Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das

apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e

apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão

para saguão,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a

loucura!

É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que

nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado,

merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que não teem

desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos

livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em não havendo causas grandes,

as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco

de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao

chão do mesmo modo.

--Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!

--Ai! Com cominhos!

--São pragas! É praga que me rogaram.

--Credo! É facil ser!

E dá-se credito.

Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril

de polvora sem pegar fogo--estou que não acreditam ao ponto de se

deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha

seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto

matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra

_prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem

se atreverá a pôl-o em duvida?!

Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,--por tal fórma os males

imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu

ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi

pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou

dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e

metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a

conseguil-o:

«Gloriosa Santa Helena

Filha da rainha Irena

Moira foste, christã vos tornaste.

Nas ondas do mar andaste,

Com as onze mil virgens vos encontraste.

Com ellas pão e queijo ceaste.

Ao crucifixo vos encostaste

Tres cravos que tinha lhe tiraste.

O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo

déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a

batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha

gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae

em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas

lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim não

é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras

e aguas turvas, _Amen_.»

Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos

dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo

seu pé. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de

Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse

em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter

mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites

depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha--foi

atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã

lavar a loiça;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa

limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi

deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se

passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o

gallego.

--Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!

Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno,

interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos

acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu

a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em

si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte

pergunta:

--Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?

Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e

sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que

perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.

De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso....

Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á

noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, já se vê:

--É verdade que tu andas de cabeça no ar?

--Ando.

--Por causa de quem?

--Do primo José Maria.

--É possivel! E porque é isso?

--Porque elle é bonito, e tu és feio.

Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.

A grande preoccupação popular são os pesadelos,--sonhos negros,

carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça

que causámos.---«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na

_Nova Castro_. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances

mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os

primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os

chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois

de morto, para confessar um peccado que não tinha dito.

Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo,

faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos

a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos,

reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas

com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a

ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que

se vê!

Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz--quando não se possa

sel-o de outra fórma. Sempre são horas de ganho sobre os enfados e

cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se

alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da

Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os

claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos,

que morreu espertando.»--É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e ás

vezes da felicidade!

XI

Sinas

Portugal é a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o

paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas...

e as grandes, ao pé do amigo lar.

Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os

gatos): de 13 de fevereiro a 20 de março, nascem os que hão de ser

gastronomos:--de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes,

com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum

animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma

grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho,

os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente

destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;--de 23 de julho até 25

de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de

esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou

aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro

escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de

setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a

gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de

namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:--de 24 de agosto a

21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos

ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se

emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na

patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:--de 24 de

outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia;

mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;--de 23 de

novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á

navegação; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de

janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco

saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho,

brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros,

quasi todos militares.

Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo.

Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos

succeder depois de nascer... ou antes. A mão o dirá. Na mão ha

muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e já se vê

que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:

--Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!

Ou:

Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!

Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:

Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;--avareza, mão dura e

encarquilhada;--luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos

na base;--ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mãos

compridas e ossudas;--preguiça, mão branda e macia:

Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as

linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão

direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que

isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre

a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que

logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão _esquerda_!

A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter

poesia se fosse dita e sentida de outra fórma. Comprehende-se que

quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações

que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por

exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem

lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma

coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das

magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os

raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não

passa de ser mais um satelite--e a esperança é um dos nossos tambem,

nuvem de guarda que nos vae consolando com as visões...

A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de

cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se

gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque

motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para

ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os

defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se

lhe tem?!

É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem

no tronco centenario dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros

negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir

fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros

armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa

material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!

Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de

continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria

das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais

bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util

entregar-se, termo medio, de sete em sete annos áquella operação.

Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna--sem ver

apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de

voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda

representação de vaccina:--trinta segundos; depois, já se vê, da meia

hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres

borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha

febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois

annos tem bexigas. Diz o povo:

--Era a sua sina!

As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do

fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi

sempre fatidicos; lá se diz na _Chronica de D. Sebastião_ por Fr.

Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado

Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia:

«Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a

sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que

mudasse para outra mais alegre.

Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho,

porque até os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco,

por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para

mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para

o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso,

o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o

espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle!

Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada,

não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde

zombar, póde não crer;--a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa,

cassoista. Um moço elegante e pallido que durante um tempo foi

grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a

côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha

memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as

mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que

tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder

de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe

tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua

respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz

complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse--deixou-o

esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes,

conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O

outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á

perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O

das mãos grandes, sempre lendo, disse:

--Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, _tó_, _tó_, anda cá

tollo...

E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...

O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia

perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão

phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...

Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás

vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da

vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma

borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá

sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é

isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer

dar ás azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar,

alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!

A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a

_buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a

assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e

escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de

rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle

mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia

tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas,

o canto do cuco!

A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de

_D. Branca_:

Por onde o traz seu fado?

Oh! negra sina entrou n'essa familia...

Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de

ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força

alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para

ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões,

e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um

freguez, que a unica coisa que não furtava era a má fama que tinha.

Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão

tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão

obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez

quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--«Pratos 800 réis.»

--Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?

--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.

A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os

cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz

sempre justiça, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os

monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes

e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do

pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem.

Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a

que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice!

XII

Coisa má

«Coisa má!»

«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser

preferivel á ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma

canellada do que encontrar certas caras!

«Coisa má» é a lua de março; a lua marcina, como lhe chamam no

campo--que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não

passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e

não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de

varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que

passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram

sem que recebessem cinco réis em troca...

Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços,

armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não

ha objecto que não tenha morador, que não tenha inquilino, que não

tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com

o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja

e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis,

pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça...

Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente--que nem que fosse um

cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo

chapeu novo, é sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira

vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder precalço; anda um

homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam

pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se

está passando...

Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno,

capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na

estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos

sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.

Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde

te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de

fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali

roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de

algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a

ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel!

Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do

trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo

á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,--ou, o que

ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por

não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites

sem graça e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a

vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?

Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do

trinco--não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo

preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e

toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta,

até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!

Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil

historias de «coisa má,»--poços que atiram para fóra com o que se lhes

deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos

pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...

Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz

e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de

inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar...

Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que

cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite

origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite.

Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas,

e adoral-a por não saber que explicação lhe dar.

Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que

havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos

principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no

poema da _Monocléa_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e

zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da

sua gloria:

De um olho claudicava de tal arte

Que celebre se fez em toda a parte.

Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um

agiota, sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres,

debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e

financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança--a 9 por cento.

Dizia-lhe um amigo:

--Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus

vê tudo, e estou que não te perdôa essa!

--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de

cima parece um 6.

Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em

que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde

o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de

barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que

até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos

sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto

do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz

carta ou traz más novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o

fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em

casa;--ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar

castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mão;--é

n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas

horas, e fica sem o botão do collarinho...

Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series

como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não

chegam mais dois; tres é o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem

haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar

n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra

vez a bomba.

É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha

aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas

relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e

tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos

consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira

carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é

raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a

pera e o queijo o fado de João Brandão!

Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa

tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem,

muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim,

que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a

gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama

das arvores;--ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem

attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está

no fundo a coisa má;--e esses objectos a que mais se quer serão os que

hão de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o

quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo

contra vontade!

E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»--o amor, a formosura, a

mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que

ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que até têem azas como os

anjos, e voam como as andorinhas!

Da Loucura e das Manias em Portugal · 第 4 / 5 段