Leve como uma penna.
4.º--Levanta-te na hora de Deus.
No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos,
que elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30
minutos, cáe ao chão sem lhe acontecer mal algum.
Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno.
Segredo 2.º
Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não
A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e
sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa
maneira conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca
vos começará a descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae
observando o que ella lhe diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por
que esta operação não póde durar mais que 10 minutos, para não acontecer
que a mulher acorde e observe o que se está fazendo.
Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse.
Depois de feito isto devem guardar segredo para evitar questões.
Segredo 3.º
Effeitos do vinagre e da ourina
Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8
horas, botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado,
assim o tenho experimentado e sempre com bom resultado.
Segredo 4.º
Para tirar as dores de cabeça
Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo
as quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos,
tirar as cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem
moídos, pegar em um bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem
esfregadas que, depois, em pouco tempo passará a dita dôr.
Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que
depois de se levantar nada ha de sentir.
Segredo 5.º
Para quem quizer beber o vinho simples sem agua
Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando
o vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a
agua na mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de
todo o vinho.
Segredo 6.º
Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante
de si que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é
Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes
mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma
vara que seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra
ponta de arame na mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais
que o mesmo lume.
Segredo 7.º
Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos
Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em
bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura;
sendo outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo
cozido se botarão na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na
carne com a quentura que em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes
dá se encolherão e estenderão como bichos, e quem estiver comendo fica
enganado.
Segredo 8.º
Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do
caminho
Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres
peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que
n'elles observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam
pendurado no cinto, um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que
aquillo representava, e tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o
segredo? Tiraram do seio cada um sua mancheia de artemija, dizendo-me
que com aquillo pouco se sentia a calma e o cansaço do caminho. D'ahi
por diante me aproveitei d'isso e achei ser verdade, o segredo que me
ensinaram.
Segredo 9.º
Para não criar pulgas e para evitar persevejos
Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de
herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se
tres onças de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente
os mata, mas tambem a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará.
E para evitar pulgas bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro,
estas hervas tem virtude para as matar e não criarem outras. E
qualquer d'ellas fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa.
Segredo 10.º
Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel
Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem
de que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a
ponta de um pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e
depois se deixará seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa;
queimem um papel tendo escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta)
que se escreveram na mão, e com o mesmo papel queimado, se esfregará a
parte onde se fizeram as letras com a ourina, que conforme foram feitas
assim saírão pintadas de preto, por isso quem não souber o segredo se
admirará.
Segredo 11.º
Para crianças que teem lombrigas e tosse
Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse
lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem
lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em uma
pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, assim dada a beber
em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas.
Segredo 12.º
Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos
Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de
misturado em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo
em meio quartilho de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao
orvalho da noute, por espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a
cabeça pelo menos de tres em tres annos, que o cabello não cahirá.
Segredo 13.º
Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem
mordidos pelas abelhas
Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta,
depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se
allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que
ellas não farão mal algum. E se por acaso te picar alguma vespa,
unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são.
Segredo 14.º
Para evitar formigas, mosquitos e persevejos
Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos
com um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal
molhado, que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas
cousas todas misturadas melhor será.
E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns
poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma
pouca de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de
pedra hume, e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra
da cama; ou a qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou
casa onde se criarem persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que
se queime, posto debaixo da cama todos os persevejos que houver onde
chegar o fumo do brazeiro morrerão.
Segredo 15.º
Para se conhecer a sarna e o meio de a curar
Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos
umas bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com
este segredo, cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar
sobre a parte doente, umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve
esfregar.
Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e
mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de
todos, é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos
casos.
Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que
produz muito bom effeito.
Segredo 16.º
Para os que costumam enjoar
Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes,
principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de
tanto lhe póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a
cabeça anda á roda e o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5
perolas de chloroformio, que o mal desapparece logo. E não havendo
as ditas perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito.
Tanto umas, como as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o
viajante se munirá d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal
que causa sempre bem á creatura que vae no mar.
Segredo 17.º
Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar
Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom
resultado, n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa
cura tomem: essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto
detestavel é impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae
em fórma de perolas. As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na
occasião das comidas. Dentro em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os
antigos, melhoram-se e curam-se. Por muito que explique, nunca são
muitas as explicações, dignas do elogio d'este segredo.
Segredo 18.º
Para os enganos que ha em pezos e medidas
Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois
de morto mais peza, pelo contrario o gado miudo, assim tambem para
dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer
hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a
carne se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra
parte para se endireitar.
E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou
linho, ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas
mãos, porque estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são.
Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas
baixas leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se
pretende igualar, com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o
azeite, ou vinho, cobril-o para cima, nas altas não; tanto é assim, que
para prova d'isto ponham um vaso que leve meia canada, ou mais sobre uma
meza, este cheio de vinho ou agua, ou azeite, da meza posto no chão, lhe
podem botar um vintém em moedas, moeda mansamente, todas levará sem
derramar gotta pelo motivo que temos dito.
Segredo 19.º
Remedio para persevejos, piolhos e pulgas
Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe
dois ou trez pimentos vermelhos; posto o têsto no meio da casa onde
os houver, ou morrerão ou se ausentarão.
Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a
parte onde se elles criarem, que desapparecerão.
E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela
casa, logo morrerão ou se ausentarão.
Segredo 20.º
Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem
Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso
serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas,
deitadas na vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem
todas cobertas; aos tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe
outra; assim continuando todos os tres dias na outra agua, se lhe botará
pouco sal, ouregãos, cascas de limão sem amargo algum, porque o amargo
corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, não com a mão, e assim se
sustentarão por largo tempo.
Segredo 21.º
De varias qualidades que ha no ovo
A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a
clara cálida, e reimosa; cura humores viscosos.
O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e
agastada converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre,
converte-se em outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um
auctor grave, que se um furioso continuar dois mezes pela manhã, e á
noite, comendo duas gemas de ovos crus, tornará ao seu juizo; a razão é
porque o furioso é tão contente de si que imagina que tudo é seu.
Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é
cálido; em cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai
contra a calma, e contra a enfermidade do figado.
Segredo 22.º
Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se
Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder
beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar,
que fique toda coberta, e a que fôr entrando para dentro da vasilha,
perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma vasilha nova
de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, porque a
agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha até
estar cheia.
Segredo 23.º
Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria
Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus
leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal,
fazem remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal
fóra do corpo, existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do
doutor Belloc; tomar cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este
carvão, que em pouco tempo estarão livres do mal que os apoquentava.
Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas
por muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos
recommendo este segredo.
Segredo 24.º
De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo
mez não vivem
O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco,
melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam _infortuna maior_,
porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as
cousas, supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana
emquanto terreno; acharam os philosophos o primeiro mez de nossos
concebimentos ser do dominio de Saturno, o qual não prejudica o geral,
porque ainda a materia não tem vida a qual, nos possa empecer.
O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição
sanguinea e cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á
creacão das cousas, chamaram-lhe os Astronomos _fortuna maior_; assim em
seu mez a materia se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes.
O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente,
e sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e
por outra parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos
_infortuna_; assim no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a
creatura os padece.
O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco,
comtudo é _luminaria maior_; emquanto luminaria, cria, augmenta e
corrobora.
O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto seja de per si humida,
fleumatica, e fria, tem de certa participação de quentura, com a qual
favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram _fortuna menor_;
porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é comtudo
ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e a
creança estão livres de achaques.
O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante
de todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura
está perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá
logo, porque como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro
principio que é Saturno assim--_mata_.
O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio,
humido, fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto _luminaria_ é
conveniente á creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de
sete mezes vivem.
O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario
á natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao
oitavo mez resista.
Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom
planeta, em geral todos os que nascem n'este mez vivem.
Segredo 25.º
Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter
depois de grandes
O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres
abaixo; os tres de cima chamam-se _tardos_, por serem mais vagarosos em
seu movimento, assim tambem são chamados _masculinos_. Os tres de baixo
são chamados _femeninos velozes_, porque em seu movimento são mais
ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino,
planeta natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e
Venus que são planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles;
assim pois a Lua, Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem
_velozes_, representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem
Marte, Jupiter e Saturno, por serem _masculinos-tardos_, e estarem acima
do Sol, representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a
estatura, que qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de
tres annos perfeitos, tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança
com o corpo direito, o comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça,
até aos pés dobra-se, o que se achar, que faz a dita fita dobrada, será
a estatura que a tal creança virá a ter depois de grande.
Segredo 26.º
Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar
Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo
tempo deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se
apagará, e a estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes
do espirito arder todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é
mais verdadeiro.
Segredo 27.º
Para fazer estalar por baixo--divertimento de travessos
Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado
e desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de
vinagre, isto tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar
calado.
Segredo 28.º
Tambem de entertenimento e travessura
Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes
farão o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para
ninguem lhes vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo
menos nas pernas e cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e
pondo o rato no chão agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um
lume e o deixarão que começará a correr todo cheio de lume, e quem não
souber este segredo se admirará por vêr uma pouca de lavareda a fugir de
umas partes para outras.
Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato.
