Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e

chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem

sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o

estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim

desgraçado de homens notaveis,--Euripides despedaçado por uma matilha de

cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a

mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o

caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:

--É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que

falla francez!

--Sério? perguntavam todos.

--Ha quem o ouvisse.

Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta

quando appareceram os primeiros em Lisboa.

--É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...

--Sim, sim.

--Deixa andar a mãe a pedir esmola...

--Sim senhor.

--Até anda de chale-manta!

--O quê?!

--Palavra de honra.

Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha

«coisa má»--e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já

ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da

sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre

que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se

alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A

mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra

qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se

manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae

azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado

de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso.

«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a

quem; querer remar e não ter braços. O _politicão_ que passa a vida a

recusar pastas que não lhe offerecem--diz que o paiz tem «coisa má;» o

beberrão que troca as pernas--accusa de ter «coisa má» o vinho de mais

que bebeu.

«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não

tem!...

XIII

As mulheres de virtude

O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e

de vista--apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a

que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca

quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a

dignar-se sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal

de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa

não os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe

as costas e dá ás de Villa Diogo!

De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores

para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude

na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao

_Pero Pico

que viveu pouco e pobre

e finou rico!_

As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a vida

seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em

philtros, ás _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ são as

_chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As

crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da

melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem

elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das

cartas tudo que vae pelo mundo.

Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas

_mulheres de virtude_, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam

de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as

ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas

onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de

roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com

liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres

casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se

enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um

cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia,

esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas

ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á meia noite de sexta feira em

que fosse lua nova.

As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem

condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas

no lar domestico, creadas na solidão--mais profunda sempre que a do

homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida.

Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas

mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes

parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:--acreditam

todas na fatalidade--e a fatalidade é a mãe da bruxaria.

Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que

lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma

escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela

senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha

com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires

com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em

cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa,

dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:

_Deus te fez,

Deus te creou,

Deus te desolhe

De quem mal te olhou.

Se é torto ou excommungado,

Deus te desolhe do seu mal olhado._

Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a

cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos,

vão resmungando de fórma que mal se perceba--«Sant'Anna teve a Virgem, a

Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal

olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae,

não tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer

obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer

dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á

consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje

um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para

fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...--Sei tudo isto

por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.

Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar,

vellas de cêra, e--como diz o povo--_para compôr_, um pouco de cabello.

O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello dá amor,

lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica.

Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o

amor conjugal a limites extremos--o que não o impediu de casar por duas

vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe

por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para

conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que

haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranças de

cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera

a desgraça de as perder, e mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o

topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma

côr--mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem

nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de

virtude!...

Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que só dá por

isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem

soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite

correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados,

logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras:

«Vôa, vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não

sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite,

espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a

resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o

espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou

de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima

de toda a folha!» disse:--«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!»

Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a

rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...

Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a

si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas

lhe estão chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me

que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende.

Ora as _mulheres de virtude_ são bruxas que aprendem. Vae aquella arte

de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás

vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber:

até se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir

seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer não; a

sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na

cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao

genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher

de virtude_ é o que tem havido melhor!

Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra.

Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo,

dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam

nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e

choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece

com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio...

Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados;

ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama

piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas

tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como

que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de

contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as

cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella

estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima,

apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o

_amante_, o cinco de copas são _lagrimas_, o az de paus _fandangos_

(amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres

de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus

_prisão_, e a espadilha _affirma_!

É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma

estupidez--é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de

casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!

Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a

inquietação, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e

de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na

mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas

rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no

fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza,

no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e

clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de

alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no

palavrorio de resa que precede o _botar a falla_:

--Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho

e arruda--maravalhas e palhas de alhos!

Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia

na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do

acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os

conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas

essas allucinações de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguiços_,

_encantos_, _agouros_, _feitiços_, _sonhos_, _sinas_, _coisa má_,

provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas _mulheres de

virtude_. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer

no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor

não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas

que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a

chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão

em duas coisas,--em enguiços e em economias! O mesmo _deficit_ de que

tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim

somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes!

FIM

INDICE DOS CAPITULOS

PAG.

I--Os doidos................... 5

II--As doidas................... 23

III--Os idiotas.................. 41

IV--Os furiosos................. 59

V--Telha....................... 77

VI--Enguiços.................... 97

VII--Agouros..................... 117

VIII--Feitiços.................... 135

IX--Encantos.................... 155

X--Sonhos...................... 175

XI--Sinas....................... 193

XII--Coisa má.................... 213

XIII--As mulheres de virtude...... 231

Da Loucura e das Manias em Portugal · 第 5 / 5 段