Segredo 29.º
Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas
Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber
conhecer doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se
póde applicar medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É
porque nem todos os medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos
authores de Villa-Nova tiramos a receita seguinte, que é tão boa
como n'ella se verá, a qual é a seguinte:
A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa
digestão.
Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo
isto não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada.
A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa.
Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra.
A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas;
salvo se o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de
febre continuada.
A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom
sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo _Feminis_, que domina nos
braços, pois será prejudicial a sangria.
A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra
inflammação; é perigosa e quasi mortal.
A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença.
A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra
esfalfamento e outros vicios do figado.
A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de
segunda indigestão.
A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores
crus; nas febres agudas é signal de morte.
A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é
tão perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer
em febres agudas é signal de morte.
A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do
meio, demonstra hydropesia.
A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte.
A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no
fleugmatico e hydropico.
A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao
doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde
acontecer expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes.
A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa
disposição no que tiver quartans.
A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau
cheiro e alguma espuma, demonstra etericia.
A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas
resoluções redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de
febre hectica.
A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais
espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos.
A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da
parte direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa
branca, demonstra maior dôr na parte esquerda que na direita.
Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si
mesmo, demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo
pescoço, n'outros nos membros.
A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso.
A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra
paralysia.
A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com
algumas espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se
fôr sem espumas espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade.
A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota
nas partes inferiores.
A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e
nas mulheres dôr de madre.
Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco
turbada, demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga.
A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão
dos rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra
podridão de todo o corpo.
A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento
de bexiga.
A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra
pedra nos rins.
A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas
mulheres estarem prenhas.
A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca;
se fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo.
A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor
no ventre até á garganta.
E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas
tomadas, vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a
substancia, mórmente no tempo do inverno, que com o frio se colham.
Segredo 30.º
Das virtudes e effeitos da genebra
A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a
agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache
incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de
genebra, mas para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais
approvada, e com isso logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além
de vos parecer que não tiram resultado, vos affianço que é engano;
porque eu que vos descubro este segredo, em diversas occasiões tenho
feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, segredo este que
nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as suas
virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são
poucos para remedio tão efficaz.
Segredo 31.º
Os effeitos do alecrim da India
Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de
cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico.
Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em
umas poucas de folhas de alecrim da India, e botarão as folhas em
cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão uma
onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto
é dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que
fazendo isto oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque
assim como eu fiz e achei bom resultado, tambem me parece que o meu
semelhante que padecer da mesma doença tambem o achará se isto fizer
como explico.
Segredo 32.º
Para que o vinho estragado torne ao seu ser
Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou
quatro golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque
da pipa, botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma
canada d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias
vão proval-o que estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar
em sitio fresco, porque os vinhos para se conservarem não querem lugares
abafados.
Segredo 33.º
Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao
vinho que n'ellas botarem
Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e
depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de
canella e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este
fumo se entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha
ficará cheirando sempre bem.
E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro,
ao tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de
cevada em uma caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa
na vasilha, enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse
soadouro, que depois o vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom
cheiro.
Segredo 34.º
Para fazer o vinagre forte
Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel
mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã
fique mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e d'ahi a
sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o vinagre fortissimo.
Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual
operação, que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte.
Segredo 35.º
Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle
Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que
durem mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada,
cada camada de sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um
punhado de cal accesa por toda a forma; as vellas que assim se fizerem
parecerão de cêra, sem terem cheiro de sebo, e durarão muito mais porque
a cal tem a virtude de lhe dar a côr como a de cêra, e conservar o sebo
a arder sem se desfazer tão facilmente.
Segredo 36.º
Para o vinho não fazer mal ao homem
Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso,
porque o entendimento da creatura bastará para o evitar. Porém se
acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer os boxes
assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem
antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com
vinagre, que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não
seja preciso estas cousas; e quando se beber o vinho não se bebe
demasiado, para não arruinar a saude, um dos bens que o vivente tem
n'esta vida. Se ha quem diga que bebem vinho porque não podem deixar de
o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo tambem para perder esse
vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de vinho, e tapem a
vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam tomar-se
da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente.
Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho.
Segredo 37.º
Para que um cavallo pareça manco sendo são
Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre
o casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a
seda e os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada,
farão andar o cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão,
porque o grão de cevada causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o
animal mancará porque o não póde deixar de fazer. Depois d'este
segredo assim feito, tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que
ficará andando direito e causará admiração a quem o viu manco e em pouco
tempo andar são.
Segredo 38.º
Para refinar a polvora
Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez
de a refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto
fazer uso de polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto
de verão como de inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina,
secando-a depois, que este espirito dá-lhe toda a força precisa para que
ella produza bom effeito. Sei isto por a experimentar e tirar bom
resultado.
Segredo 39.º
Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o
houver, é macho ou femea
Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá
no parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é
preciso do que vêr a corôa do nascido; se o redemoinho que trazemos
de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só redemoinho o
parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou sendo um
só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será femea.
Segredo 40.º
Para se saber das virtudes da ortemija
A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao
pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta
herva, moída e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para
a pessoa que estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma
bebida muito mais substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada
a levará tambem comsigo porque tem a virtude de se não cançar tanto e
andar mais caminho, que essa virtude é um dos astros que a concede a
esta herva, assim como tambem serve para espantar as moscas de qualquer
casa, se a cozerem com leite de cabras, e depois de bem cozida untarão
as paredes com esse leite, que ellas por causa do cheiro fugirão.
Segredo 41.º
Da monstruosidade da natureza
A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella
que se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se
descobre por tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com
mais ou menos abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos
ordinarios, é algum d'elles semelhante ao de algum animal irracional;
aquelles que trazem mais ou menos membros, de ordinario póde acontecer
pela geração ser feita no bicorporeo, como são Geminis, Virgo,
Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos de membros póde acontecer,
por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem infortunados, os
quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de algum
animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo,
ou no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum
animal.
Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender
d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente
pequenos, fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo
tem disforme a cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça
demasiadamente grande, ou sendo demasiadamente grande do corpo,
demasiadamente pequeno com demasiada grossura, porque d'estas
montruosidades se póde conhecer a differença que ha dos compostos em
proporção perfeita; da natureza temos a seguinte:
Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira
proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da
natureza, o mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos,
que a estatura do maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por
monstruosidade.
A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto
um compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do
nariz tornando o compasso para baixo chegará á superficie da testa na
raiz do cabello, com o mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta
uma ponta no nariz por baixo das sobrancelhas tornando-o a uma e outra
parte chegará aos lagrimaes dos olhos de cada um d'elles, dando volta
chegará a orelha, advertindo que os dous compassos dos lagrimaes ás
orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes tres são eguaes, mas
são maiores do que os outros de que temos tratado, que é de entre as
sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de haver em
todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete compassos
dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra
que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove
rostos, contando inclusivè o mesmo.
A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o
genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o
qual se fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce
justa com uma fita se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do
dito dedo, a qual medida dobrada fará o bocal da manga do casaco ou
roupa, a medida do bocal da manga será dobrada, a medida do cabeção
dobrado, faz a medida da cintura; a da cintura dobrada em tres
terços, um terço até ao comprimento de um quarto do casaco, o outro
terço com uma mão atravessada da mesma luva, faz o comprimento da manga;
o mesmo terço com a mesma mão atravez, faz o comprimento da calça, o
ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo pé será de um palmo da
mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo polegar da luva,
da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços dos ditos
pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe
faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres
terços com mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga
e corpinho, e o mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas
medidas lhe fizerem a roupa que venha conforme e justo, poderá dizer que
é conforme a proporção da natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a
proporção de sua estatura o que temos dito; resta pois que suas obras
sejam taes, quaes convem para ser mais perfeito. Os que carecem d'esta
composição lhes convem fazerem taes obras, que com a perfeição d'ellas
fique satisfeito, á proporção do corpo.
Segredo 42.º
Bons effeitos do alecrim
O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso
fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra
e fortalece os sentidos, consome as humidades, frialdades, e todos
os males contagiosos.
O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração,
cujas raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas
as virtudes, as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e
proveito da humanidade.
Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal,
fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte.
A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta
os tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles:
as pulgas, piolhos e persevejos.
Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao
coração fazem-lhe muita alegria.
As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca,
a curam, e fecha maravilhosamente.
A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de
pão quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o
mal da gota; e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará.
O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo
serve contra todo o mal e pestes.
Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em
pó, fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações.
Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão
de centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus
humores, gasta as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que
assim usarem.
A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não
deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro.
Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se
conservarão com boa saude.
As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a
miudo, conservar-se-hão enxutas.
Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas
verdes, pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam.
Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com
agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor.
No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas
ruas, por que afina o ar e faz fugir a peste.
Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este
bem para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte:
Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos.
O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr.
O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os
males que dentro d'elles estiver.
Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol,
será para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados.
Faz-se esta agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e
colhido de fresco, põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as
pontas para baixo, não devem chegar ao fundo, tapa-se com um panno de
linho dobrado, e em cima d'este panno põe-se um bocado de fermento
que tome toda a boca do ourinol, e em cima do formento põe-se outro
panno dobrado, e ata-se muito para que não saia bafo algum, põe-se o
ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 dias e d'alli se fará uma agua
muito importante para os olhos. Quando essa agua estiver prompta,
deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao sereno
outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella
e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua
se lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras
ao meio dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão.
Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e
flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque
purifica o sangue.
O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar
da cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o
apetite de comer.
A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado
tomando-as em vinho e mel.
As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz
muito bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria.
Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer
defluxo da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas
devem ser cozidas as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr
encontrado.
Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres
colheres de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade
de comer e lhe fará fortaleza no estomago.
Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o remedio da peçonha;
mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito.
Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se
seguem tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida,
porque tira a dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é
remedio para a canceira, para a suffocação do coração, dá alento e vigor
á velhice, conserva a mocidade, fortalece os membros e aviva os sentidos.
Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas
todas as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito
tenho tirado d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu
o tirará e se conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo
humano.
Segredo 43.º
Para a azia
A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a
creatura causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta
para nos incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um
segredo pelo qual em um instante fiquemos alliviados da garganta, é
segredo economico, barato, pois se algum de vós tiver azia é só pegar em
uma cebolla: tem poder para a fazer sahir. Se houver quem não goste
d'este objecto dou-lhe tambem por approvado: comerão amendoas
amargosas que tambem ficam livres d'esse mal.
Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes
dois segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso.
Segredo 44.º
Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais
encorpados e de mais forças
Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães
e amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são
tenros, bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais
fracos e debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que
fique largo das espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve
tirar fóra, quero dizer vestidos, senão de trez mezes por diante, assim
ficarão sendo mais corpolentos e forçosos, porque se vão criando com
todas as forças da sua natureza, cujas forças não lhe abrandam tanto,
como se forem criados como acima disse.
Segredo 45.º
Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou
no crepusculo
A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de
baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos
direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos
que nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas
sempre pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e
se levantar mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de
noite.
Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de
noute, o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de
pela manhã tanto que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o
crepusculo da noite conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a
noute.
Segredo 46.º
Da ethmologia dos dedos das mãos
O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva
poder, porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que
firme fique, n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando
a entender o muito que podem valer com seus reales.
O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque
nos serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos
trazer os anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes
nossa saude se governa.
O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no
meio de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis,
significando fortaleza e esforço.
O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter
uma veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista
de todas as pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para
evitar a melancholia e outras paixões que acodem ao coração. Muitas
pessoas costumam usar de anneis, mais pela tradição antiga, que pela
razão atraz escripta. Quem trouxer n'este dedo um annel com uma pedra de
Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão sómente bom para a
melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas.
O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular,
porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam
trazer os anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são,
e não pela valia do ouro.
Segredo 47.º
Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as
podemos remediar
As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma
meza com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está
quieta e segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais
comprido, isto só é bastante para que os outros tres com a meza venham
ao chão, da mesma maneira a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas
quatro compleições de que somos compostos estão eguaes conforme á saude
no corpo, porém tanto, que alguma d'ellas se altera ou sobrepuja ás
outras, causa no corpo a doença conforme sua qualidade. Porque da cólera
se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e outras enfermidades
semelhantes.
E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras
semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de
madre, colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se
geram tristezas, humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes.
E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar
credito, por não terem razão nem fundamento algum, são sómente
phantasmas que se representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo.
Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que
os taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita
compleicão, assim sabendo que seja se póde remediar com defensivos,
que á tal compleição alterada applicam.
Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que
incitam a cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe
póde dar remedio.
E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á
agua predomina a fleuma.
E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas,
perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio.
Segredo 48.º
Para o fogo não queimar
Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma
clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra
qualquer parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão.
Segredo 49.º
Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que
tiver
Temos a notar que as compleições atraz declaradas tem aquelles
effeitos em quanto distinctas, mas pela mistura d'ellas formam outras
quatro compleições, que são as do temperamento, colerica, sanguinea,
fleumatica, melancholica. Da do temperamento não trataremos, porque não
é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha alteração e não póde
haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é parte mui
essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para sua
saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os
puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco
a seis horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e
meia; os puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos
bastam-lhe seis e meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete
a oito, os fleumaticos melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e
meia; os puramente melancholicos bastam-lhe oito a nove.
E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se
perde por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo,
o móe e debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades.
Note-se tambem que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é
prejudicial á saude soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor.
Segredo 50.º
Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente